Redes sociais: um palco para todo tipo de espetáculo

“Hoje, mais do que nunca, deixamos de ser ouvintes, telespectadores e eleitores. Viramos consumidores e produtores de conteúdos”

Por: - 1 ano atrás

De uma coisa, ninguém duvida: a internet veio para ficar e bagunçar nossas convicções. A cada dia, surge uma nova rede social. Um novo palco para o debate. Cada qual com suas regras e etiqueta.

O Facebook é o picadeiro da opinião. Todo mundo se sente apto a emitir um ponto de vista sobre qualquer assunto. O Instagram é lugar da ostentação. Pose, filtro, foco, close e sair bem na foto. No Twitter, é preciso falar pouco, falando muito. Isso nem sempre dá certo. Acostumados a amaciar as palavras com voltas e voltas, ser obrigado a falar em 140 caracteres é um desafio gigantesco para nós. Em geral, resulta em grosseria ou em delongas.  No Snapchat, é a vida como ela é. A instantaneidade permite temas sem importância. Aparecer com remela nos olhos, falando com a boca cheia ou com uma careta sem sentido é a regra. Pode-se tudo.

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Apesar das diferenças, não estamos atentos ao verdadeiro papel que as redes sociais têm tido na vida dos brasileiros. Se por aqui, vivíamos cercados e protegidos pelos muros de nossas casas e condomínios, com o acesso às redes sociais, os muros caíram e criamos novos canais de contato e comunicação impensáveis anos atrás. Hoje, mais do que nunca, deixamos de ser ouvintes, telespectadores e eleitores. Viramos consumidores e produtores de conteúdos para além das categorizações postas pelos experts em marketing. Foram as redes sociais que nos permitiram olhar o mundo para além dos nossos quadrados e nos permitiram inventar novas clivagens para nossos universos.

Um evento ilustra bem esse movimento. No ano passado, o apresentador Fausto Silva recebeu as irmãs Simone e Simaria em seu programa. As cantoras já foram back vocal de Frank Aguiar nos tempos de sucesso do artista. No palco, estavam algumas personalidades de cena nacional: a ex-jogadora de basquete Hortência, o ex-judoca Flávio Canto, entre outros atores famosos da emissora. Fausto Silva não sabia nem pronunciar o nome de uma das cantoras. Os convidados famosos não imaginavam de quem se tratava e olhavam, estupefatos, para as meninas dançando os passinhos do arrocha.

Enquanto isso, o público, mais de 300 pessoas na plateia, cantava o refrão do forró modernizado como se fosse o último must-listen das paradas de sucesso. Simone e Simaria eram famosas e eram ovacionadas como qualquer grande astro nacional, sendo que, até então, jamais haviam aparecido em nenhum veículo de comunicação de massa.

Foi a internet e as redes sociais que proporcionaram fama às irmãs. Através delas, as cantoras tiveram a chance de construir uma imagem de sucesso para um público específico e ganharam espaço no mercado de atenções de um nicho. Isso tudo, para além do que os críticos, os especialistas e os donos da mídia pensam, acreditam ou desejam. Ser de nicho, deixou de ser pequeno. Aliás, em muitos casos, isso pode até significar ser maioria. Não vai dar mais para ficarmos de olho apenas no que dizem os especialistas. Eles já não sabem o que não sabem.

Até a próxima!

*Michel Alcoforado é antropólogo e sócio fundador da Consumoteca, uma butique de conhecimento especializada no consumo e nas tendências de comportamento do brasileiro