Especial: Qual é o nível de transformação digital do setor de seguros?

Especial: Qual é o nível de transformação digital do setor de seguros?

Por: Gabriella Sandoval e Raisa Covre 22.998 views

Um estudo inédito da Dom Strategy Partners em parceria com o Centro de Inteligência Padrão revela o grau de transformação digital das seguradoras brasileiras

No Brasil, o setor bancário é o que mais promove investimentos e gastos com tecnologia, empatando com o governo (setor que historicamente lidera a lista). Ao todo, 14% dos investimentos do País em tecnologia vêm do setor bancário. No mercado de seguros, essa porcentagem é bem mais tímida: gira em torno de 5%. Os números explicam, em parte, por que os bancos estão bem à frente das seguradoras quando o assunto é transformação digital. Mas outros fatores também influenciam. “Elas partem de um produto que é vendido por um corretor. Isso as afasta, naturalmente, do usuário final”, diz Daniel Domeneghetti, CEO da E-Consulting, responsável pelo estudo “Régua da Transformação Digital” – levantamento que mapeia, entre outros setores, o de seguros.

Para Oliver Cunningham, sócio da KPMG, a baixa maturidade é mais um entrave. “Muita gente acha que colocar tecnologia no que já faz é transformação. Isso destrava ganhos de eficiência, mas não destrava geração de valor”, diz o especialista. A transformação só se dá, segundo Cunningham, quando todo o negócio é reformado para tornar sua gestão e operação mais eficientes. E isso não tem a ver com tecnologia, mas sim com ruptura do modelo mental. “Ainda é muito mais fácil para as seguradoras vender inovação por ameaça do que por liderança. Companhias realmente inovadoras têm cada vez mais ampliada a sua posição. No mercado de seguros, a gente não vê muito isso”, alerta Cunningham.

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Além do ainda tímido investimento das seguradoras em tecnologia, o setor enfrenta outros obstáculos no Brasil, onde apenas 30% dos veículos são segurados e apenas 10% das pessoas têm suas casas protegidas. “Existem várias razões para termos essa penetração baixa. Algumas relacionadas à educação; outras à própria situação socioeconômica do País”, diz Fabio Leme, vice-presidente Técnico da HDI. “No Brasil, as pessoas veem o seguro como despesa e não como investimento para proteção do patrimônio ou da vida”.

Ainda assim, Domeneghetti destaca que os bancos estão no processo de transformação digital há mais de 20 anos; ou seja, há muito mais tempo do que as seguradoras. E, apesar da demora, elas estão pulando etapas. “O que pode fazer a indústria avançar mais rapidamente é trazer capacidades externas em vez de tentar apenas desenvolver internamente os ativos necessários para ser protagonista nesse novo cenário digital”, diz Hugo Assis, líder de Seguros da Accenture para o Brasil e a América Latina. Um estudo global da consultoria aponta que 76% dos executivos da área de seguros concordam que a vantagem competitiva não será determinada por uma empresa de forma isolada, mas sim pela força de parceiros e ecossistemas que escolherem.

Um levantamento inédito feito pela E-Consulting em parceria com o Centro de Inteligência Padrão – CIP analisa o grau de transformação digital das seguradoras brasileiras. A partir dele, é possível observar as empresas que podem se tornar extintas nos próximos anos, assim como aquelas que deverão ser abocanhadas por players com mais fôlego para encarar as mudanças que vêm pela frente.

O Darwinismo nos seguros

Assim como na teoria evolutiva, as seguradoras dependem da sua capacidade de se adaptar à transformação digital para sobreviver ao longo do tempo. Algumas conseguem evoluir; outras ficam para trás

Tecnologia no seguro

Aos poucos, a tecnologia chega ao conservador mercado de seguros para simplificar processos, prever riscos e transformar a experiência de cliente. De acordo com a Venture Scanner havia, em julho do ano passado, mais de 1.500 insurtechs – empresas de tecnologia para seguros – pelo mundo. Entre elas, algumas se destacam, como a nova-iorquina Lemonade, que pleiteia entrar no Guinness Book, o livro dos recordes, por ter pago uma indenização via mobile em apenas três segundos graças à ajuda de algoritmos. A agilidade vai ao encontro de consumidores cada vez mais acostumados a pagar contas, pedir comida e solicitar um carro pelo smartphone.

“O que acontece hoje no mundo digital é que os consumidores comparam as experiências com a seguradora com a melhor experiência que eles tenham em qualquer outro tipo de serviço. Não somos comparados só com empresas do setor, mas sim com toda a indústria”, diz Leme, da HDI. Recentemente, a seguradora lançou um sistema com uma interface parecida com a do Uber e da 99, no qual o cliente pode acionar o guincho e acompanhar a chegada dele em um mapa via aplicativo.

No Brasil, há 27 insurtechs catalogadas. Informalmente, estima-se que existam muitas outras, mas elas só sairão do anonimato quando forem regulamentadas pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). Em julho do ano passado, o órgão deu os primeiros passos ao criar uma Comissão Especial de Inovação e Insurtech para tratar de assuntos específicos com mais agilidade. Outro avanço foi a Resolução CNSP nº 359, publicada em dezembro e que autoriza, entre outras coisas, a emissão de bilhetes, contratos e apólices, assim como o aviso de sinistros por meios remotos. “A velocidade com que as mudanças estão acontecendo, assim como o surgimento de novas tecnologias, demandarão mais esforços do órgão regulador”, alerta Assis, da Accenture.

Opções

Na Caixa Seguradora está em fase de implementação um sistema de assinatura eletrônica de contratos. “Além de evitar o extravio de documentos, o processo agiliza a ativação do seguro, reduz o número de impressões, facilita o processo de venda remota e traz mais simplicidade e segurança para o consumidor”, diz Sany Silveira, diretora de Marketing e Comunicação da Caixa Seguradora. A empresa prepara-se para incorporar alguns processos da Youse, sua plataforma de venda de seguros on-line.

“Esse tipo de serviço 100% digital ainda não é tão comum no Brasil. Mas, se existe um público que se adapta rapidamente a ele, esse é o público jovem, justamente aquele que não costuma contratar seguros”, afirma Sany. Ela tem razão. Com uma base formada, em sua maior parte, por clientes entre 33 e 35 anos, metropolitanos e nativos digitais, a Youse oferece aos seus clientes a possibilidade de escolher as coberturas e as assistências que quiser, pagar o seguro mês a mês e fazer a contração on-line, sem nenhum tipo de necessidade de falar com um atendente. “O segredo dos nativos digitais é criar o produto de forma diferente – e não adaptá-lo”, diz Eldes Mattiuzzo, diretor da Youse.

 

*Quais são os estágios para a transformação digital do setor de seguros? Confira a segunda parte do Especial Seguros.

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