8 lições de gestão que aprendi caminhando com um príncipe

Quanto é possível aprender ao conviver e conversar com um príncipe de cultura diferente? Veja as reflexões de Natanael Sena

Por: - 2 meses atrás

A Casa de Saud é a casa real no poder da Arábia Saudita. Apesar de o país possuir um rei e diversos príncipes, ele tem influência direta no regime ditatorial que os sauditas vivem antes mesmo do reino ser fundado.

Assim que cheguei a Toronto, acabei conhecendo Abdulaziz, filho de um dos príncipes do reinado. Fazíamos um curso juntos e nos identificamos por gostar de assuntos em comum, como política e carros.

Com certeza existia um abismo entre o que ele considerava correto e o que eu considerava.

O atual rei da Arábia Saudita tem apenas 31 anos. Mesmo Abdulaziz sendo um jovem de 20 e poucos anos, é possível ver a pressão e a responsabilidade já exercidas sobre ele.

Aliviávamos a tensão dos dias caminhando e passamos a fazer isso praticamente no final de todos os dias. Após meses de discussões e caminhadas, pude aprender com erros e acertos do que via acontecer a minha volta. Com base nessa vivência, fiz uma reflexão e compartilho oito lições que acredito que podem lhe fazer um líder melhor.

1- Não transfira responsabilidades

O funcionário não deve assumir a responsabilidade dos erros de seu líder, assim como um filho não pode assumir a culpa pelas decisões de seu pai. O ônus deve ser dirigido a quem tomou a atitude da mesma forma que o bônus.

2- Entenda com quem você está falando

Desça do seu pedestal e entenda o contexto de seu liderado para ouvi-lo com sabedoria. Isso não quer dizer que você vai fazer o que ele diz, mas que você vai ouvi-lo. Ele pode ter a solução para um problema que você não está enxergando que vai acontecer.

3- Seja humilde

Seu liderado não é diferente de você, ele também não é menor do que você. Não importa quem ele é, como se veste ou com quem ele dorme. Por um momento, você está em uma posição diferente da dele, mas lembre-se de que ele compõe a estrutura que lhe mantem em pé.

4- Se comunique de forma simples e prática

Diminua os termos estrangeiros. Deixe claro o que você quer receber como entrega final e o porquê.

5- Seu liderado é de outra cultura? Aprenda sobre ela

Oferecer algo com a mão esquerda é ofensivo, cruzar as pernas e deixar a sola do pé para cima é uma falta de respeito, não segurar a mão ao conhecer a pessoa por um tempo maior é como dizer que é um desprazer conhecê-la. Enfim, entendeu porque é necessário saber os costumes das diferentes culturas de sua equipe? Ninguém vai a lugar nenhum sozinho e o que une as pessoas (além da comida) é demonstrar interesse pela outra parte.

6- Empodere e voe

Por mais que seja difícil, trafegue em outros ambientes e deixe seus funcionários trabalhando sem você. Não queira ver tudo, não queira saber todos os detalhes, não queira saber fazer tudo. Eles estão ali para isso. Ou você aprende a atirar ou a suturar uma ferida. Qual é a sua função?

7- Não seja sozinho

O príncipe nunca estava sozinho, seja comigo ou algum outro amigo, ele sempre estava com alguém próximo dele. Estamos na era do compartilhamento, já foi a época dos gênios indomáveis que brilhavam sozinhos. As novas gerações vivem de compartilhamento, aprenda a compartilhar ideias, passos, almoços e momentos difíceis. Não se constrói um time forte apenas com vitórias ou derrotas.

8- Reconheça e comemore

Bons resultados não podem ficar apenas no “muito obrigado, você fez um excelente trabalho”. É necessário reunir a equipe, confraternizar, reconhecer com palavras e, se possível, financeiramente. Isso é uma das coisas que ecoará por muito tempo na sua equipe e vai mantê-la engajada.

Recentemente, Abdulaziz teve que voltar ao seu país. Desconfortável, ele me disse que surgiram alguns problemas familiares e por isso seu retorno deveria ser imediato.

Seu desconforto era em dizer que esses problemas surgiam de um recente conflito diplomático entre a Arábia Saudita e o Canadá, sendo seu retorno uma exigência e não uma opção de escolha. Eu não aprofundei o assunto, apenas lamentei o fim das caminhadas e os aprendizados que tirávamos das discussões que surgiam nelas.

Fica aqui uma última lição: raramente temos a opção de escolha do nosso presente, mas cabe a nós semear um futuro melhor.

 

Abdulaziz e Natanael Sena

*Natanael Sena é fundador do Vai de Fusca e está em uma temporada no Canadá