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Colunistas Ricardo Young

Um brasileira singular

Ricardo Young
Ricardo Young é presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

"Ruth Cardoso deixa saudades, mas as saudades passam. Ela também deixa exemplos, e esses ficarão por muito tempo."

Por motivos culturais que apenas antropólogos conseguem explicar, o coração foi alçado à condição de órgão humano da compaixão, do afeto, da determinação e do amor. Pois, justamente, uma falha no coração tirou de nosso convívio uma grande brasileira, portadora de um coração constituído, em porções simétricas e justas, de pertinácia e de tolerância. Ruth Cardoso deixa saudades, mas as saudades passam. Ela também deixa exemplos, e esses ficarão por muito tempo.

Ela  foi precursora da modernização nas relações entre Estado e sociedade, da inclusão social via desenvolvimento da cadeia produtiva das empresas, do comércio justo (ou solidário) e do papel das empresas como promotoras da segurança social. Também percebeu, junto com Betinho, que a filantropia e o assistencialismo, embora importantes num país com tantas carências, não poderiam impulsionar uma verdadeira transformação social. Por isso, tratou de repensar os vários programas de combate à pobreza, tomando iniciativas para unificá-los.

Ruth Cardoso foi uma das pessoas fundamentais na mudança de rumo das políticas sociais adotadas no Brasil a partir da década de 90. Ao buscar apoio da sociedade civil organizada para atuar onde o Estado não conseguia chegar, propiciou a emergência das ONGs que passaram a ter influência local e nacional.

Esse movimento também repercutiu nas empresas que saíram de uma cultura de “doação” para outra de investimento social privado, com visão estratégica, indicadores e resultados.

Com isso, questões antes tratadas à margem dos grandes debates nacionais vieram para o centro das discussões e a elite brasileira pôde “acordar” para o papel que deve desempenhar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Não depende só do Estado, mas do meu negócio tornar o Brasil mais inclusivo e próspero.  Esta “visão de mundo”, hoje recorrente nas empresas socialmente responsáveis, contou com a imprescindível militância de Ruth Cardoso para ser construída. O ponto central de sua atuação política era o diálogo baseado na liberdade de expressão e na tolerância, principalmente com quem não concordava com seu ponto de vista. Por meio do diálogo, articulou ações conjuntas entre os vários setores da sociedade e os governos, concretizadas por meio de duas realizações: o “Alfabetização Solidária” e o “Comunitas”.

O programa “Alfabetização Solidária” foi criado em 1997 e, por meio de parcerias entre empresas, universidades e prefeituras, contabiliza mais de cinco milhões de alfabetizados. Seu sistema já está sendo adotado por outros países de língua portuguesa, como São Tomé e Príncipe.

O “Comunitas” tem como prioridade combater a pobreza por meio do fortalecimento das capacidades das pessoas e dos recursos das comunidades. Como pano de fundo, a idéia de que desenvolvimento é investimento em capital humano e social, já que as pessoas são agentes da sua própria transformação e não seres passivos e recebedores de programas assistenciais.

Essas e outras idéias fazem parte do movimento da responsabilidade social empresarial que as têm ampliado ao levá-las para o âmago da empresa: a sua gestão estratégica.  Num encontro realizado em março com líderes de vários setores, ela  deixou expressa sua visão para o futuro dos movimentos sociais: a articulação das empresas, da sociedade civil organizada e dos governos no enfrentamento dos nossos problemas seculares. Sem essa “confluência de objetivos”,  não vamos superar as desigualdades.

Ruth Cardoso será sempre uma brasileira singular. Suas ações, por apoiarem iniciativas tão diversas e plurais da nossa sociedade, transformaram-se em monumentos à causa da cidadania e elevaram-se acima das disputas ideológicas e das ambições pessoais. Sua serenidade e sua sensatez haverão de irradiar inspiração e força para milhares de líderes anônimos pelo Brasil afora.

 

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