Estudiosos do comportamento humano: não façam roteiros

“Quando já estávamos em um ponto em que já não sabíamos voltar, demos de cara com homens armados – bem armados. Fugimos do roteiro”

Por: - 8 meses atrás

Acabo de voltar de viagem e, depois de uma jornada, fiz um balanço: roteiros nem sempre funcionam. Nós nos preparamos minimamente para uma viagem, elaboramos a mala, pensamos nas intempéries climáticas, nos eventos dos quais participaremos, nos lugares que sonhamos conhecer. Pois bem: nada disso é importante quando uma soma de elementos se unem e desconstroem todo o seu planejamento. Como fazer? Explico. Em um mergulho no entendimento de um grupo, de uma sociedade, de um target, tudo e nada faz sentido ao mesmo tempo. Mas, não depende de você e não adianta prometer para o seu contratante, para o seu cliente, pois vivemos com situações inevitáveis.

Chega de achar que somos profissionais do impossível. Nós não somos e não adianta buscar explicações: o problema nem sempre tem uma possibilidade de resolução e, sim, nós temos um limite. Portanto, deixe a síndrome do herói de lado porque, cedo ou tarde, você falhará.

Procuro jovens que usam lan houses. Preparo um roteiro incrível. O cliente aprova. Há blocos temáticos em todo o percurso das perguntas, todas são milimetricamente encadeadas, há um flow – às vezes elas são engraçadas e dão um tom divertido. Seguimos para uma favela com o cinegrafista – é um lugar famoso, estabelecido, não haveria problemas, afinal, nunca houve. Vai dar certo.

Confira a edição digital da revista Consumidor Moderno!

Chegamos e somos “buscados” no pé do morro pela mãe do entrevistado. Ela nos orienta escada acima mas, quando já estávamos em um ponto em que já não sabíamos voltar, demos de cara com homens armados – bem armados. Fuzis, escopetas, máscaras e chinelos compunham o figurino. Perguntas são feitas e respondidas prontamente. Precisamos manter uma serenidade que, obviamente, nos falta. Fugimos do roteiro.

O que fazer? Se voltarmos, ficará parecendo que há um problema em estar ali – na verdade, há todo problema do mundo em estar ali. Mas, ao mesmo tempo, não poderia transparecer que estávamos incomodados, porque estamos em território do outro, como poderíamos expressar desconforto abertamente? Então, continuamos até a casa do entrevistado.

A entrevista se dá de forma truncada – já experimentou fazer uma entrevista em profundidade e uma imersão etnográfica depois de uma recepção calorosa na qual um dos interlocutores tem um fuzil na mão? Bem-vindos ao meu mundo. O mundo onde “fingimos” que tudo é normal, mas não é.

Depois de duas horas, fomos levados para outra casa  – do segundo entrevistado – e esse deveria ser mais um momento comum. Porém, fomos arguidos, fotografados e questionados sobre a natureza do estudo. Já estávamos abalados profundamente e, para piorar, ao pedir para fotografar algumas telas do celular do jovem entrevistado, vimos que havia fotos nada tranquilas de serem visualizadas naquele contexto: o rapaz segurava armas como troféus.

Leia também: Quando a pesquisa deixa de ser pesquisa

No lugar onde estava aquela arma, deveria haver uma garrafa de ice, ou medalhas do campeonato de futebol que ele havia participado. Nas mãos dele deveria haver um skate ou um boné de uma marca de grife, milimetricamente copiado por talentosas confecções locais e vendido em feiras livres tão comum na nossa cidade. Não foi bem assim.

Será que estávamos entrevistando um soldado? Pois é: lembra que eu disse que não adianta ter um roteiro? Eles nem sempre funcionam e, nesse caso, precisamos seguir por atalhos para nos ver livres de situações como essa, para sair do mundo que nos choca, nem tanto pelo sentido de perigo, mas pela iminente agressão violenta que presenciamos. Uma situação que nos coloca para pensar no perigo ao qual ficamos expomos ao realizar estudos in situ. Na hora, se pensa em não voltar mais para casa e na saúde dos nossos familiares que poderão ser impactados pela notícia.

Ao fim, somos escoltados até o asfalto: a tarefa foi cumprida, a adrenalina diminui e nos dá um grande desespero – “nunca mais faço trabalho de campo, não nasci pra isso”, penso. Tempos depois, o episódio vira conversa de bar, aumentamos alguns pontos e somos elevados a verdadeiros heróis.

Contos de antropólogos podem ser comparadas com as de pescadores, a diferença é que nossas histórias podem parecer muito mais verossímeis – afinal de contas, quem se interessa pelo tamanho dos peixes? No mundo das pesquisas o tamanho da arma de fogo impressiona muito mais, infelizmente.