A digitalização e a sustentabilidade trazem um novo conceito: a sustentabilidade 4.0

Em novo artigo, Natanael e Matheus Noronha debatem este tema com a executiva Daniely Gomiero e a pesquisadora professora Vivian Blaso

Por: - 2 semanas atrás

Inovações tecnológicas, internet das coisas, digitalização de máquinas, robotização e otimização autonôma de processos são temas debatidos em um ambiente de disrupções de modelos de negócios. Diversos setores e indústrias se apropriam dessas transformações com o objetivo de se adequar às novas demandas do ambiente de negócios que se encontram.

Essas transformações revolucionam as formas de comercialização e promovem mudanças de comportamentos nas esferas de produção e consumo que contribuem para a estruturação e formação de modelos de negócios mais sustentáveis. As novas tecnologias impactam de forma recorrente setores como saúde, energia e construção, e  se configuram em uma soma de processos inteligentes que originam produtos e serviços cujo objetivo é gerar conforto e qualidade de vida humana associada à sustentabilidade de recursos.

Conhecido como indústria 4.0 ou quarta revolução industrial, esse cenário se caracteriza pelo conjunto de processos tecnológicos ligados a autonomia, eficiência, digitalização e customização.

Com a difusão da quarta revolução industrial, os consumidores passam a ter mais autonomia sobre suas escolhas em diferentes mercados. Essa autonomia reverbera em diversas possibilidades de escolha de serviços mais customizados.  As marcas e organizações que cumprem os critérios de desenvolvimento tecnológico e de sustentabilidade passam a conquistar a confiança deste novo tipo de consumidor; que é mais engajado a assuntos de caráter tecnológico, social e ambiental.

A revolução 4.0 também pode ser articulada como ferramenta facilitadora para os debates de cunho social, político, ambiental, ampliando e transformando as oportunidades de mercado com função de modificar a forma de consumir e produzir, e auxiliar os diferentes tipos de público em suas escolhas como consumidor. É neste contexto que o avanço tecnológico pode ajudar a atender a demanda de um consumo responsável; entendido como uma prática de consumo que evita explorar a sociedade e os recursos do meio ambiente. O consumo responsável se consolida como uma forma de resposta a pressões de grupos ambientalistas, movimentos sociais, governamentais e midiáticos.  O compartilhamento de carros, a escolha de um tipo de energia renovável, aplicativos de brechós online, impressões 3D são ações derivadas de processos de digitalização e tecnologia que impulsionam naturalmente o caminho para um consumo mais responsável.

Por meio de inteligência artificial algumas companhias já identificaram nichos de mercado e formas para contribuir com a sustentabilidade e um consumo responsável dos recursos naturais. Recentemente a empresa Microsoft criou o programa de inteligência artificial chamado AI for Earth que é um programa que fornece recursos computacionais a partir da nuvem para organizações que buscam transformar a forma de gerir os recursos naturais da terra. A ferramenta pode ser utilizada para diagnosticar condições da água, ar e solo capturando dados e informações para o desenvolvimento de soluções mais sustentáveis. As principais frentes de atuação do programa são voltadas para quatro principais áreas: agricultura, água, biodiversidade e mudanças climáticas.

A revolução tecnológica tem contribuição direta nas 3 dimensões da sustentabilidade: econômica, ambiental e social. Na dimensão social podemos ilustrar essa conexão em alguns campos como na criação de novas profissões e na qualificação dos profissionais, maior autonomia e flexibilidade em relação à vida social e profissional até possibilidade inclusão de gênero e classes sociais no mercado de trabalho. Na dimensão econômica um aumento na produtividade e receitas das organizações, investimento em pesquisas e desenvolvimento, maior participação do consumidor nas cadeias de valor e eficiência produtiva. Na dimensão ambiental identificamos uma utilização mais eficiente no consumo energético, mitigação de poluentes e resíduos ao meio ambiente, reutilização de recursos naturais, contribuição para as agendas globais e metas climáticas.

Apesar do avanço tecnológico ainda encontramos resistência de consumidores e algumas indústrias e cadeias de produção. Segundo uma pesquisa do Instituto Akatu, 45%, maior parte das pessoas que foram questionadas sobre produtos sustentáveis, afirmaram que consumir este tipo de produto é mais caro e que seus orçamentos não comportam o gasto. Ademais, 42% também afirmaram que consumir de forma mais responsável é consumir menos. Porém, atualmente contempla-se um cenário em que por meio de uma revolução tecnológica é perceptível o início de uma desconstrução de que o sustentável é mais caro. O aplicativo Blablacar é uma plataforma de caronas que conecta motoristas e passageiros para realizar viagens de longa distância dividindo o custo total da viagem. Neste caso, a carona compartilhada colabora para a redução de custos dos motoristas e passageiros, diminuição de carros nas ruas e mitigação de poluentes que são emitidos por esses automóveis.

Contudo, esse panorama tecnológico ainda encontra diversos entraves como regulação de mercado, custo de tecnologia, capacitação técnica e modelos obsoletos de negócios que impossibilitam o avanço da digitalização nos diferentes setores em que a sustentabilidade permeia. Ao passo que surgem oportunidades para criar um elo entre sustentabilidade e tecnologia também se identifica uma série de desafios fundamentais para o avanço industrial sustentável. Com base no conceito da indústria 4.0, as organizações têm oportunidade de aproveitar os recursos existentes e disponíveis para a criação de maior valor agregado na oferta de serviços e produtos ao consumidor. Alugar um carro compartilhado por um aplicativo, reservar um hotel ou apartamento online e até vender e comprar a energia que se usa em casa pelo celular são soluções de caráter tecnológico que proporcionaram uma economia de eficiência com a utilização dos mesmos recursos para a criação de maior valor colaborando com as questões sociais, econômicas e ambientais ligadas a sustentabilidade.

Conversamos com Daniely Gomiero, executiva na vice-presidência de um dos principais institutos do Brasil e diretora de comunicação corporativa e resp. social, há mais de  15 anos atuando no segmento de Responsabilidade Social fazendo parte de de projetos que já impactaram mais de 54 mil alunos, assim como outro projeto que reciclou 150 mil toneladas de resíduos eletrônicos.

Natanael Sena: Daniely, ao longo dos últimos anos, redefinimos a maneira como nos comunicamos, como nos conectamos com as pessoas encurtando distancias e principalmente como as relações comerciais se concretizam, seja para uma venda ou para uma compra. Passamos a ter acesso a diversas informações que ajudam empresas a construírem um crescimento rentável. Quando falamos em sustentabilidade, podemos dizer que, nos últimos anos, houve uma evolução na forma de como pensar e como fazer?

Daniely Gomiero: Quando pensamos em sustentabilidade do negócio, estamos mais acostumados a citar o triple botton line. Mas queria aproveitar para dizer que a sustentabilidade está ligada a forma de nos relacionarmos com todos os nossos stakeholders gerando valor agregado, alinhando, por exemplo, nossos serviços e ações podem criar experiências que transformam para melhor a vida das pessoas. Trabalhar extrapolando o já conhecido pelo mercado, acho que é o grande desafio.

Os clientes estão cada vez mais engajados e olhando para o que comunicamos e o que praticamos.

NS: Como você enxerga o impacto da revolução digital nas soluções sustentáveis?

DG: Uma das revoluções está no uso de big data social. Por exemplo, nosso Instituto e nosso grupo fez uma parceria inédita no Brasil usando algoritmos de big data a serviço do bem comum, é uma ferramenta de inteligência que pode traçar estratégias eficazes, e foi assim junto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), passamos a coletar dados de informações geográficas e analytics com a equipe de inteligência, disponibilizando para área de pesquisa da Unicef (Brasil e Nova York), para que eles pudessem observar o fluxo de deslocamento das pessoas entre cidades onde há o surto da doença Zika Vírus e impedir que ele adquira uma proporção maior. Nessa parceria, mantém-se um sigilo absoluto sobre dados pessoais, sendo transmitidas apenas informações coletivas e tendências.

Por apresentar resultados tão expressivos, o uso da inteligência de dados será cada vez mais importante para gerar impacto social em larga escala. Isso é revolução digital na prática, apoiando de maneira inovadora e estratégica organizações dispostas a salvar vidas em um mundo cada vez mais complexo e conectado.

NS: O primeiro Nobel da Paz (1901) foi entregue a Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha. Em 2006 foi entregue a Muhammad Yunus por impulsionar o desenvolvimento econômico de classes menos favorecidas. Em 2014 a Malala e Kaliash pela luta ao direito da educação de crianças e jovens. Isso deixa nítida a evolução que tivemos. Passamos a nos preocupar com a raiz dos problemas estabelecendo ações de ajudas humanitárias perenes e que não se findam em sí. A educação e o investimento nas crianças continua sendo a base para um futuro melhor?

DG: Não tenho dúvida que a educação é  base estruturante de transformações, de oportunidades, de ascensão social, de autoestima, de desenvolvimento de valores, crenças. É um direito básico que não pode ser negado a nenhuma criança.

Por esse motivo grande parte do nosso investimento é em programas/iniciativas de educação básica (fundamental I e II).

Usamos como referência o plano ambicioso, mas possível que são as ODS (objetivos do desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unida (ONU).Acolhemos essas responsabilidade e respondemos ao desafio utilizando nosso conhecimento em tecnologia, capaz de ativar todo potencial de uma sociedade conectada.

Vale ressaltar que os citados na pergunta  são exemplos de persistência e obstinação. Acreditam em causas coletivas e não se deixarem abater pelas dificuldades, pois encontramos várias no meio da jornada.

NS: Tem surgido no mercado diversos aplicativos que ajudam consumidores a tomarem decisões mais sustentáveis, um exemplo disso é Goodguide, making of making e até o Ziit que possibilita ao usuário o carregamento de seu celular com a utilização de Energia Renovável. Como você acha que os aplicativos e soluções tecnologicas podem contribuir para um mundo mais sustentável, principalmente nos aspectos sociais, ambientais e econômicos?

DG: Acredito que essas soluções, aplicativos são super importantes para o mundo acelerado e conectado que vivemos, tem um ponto bem bacana nessa história que são os ecossistemas voltados á criatividade e inovação, além do elemento essencial que é a colaboração entre universidades e empresas.

Temos no Instituto um programa, que se chama Campus Mobile, e há 7 anos apoiamos iniciativas de desenvolvimento de apps que respondem  à problemas de educação, facilidades e games. Os estudantes prototipam suas ideias, recebem tutoria técnica de uma das maiores e mais respeitadas Universidades Brasileiras, e os melhores em cada categoria, são premiados em dinheiro e com um viagem de imersão ao Vale do Silicio. Temos muito potencial e precisamos investir cada vez mais, para que possamos transformar nosso mundo.

Representando o lado acadêmico, conversamos com Vivian Blaso, Doutora em Ciências Sociais, Professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Fundação Armando Alvares Penteado,  Pesquisadora do Complexus – Núcleo de Estudos da Complexidade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Idealizadora do Cidades Afetivas e Sócia na Conversa Sustentável.

Natanael Sena: Vivian, o que muda com a revolução digital?

Vivian Blaso: A revolução digital parte da ideia que tenhamos economia de tempo e recursos, se tivermos economia de tempo vamos ter tempo para investirmos em criatividade, e atividade ligadas às artes, filosofia daremos um passo decisivo na direção da revolução noética como difundida por Marc Halévy esta revolução trata-se não apenas da celeridade em que o mundo se encontra em nível de desenvolvimento tecnológico. Mas em um salto da sociosfera para a noosfera terrestre.  uma revolução conceitual da informação como um todo. Sintagmaticamente, exige- se, inclusive, aprofundamentos filosóficos, éticos e metafísicos. Um weltanschauung que (já) se faz presente para os atores sociais da era do conhecimento/era digital. A fim de não se perder tempo, talento e nem dinheiro, urge uma engenharia reversa do conhecimento.

NS: A educação, passará pelo mesmo processo?

VB: A Educação é a base fundamental dessa transformação, mas será necessário uma transformação profunda nas instituições, dos educadores Porque temos muitas formas de aprender que não seguem o rigor tradicional das salas de aula..
Os Apps estão contribuindo com novos hábitos de consumos e com isso economias de recursos tempo e Dinheiro, além do encurtamento dos processos, agora é preciso dar um passo adiante incorporando a sustentabilidade pensada em toda operações até o Pós consumo.

Ou seja, tanto no mundo corporativo quanto acadêmico é nítida a transformação da forma como se faz e como se entende sustentabilidade. O campo de atuação, aprendizado e mensuração das ações se amplia a cada dia, hoje a tecnologia não se limita a gerar negócios exclusivamente visando um lucro, mas como muito bem exemplificado pela Daniely é possível até identificar o mapeamento do zika vírus, tornando mais efetivo o combate ao transmissor da doença. A academia entende a necessidade da mudança, por sua vez, uma mudança talvez mais complexa que a revolução digital, pois essa demente não de tecnologias mas do fator humano.

Autores do artigo Sustentabilidade 4.0

Matheus E.S Noronha, Bacharel em Marketing pelo Mackenzie, Mestrando em Comportamento do Consumidor pela ESPM, Colaborador na ABEEólica – Associação Brasileira de Energia Eólica. ­­

Natanael Sena, Bacharel em Adm pela UAM, Comunicação pela USP, MBA em Marketing pelo IBMEC-RJ, Esp. Em Marketing Intelligence pela Univ. Lisboa, e Novos Modelos de Liderança pela Hyper Island.

Paulo Cezar Barbosa Mello, PhD em Artes, Visiting Professor na NYU, pesquisador em cultura contemporânea e professor na cadeira de Arte, Cultura e Entretenimento na ESPM