Direto para o CEO
Roberto Meir, publisher da Consumidor Moderno e Daniel Domeneghetti, CEO da DOM Strategy Partners, comentam sobre as novas tendências de mercado
04/05/2008
Gestão de ativos intangíveis: o caminho do crescimento com valor sustentável
É consenso entre as empresas e os executivos que procurar novos focos
para gerar crescimento de dois dígitos de forma a satisfazer os mais
exigentes acionistas é tarefa tão necessária, quanto árdua. Fato é que
são poucas as empresas globais que têm conseguido gerar, de forma
consistente e contínua, margens de crescimento superiores a 10% ao ano.
Nesse jogo do mercado, a prerrogativa do acionista é a remuneração de
seu capital na máxima possibilidade possível. A obrigação do gestor, do
líder, do CEO, é criar estratégias e mecanismos para que isso seja
possível, usando o mínimo de recursos. O inimigo é a concorrência, que
compete pelos recursos escassos de market share, mind share e pocket
share. O Big Brother é o mercado e seus analistas são traders,
investidores, market makers e reguladores, que julgam as estratégias
dessas empresas, impondo, em mercados mais desenvolvidos, o desafio da
performance superior quarter a quarter. Fecham a equação de agentes,
outros influentes reguladores, como ONGs e imprensa, que têm o poder de
amplificar para o bem ou para o mal o que cada competidor faz para
vencer o jogo, o governo e a sociedade e seus diversos interesses, os
clientes e consumidores com seus diversos chapéus (e todo poder de
conferir, em última instância, a vitória a quem desejarem) e os
“aliados” que trabalham em/para cada competidor, traduzidos na figura
de colaboradores, terceiros, fornecedores, parceiros etc.
Baita jogo esse. Jogo que fica mais difícil a cada dia, porque de um
lado imposições de qualidade, sustentabilidade, governança, tecnologia
etc. fazem as empresas ficarem cada vez mais reféns de investimentos
aparentemente sem retorno e cada vez mais parecidas em propostas de
valor e, de outro, a certeza de que só a diferenciação e a inovação são
capazes de trazer vantagem competitiva sustentável às empresas.
Nunca é demais lembrar que na economia global, das redes e da internet
2.0, os benchmarks de mercado, as medidas de gestão e os próprios
produtos de serviços recém-lançados são rapidamente copiados e
melhorados, gerando, na maioria dos casos, vantagem competitiva de
baixa perenidade e frustrantes resultados factuais.
Se à primeira vista, os mercados globais representam uma superdemanda,
a realidade é que em larga escala, considerando competidores locais e
diferentes perfis e culturas de consumo, esses mercados representam,
para boa parte dos produtos e serviços supostamente globais, duas
realidades opostas: ou uma superoferta (vários deles completamente
saturados), quando o produto/serviço realmente atende às premissas que
o possibilitam de ser global, ou pior, mercados no demand, porque
muitos produtos e serviços supostamente globais se mostram inadequados
a uma proposta global de sucesso. O cemitério está cheio deles.
A bem da verdade, as empresas globais operam numa constante disputa de
alocação de recursos em busca dos oásis de novo consumo, como China,
México e Brasil, mas o que de fato aparece são as bolhas de consumo,
como a atual norte-americana (gerando um crescimento ilusório pelo
superendividamento do consumidor americano) e os mercados maduros da
Europa Ocidental, de baixo crescimento a alta normatização.
Pouco agregaria discutirmos os benefícios de se vencer a concorrência
em mercados de superdemanda, como os de novo consumo. Isso é óbvio.
Difícil é construir valor em mercados maduros, estagnados ou saturados.
Apontamos, porém, uma possibilidade extremamente palpável de se criar
valor nesse tipo de mercado. A gestão dos ativos intangíveis das
corporações, tais como marcas, inovação, sustentabilidade, governança,
modelo de gestão, tecnologias, capital intelectual, conhecimento
corporativo, networking e excelência na gestão de relacionamentos com
clientes/consumidores e demais stakeholders.
Esses ativos são os verdadeiros diferenciais competitivos que cada
empresa deve saber fazer acúmulo e uso estratégico para sobreviver e
prosperar. Ou seja, são os geradores de valor de médio e longo prazo.
Esse conjunto de ativos já hoje, em muitos setores, possui maior valor
que os chamados ativos tangíveis. É o caso de setores como moda,
tecnologia, internet, varejo, serviços, educação, farmacêutico, que
cada vez mais vêm se tornando também altamente representativos em
setores da indústria em geral e no setor financeiro.
Verdade competitiva aqui exposta, a história desse jogo ganha tons de
terror gerencial no Brasil, quando se verifica que, já a partir de
2010, as empresas de capital aberto, que faturem anualmente mais de R$
300 milhões ou que tenham patrimônio superior à R$ 240 milhões, terão
de se adequar às normativas do IFRS (International Financial Reporting
Standards), publicando seus balanços e contabilizando de forma
discriminada e valorada seus ativos intangíveis. E o balanço de 2010
deverá ser comparativo ao de 2009, que não precisará ser publicado, mas
precisará ser construído. Ou seja, transparência, accountability e
comunicação transparente também serão prerrogativas dos ativos
intangíveis.
Medir, comunicar, publicar... Que desafio enorme, quando a maioria das
empresas sequer compreende a natureza desses ativos ou quiçá possui
modelos sistêmicos de gestão e acompanhamento para eles, que, via de
regra, pouco recheiam de forma qualificada e quantificada os balanced
scorecards e outras ferramentas de gestão estratégica, orçamento e
performance das empresas.
A questão central aqui é que boa parte das empresas pertencentes a esse
seleto grupo citado acima trata essa questão de forma desconectada de
sua visão de valor, atribuindo a ele alto viés de custo e despesa, o
que, sob forte pressão de performance do mercado e dos acionistas,
acaba fazendo com que os executivos responsáveis por seu rumo
estratégico dêem verdadeiros tiros nos pés, ao cortarem verbas e
programas focados na construção de competitividade e diferenciação a
partir destes ativos. Ou seja, pintam de vermelho seu potencial oceano
azul.
Analise e conclua: é na marca, no conhecimento, no modelo de negócios,
no chassis tecnológico, no capital intelectual, na rede de
relacionamentos e em tantos outros ativos de caráter intangível (que
debateremos detalhadamente em próximas colunas) que a estratégia de
médio e longo prazo das empresas deve se ancorar, a fim de possibilitar
que a empresa navegue com mais chances de sucesso rumo ao desejado
oceano azul. Ou seja, competitividade a partir de vantagens
sustentáveis, de real valor percebido pelos clientes e demais
stakeholders. Num cenário em que tudo caminha para a comoditização,
cabe ao gestor responder como criar a diferenciação para se destacar
diante à concorrência. E essa resposta está baseada na otimização da
gestão dos ativos intangíveis.
Até porque, jogo é jogo. Você está preparado?


