Medite, logo inove

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Por: Graziela Di Giorgi 3.585 views

"A meditação é um meio poderoso para adquirir o autoconhecimento, através do aumento da consciência do funcionamento da nossa mente"

“Duvidamos do positivo ou do negativo?”, ouvi essa pergunta em um curso de meditação¹ e, após refletir um pouco, me dei conta de que sua resposta está diretamente ligada a um dos vieses cognitivos mais fortes que carregamos – a aversão à perda que, silenciosamente, influencia nossas decisões de uma forma assimétrica. Contextualizando a pergunta, podemos pensar que a crítica normalmente tem um peso diferente do elogio, por considerarmos o negativo como certo, enquanto o positivo é, frequentemente, colocado em cheque. Isso é tão verdade que até mesmo o ditado popular “quando a esmola é grande até o santo desconfia”, o reforça de certa maneira. Essa desconfiança excessiva deve morar no nosso próprio mecanismo de evolução, ativada diante de ameaças que significassem perigos eminentes, servindo para assegurar a nossa sobrevivência.

Dessa forma, desconfiamos do positivo porque tendemos a valorizar mais as perdas do que os ganhos. Para corroborar com esse ponto, em 1970, dois psicólogos – Daniel Kahneman e Amos Tversky – , através de pesquisas experimentais calcularam o grau dessa assimetria sendo de-dois-para-um. Ou seja, “odiamos perder duas vezes mais do que adoramos ganhar.” Se concordarmos que toda nova ideia envolve riscos, diante dessa descoberta, tenderemos a dar duas vezes mais ênfase no erro (e evitar toda ideia disruptiva), a apostar no sucesso do seu desenvolvimento.

Ora, se para inovar temos que contar com certa tolerância ao erro, será preciso trabalhar o nosso processo mental, entendendo como pensamos para mudar como agimos. E o primeiro passo para isso é tomar consciência das barreiras mentais que nos boicotam inconscientemente. A frase, “Penso, logo hesito²” , adaptada da outra mais famosa, certamente define bem a dificuldade que temos em tomar decisões que exigem algum esforço cognitivo. O apego, por exemplo, funciona como a “mãe” de outras sequelas, como a ansiedade e a depressão, oriundas da nossa dificuldade em lidar bem com perdas (toda escolha implica em renúncias, ou perdas).

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O apego nasce da aversão à perda, que procura evitar tudo o que pode dar errado, mesmo sabendo que erros acontecem ao trilhar um caminho diferente. Ele está relacionado à insegurança e aos desejos de possuir e controlar, que assola as empresas
convencionais, aquelas que não abrem mão de controlar riscos, em prol do aumento de faturamento – uma postura autocentrada, oposta à visão sociocentrada adotada por empresas focadas em identificar necessidades reais e gerar valor para as pessoas, e aumentar o faturamento, como consequência. A ansiedade surge quando focamos no futuro, e a depressão, quando a nossa preocupação está focada no passado. O imediatismo, estimulado pela ansiedade, trabalha no sentido contrário ao exigido para inovar. Ele pede por resultados a curto prazo, inviáveis de serem cumpridos em um processo sem garantias de sucesso e no qual é preciso investir no momento presente, para obter resultados no futuro.

E a meditação é um meio poderoso para adquirir o autoconhecimento, através do aumento da consciência do funcionamento da nossa mente, evitando que sejamos dominados pelo negativo, ao trabalhar o desapego, o autocontrole e o aumento da nossa percepção. A simples transformação dos sentimentos negativos do erro em aprendizados é uma forma de praticar o desapego: “ou você ganha, ou aprende”. Assim como desenvolver a capacidade de se adaptar a novas situações, que exige desapego a verdades e a atitudes estabelecidas. Ou ainda exercitar a nossa capacidade de não julgar os outros, suas ideias e opiniões.

A observação da nossa mente em silêncio, durante a meditação é uma prática por si só de não julgamento e de desapego. Ela ensina que não devemos julgar os pensamentos que surgem durante o momento em que estamos meditando. A meditação funciona como uma dança mental, ao observarmos o ir e vir dos nossos pensamentos como se olhássemos a nós mesmos pelo lado de fora do nosso corpo. Administrar essa dança é praticar a tolerância e a gentileza, não matando os pensamentos, mas respeitando quando cada um aparece, ouvindo-o para diluí-lo. Quando buscamos não julgar o nosso próprio processo mental, passamos de sujeito a objeto. Ao nos observar, tornamo-nos o outro e, com isso, praticamos a empatia, uma forma de exercitar o desapego. Sendo o outro por um instante, tomamos consciência do nosso pertencimento e conexão com o todo. Ampliamos a nossa percepção por observar o que está em volta, ao nos afastarmos de nós mesmos. Enquanto o apego está diretamente relacionado ao egocentrismo, meditar foca no sociocentrismo, permitindo que tenhamos mais tranquilidade e
harmonia pelo desapego encontrado na conexão da nossa essência com esse todo.

Levando esses ensinamentos para o dia a dia, passamos a nos levar menos a sério, relativizando nossas verdades, por ouvir, sentir e ver valor nos outros, mais do que somente em nós mesmos. Através da prática da respiração e da observação de como a nossa mente funciona durante o silêncio, a meditação busca oferecer um controle das nossas oscilações mentais, de forma a manter a nossa mente continuamente no presente, aumentando o nosso autocontrole e diminuindo o volume da ansiedade. Um dos principais efeitos da meditação diária é uma mudança perceptível para o foco no agora, aumentando o nosso poder de concentração e de realização em cada momento.

Ao identificar e tratar essas barreiras que boicotam nossas decisões, estaremos mais preparados para inovar: o apego dá lugar à coragem para aprender algo novo, a ansiedade à visão de longo prazo, trazendo o futuro para o presente e o egocentrismo cede passagem para a empatia para ser realmente pertinente para as pessoas. É conhecer como pensamos, dando consciência a algo até então inconsciente, o que as empresas que considero Humanas já aplicam na prática, ao serem autênticas, empáticas e visionárias, diferentemente das Iguanas medrosas, autocentradas e imediatistas.

Ao final, e com a ajuda de um pouco de poesia, e perdendo um pouco a cada dia, descobriremos que a “a arte de perder não é nenhum mistério”:

“A arte de perder não é nenhum mistério.
Tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita. Nada disso é sério…”
Elizabeth Bishop, One Art

Medite logo, e inove!
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*Graziela Di Giorgi é sócia da Opt-Inn, diretora Brasil da SCOPEN, escritora do livro O Efeito Iguana, professora do IED e da ESPM e mentora do Programa InovAtiva Brasil

¹Quando menciono a prática da meditação, faço referência também às técnicas de respiração e exercícios de Yoga, contemplados na prática mais conhecida como Mindfulness, que formalmente significa “o processo de se tornar consciente.”

²Frase criada pelo meu pai, Plinio Di Giorgi

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