A vida após o prejuízo: para onde vai o Snapchat?

A vida após o prejuízo: para onde vai o Snapchat?

Por: André Jankavski 7.726 views

Rede social enfrenta crise por conta de resultados e falta de projeção futura. Entenda os desafios e problemas da controladora do Snapchat

A nutricionista Carolina Lana pode ser considerada uma usuária assídua – e até mesmo dependente – das redes sociais. A frequência de suas postagens é alta. Na falta de uma, ela possui duas contas no Instagram – uma pessoal e a outra voltada para dicas de alimentação. Se considerarmos apenas a parte de “stories” da rede social, Carolina posta ao menos três mensagens todos os dias. No fim de semana, esse número mais do que dobra.

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Antes do Instagram, Carolina atualizava constantemente o seu perfil na rede social Snapchat, que criou o conceito e a ferramenta de postagens de fotos e vídeos que desaparecem em 24 horas. Jovens de todo o mundo aprovaram e começaram a usá-la. Neste ano, contudo tudo mudou. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e dono do Instagram, decidiu copiar exatamente o que diferenciava o Snapchat. O golpe não poderia ter sido mais certeiro.

“Tenho mais seguidores no Instagram, então minhas mensagens impactavam mais pessoas”, afirma Carolina. “E ficou muito mais fácil concentrar tudo em uma rede social.” O seu perfil no Snapchat está parado, assim como de vários dos seus amigos.

A nutricionista Carolina Lara trocou o Snapchat pelo Instagram

Pessoas como Caroline estão trazendo um impacto duro para as finanças da Snap Inc., que controla o Snapchat, e para as suas ações listadas na bolsa de valores de Nova York. No resultado do terceiro trimestre de 2017, a empresa registrou uma receita de US$ 208 milhões para um prejuízo de US$ 443 milhões.

Como é uma empresa em fase de expansão acelerada, o valor do prejuízo não chama tanto a atenção. Afinal, os investidores estão esperando um retorno grande no futuro e não para agora. Um dos motivos que abalou muito o mercado, no entanto, foi o número de usuários novos.

Segundo o Snap, apenas 4,5 milhões de novos usuários diários foram acrescentados à plataforma de julho a setembro. Agora, são 178 milhões de usuários diários postando algo diariamente no Snapchat.

O grande problema é que a cópia – leia-se as ferramentas do Instagram e do WhatsApp – já soma 300 milhões de usuários diários.

Perda de valor bilionária

Os números fizeram as ações da companhia desabar. De terça (8) até esta quinta (9) os papéis tiveram depreciação de cerca de 18% e caíram para US$ 12,35. Trata-se do menor valor histórico. No IPO a ação foi precificada em US$ 17. A reação do fundador da companhia Evan Spiegel foi imediata.

Dia de estreia na bolsa de Nova York. As ações do Snap Inc. estão em queda

Ele anunciou mudanças no design e na forma de distribuir as mensagens. As alterações mais perceptíveis ocorrerão no layout e privilegiando uma forma de conteúdo personalizável, que ainda não teve mais detalhes divulgados pelo executivo.

Outra empresa que está de olho nesse movimento é a chinesa Tencent Holdings, que controla, entre outros negócios, o aplitcativo de mensagens WeChat.

A companhia possui 12% da Snap Inc. e prevê que novas funcionalidades, como jogos e mais anúncios, também farão parte da plataforma. Detalhe curioso: o Snapchat é proibido na China.

Apesar da ofensiva, o Snap Inc. ainda precisará combinar com os russos. Ou melhor, com os anunciantes. Aqui no Brasil, por exemplo, o interesse na plataforma caiu. Um exemplo é a agência paulistana AKM. Especializada em anúncios nas redes sociais e com cases de marcas como Johnson & Johnson e Visa, a companhia não faz mais trabalhos no Snapchat.

Aliás, a própria agência convence os clientes a não anunciarem na rede social. “Quando nos perguntam sobre a plataforma, mostramos com dados e números que Instagram e Facebook trazem mais resultados”, afirma Mauro Nogaroto, vice-presidente de novos negócios da AKM. E o trabalho  de convencimento nem está sendo tão grande. Segundo Nogaroto, já faz um ano do último pedido de propaganda na plataforma fundada por Spiegel.

Ceticismo do mercado

Além dos anunciantes, no entanto, a empresa precisará resgatar a confiança do mercado. As últimas ações tomadas pela companhia não têm trazidos resultados positivos. Muito pelo contrário.

As vendas dos seus óculos Spectacles, que têm como principal função gravar e transmitir vídeos, ficou bem abaixo do esperado. Somente eles foram responsáveis por um prejuízo de US$ 40 milhões.

Outro fator é o fluxo de caixa negativo. Ou seja, além de não ganhar dinheiro a empresa está gastando muito mais do que suporta. Por isso, o dinheiro de investidores é tão importante. “E o detalhe é que os executivos estão cada vez mais ariscos, o que pode ser terrível para o Snap Inc.”, afirma Marcelo Nakagawa, professor especializado em inovação e empreendedorismo do Insper.

Coisa de novela

Uma história conhecida de todo o mercado é que o Facebook fez uma proposta de US$ 3 bilhões pelo Snapchat em 2013. Como o Facebook estava ficando com uma média de idade alta, os jovens passaram a mudar para a concorrente. Fazia todo o sentido a aquisição.

Na época, Spiegel, com apenas 23 anos, rejeitou a proposta de Zuckerberg e ainda afirmou: “Há muito poucas pessoas no mundo que conseguem construir um negócio como este.”

De fato. O único problema é que ele não contava que Zuckerberg agisse como espécie um pretendente ressentido e rejeitado. Agora, Spiegel precisará provar ao mercado que a sua empresa conseguirá dar a volta por cima e voltar aos celulares dos jovens de todo o mundo.

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