Do artesanato à experiência: o consumo é igual a um bolo de aniversário

Do artesanato à experiência: o consumo é igual a um bolo de aniversário

Por: Clara Bianchini 6.896 views

Clara Bianchini, cofundadora da inovação Co-Viva, compara a história do consumo a bolos de aniversário. Confira o que há por trás dessa metáfora

Imagine que você viveu na Era Agrária, lá por volta de 1700, e você quer fazer um bolo para a sua festa de aniversário. Nessa época você conseguia comprar matéria-prima (leite, ovo, farinha, manteiga) de organizações que as extraiam da natureza. Extrair matéria-prima da natureza era o principal papel econômico das organizações daquela época. Assim, todos os produtos e serviços dessa Era tinham algum atributo comum: eles eram todos naturais. E, para vendê-los, os comerciantes publicitavam basicamente suas características (ovo da galinha de tal espécie, leite da vaca de tal raça, farinha moída ou rústica, etc). O preço dessa matéria-prima era barato, e com apenas R$ 2 ou R$ 3 e, se ficasse algumas horas na cozinha, você conseguia fazer um delicioso bolo para comemorar seu aniversario com os familiares e amigos próximos.

Porém, lá por volta de 1850 você começou a trabalhar nas fábricas e ficou ocupado para fazer um bolo igual fazia antes. Isso mesmo: estamos agora na Era Industrial e máquinas foram introduzidas no processo de produção de mercadoria. Agora as organizações pegam a matéria-prima, e através do processo de produção, são transformadas em mercadorias para vender.

São, por exemplo, as caixas de mistura pré-pronta para bolos, que algum dia do passado já utilizamos em alguma ocasião. Todas as mercadorias essa Era possuem algum atributo em comum: elas são padronizadas. E as organizações publicitam principalmente o fator utilidade (“misture com ovo e asse em apenas 30 minutos”). Porém, agora, para você fazer um bolo, precisaria de cerca de R$ 5 ou R$ 7 para comprar uma caixinha de massa pré-pronta, já que com isso você teria a utilidade de economizar 30 minutos no processo de fazer um bolo, e investi-lo em divertir-se na sua festa.

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Mas, fiquei sabendo que você gostou de trabalhar e, lá por volta de 1930 estava cada vez mais ocupado perseguindo cargos e salários. Então, as organizações entenderam que elas precisavam servir a sociedade dessa época, e assim nasceu e Era dos Serviços. Nesse momento, as padarias, por exemplo, ficaram muito populares, e você podia agora simplesmente passar na frente de uma, comprar um bolo prontinho, e já partir para a festa.

Na verdade, você não estava comprando um bolo, mas pagando pelo serviço (ato de cozinhar) de alguém misturar a matéria-prima para você, e assar o bolo. O principal papel econômico das organizações dessa Era é delivery, ou seja, entregar algo pronto para o consumo imediato. Todos os produtos e serviços dessa era possuem um atributo em comum: podem ser customizados. Você pode encomendar um bolo de chocolate com morango, com o seu nome escrito em cima. Certo? Para vender tal criação as organizações começaram a publicitar muito sobre os benefícios (“entregamos em 20 minutos“, “compre sem sair de casa”, etc). Mas, agora a sua festa começou a ficar um pouco mais cara, pois este bolo não irá sair por menos de 15 reais.

Agora já estamos por volta de 1970, e você ficou tão focado na sua carreira, que o seu aniversário precisa ser um evento marcante, para reunir todos os amigos que não vê há tanto tempo, e comemorar todas as suas conquistas. Então nasceram as organizações da Era da Experiência, como um buffet de aniversário, para te vender experiências (uma combinação de sensação e memória). O papel econômico dessas organizações é literalmente te colocar no palco, já que o atributo em comum é: ser personalizado. Então você pode contratar lembrancinhas para os seus convidados com a sua foto preferida estampada nelas, a festa pode ter o tema que você escolher, e lá no buffet as emoções são inúmeras, um verdadeiro espetáculo. E é exatamente falando sobre emoções que essas organizações publicitam suas ofertas. Mas, a única parte chata é o valor, já que pode te custar cerca de 5 mil Reais para realizar esse aniversário.

E, finalmente, chegamos, desde os anos 2000, na Era da Redes, e você está munido de tecnologia, já pesquisou bastante sobre idéias de festas no Pinterest e sabe bem o que quer. Você encomendou um bolo com um confeiteiro e ele vai traduzir a sua personalidade no bolo. Então se você é surfista, seu bolo vai ser todo azul, cheio de ondas de glacê, com um boneco de açúcar surfando nelas. Ou então se você é fanática por pets seu bolo vai ter o formato da cara do seu gatinho, e vários cupcakes fofos na mesma temática em volta. Enfim, as novas organizações vendem possibilidades de você ser quem você quer ser, e expressar a sua personalidade e opinião para todos!

O papel econômico dessas organizações então é inspirar: sentir que as pessoas querem abraçar novos estilos de vida e iniciar esse movimento. Sendo assim, todas elas tem um atributo em comum: elas promovem uma certa transformação (de pensamento, de comportamento, etc) quando você se torna parte do movimento. E todas essas organizações publicitam que possuem a solução para este novo estilo de vida que você quer abraçar. Sendo essa transformação tão individual, o valor é relativo, e portanto só pode ser criado dentro de cada indivíduo, não podendo mais ser medido somente de forma monetária.

Hum? Ficou confuso? Vou dar um outro exemplo. O aplicativo BlaBlaCar é um sistema de caronas para quem quer viajar compartilhando carros para outras cidades. Quando eu, Clara, tinha 8 anos de idade, eu sofri 2 acidentes de carro na mesma noite. Não foi uma experiência muito legal, como você pode imaginar. Então, eu cresci com um certo medo de rodovias e carros em alta velocidade, e também não gosto muito de dirigir.

Em 2017, resolvi usar o BlaBlaCar para visitar minha família no interior de SP. Escolhi uma pessoa como motorista que no perfil dizia ter feito 2 cursos de direção defensiva. Segurança era fundamental para mim. Entrei no carro super apreensiva e fui logo contando a minha história. Duas horas depois, muita conversa interessante, e muita tranquilidade no volante, eu estava sã e salva na minha cidade! Uau, isso me causou uma transformação pessoal bem profunda. Eu estava me sentindo muito forte naquele momento. Confiante novamente! E não tem como eu precificar o valor que é voltar a confiar nas pessoas dirigindo e viajar mais de carro pelo meu país. É algo totalmente pessoal. Mas o BlaBlaCar entendeu que eu, e outras pessoas, gostaríamos de abraçar este estilo de vida, e portanto foi o primeiro a sentir e iniciar isso.

Bom, espero que você tenha gostado da história do seu aniversário e que entenda melhor agora que as pessoas atualmente não compram mais produtos e serviços, mas sim possibilidades e soluções para viver novos estilos de vida!

A tabela a seguir é um resumo das Eras.

 

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