A saga da Sega e a terceira geração de games

Como um ouriço azul ameaçou a hegemonia japonesa da Nintendo e polarizou o mundo dos jogos eletrônicos

Por: - 50 anos atrás

Quem tem mais de 30 anos, com certeza, acompanhou a feroz disputa entre as empresas Nintendo e Sega, em especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Ouviu a música e viu a introdução a seguir:

 

Quando uma lançava um produto, outra ia lá e superava o lançamento da concorrente. Era uma disputa feroz pelo coração da crescente onda de gamemaníacos, em especial no Japão. No entanto, engana-se quem pensa que a disputa era entre duas empresas essencialmente japonesas.

O primeiro nome da Sega era Standard e surgiu em Honolulu, no Havaí, em 1940. A companhia foi fundada pelos americaníssimos Martin Bromely, Irving Bromberg e James Humpert e era a principal fornecedora de diversões eletrônicas (ou, em outras palavras, uma espécie de caça níquel) para os militares americanos que serviam na ilha do pacífico.

Alguns leitores mais atentos talvez se perguntem: estamos falando do mesmo arquipélago que foi atacado em 7 de dezembro de 1941 pelos japoneses? Sim, a empresa viu de perto o ataque da marinha nipônica contra a base de Pearl Harbor, em Oahu. Não se sabe exatamente o que aconteceu à empresa após o bombardeio, mas, curiosamente, as vidas da Standard e do Japão voltariam a se cruzar após a Segunda Guerra Mundial.

Após o conflito, a empresa desembarcou em Tóquio no ano de 1951, onde começaria a trilhar a sua trajetória no universo dos games. Aliás, a sede nunca mais saiu dali, o que ajuda a entender o mito sobre dela ser japonesa.

Em 1965, a empresa já tinha o nome de Sega e uniu forças uma empresa chamada Rosen Enterprises, uma antiga exportadora de obra de arte. A Rosen estava de olho no mercado de cabines de fotografia instantânea, que rapidamente se transformou em um grande sucesso no Japão. Dessa união surgiu a Sega Enterprise.

As duas empresas começaram a exportar e produzir brinquedos eletromecânicos. Não demorou e ela passou a investir no universo dos fliperamas e obteve sucesso. A empresa lançou o ?Periscope?, que não apenas agradou o japonês, mas assombrou o ocidente. A partir das bases da primeira máquina surgiram o ?Missile? e tantos outros.

Periscope

A Sega continuou a brindar o mundo com os seus fliperamas nas décadas de 1970. No fim da década preparava-se para ingressar no mercado de consoles, ao lado de outras empresas ao redor do mundo. E lançou. E enfrentou a crise. O problema: o lançamento foi 1983, ano do crash de 1983, algo que já abordamos nos capítulos anteriores.

Em 1984, o braço japonês da Sega (eram dois, sendo o outro nos Estados Unidos) foi vendido a dois empresários, um deles americanos. No mesmo ano, ele repassou para outro grupo, o CSK. Era o fim do capital americano e o início de uma empresa puramente japonesa. A empresa deslanchou e já naquele ano lançou o console caseiro SG 1000 MK, que fracassou em vendas. Na avaliação da empresa, a culpada era a de Nintendo, que desenvolveu contratos de exclusividades com desenvolvedoras de jogos. Sobraram poucas opções e o console naufragou.

Aquele foi o primeiro ?embate? entre a Nintendo e a Sega, que não desistiu e lançou o SG 1000 Mark II. As vendas melhoraram e, em 1986, a empresa lançou o SG 1000 MK III, o primeiro videogame da chamada geração Master System. Ainda naquele ano, a empresa lançou o inovador Out Run (um jogo de corrida que utilizou o avançado chip FM YM 2413, responsável pelo aprimoramento na sonoridade do jogo). Naquele mesmo ano, surgiu Alex Kidd, um menino oriental, comedor de arroz (arroz japonês) e que se tornaria o símbolo da empresa até 1991, ano de lançamento de Sonic (veja abaixo os consoles de maior sucesso da terceira geração dos videogames).

Naquele mesmo ano, a empresa lançou uma nova versão do mesmo Master System e se aventurou pelo mercado europeu e ultrapassou em vendas o Nintendo. Se a Nintendo havia vencido a primeira batalha, no mesmo ano a Sega deu o troco na mesma moeda. E a batalha se seguiu.

Em 1991, a Sega lançou a sua obra-prima: o Mega Drive, o primeiro game da disputadíssima geração 16 bits. Na caixa, outra obra-prima: Sonic, o ouriço. Pela primeira vez, Super Mário tinha um rival de peso. Não demorou e a Nintendo lançou o Super Nes e entrou de vez na briga dos 16 Bits.
O mundo dos videogames estava devidamente dividido. De um lado, Sonic e o Mega Drive. Do outro, Nintendo e Mário. A batalha foi feroz. Os jogos dos fliperamas rapidamente eram transformados em versões para os consoles caseiros das duas empresas. A Sega era pródiga nas máquinas engolidoras de fichinhas. Já a Nintendo tinha a força dos contratos de exclusividades com empresas como a Capcom e o seu Street Fighter.

Com o tempo a Sega (e a batalha dos games) saiu dos cartuchos e chegou aos CDs. A concorrência era grande, mas a Sega deu conta do mercado com Saturn. Como ocorreu no passado, a empresa apostou em um jogo de corrida e ganhou o coração da adolescente geração ?Y? ? algo muito parecido o Out Run do passado. Agora, o nome da vez era Daytona USA, uma febre dos fliperamas que chegara a Sega.

No entanto, o mundo já não estava mais dividido entre as duas empresas. Naquela geração, foram lançados consoles como o Neo Geo (da japonesa SNK, uma especialista em jogos de lutas como Fatal Fury, Samurai Shodown, The King of Fighters e o dono do jogo de plataforma de guerra, Metal Slug), Jaguar (Atari) e a estreia da Sony no setor de videogames com o seu Playstation.

A disputa sangrou as finanças da Sega e nem mesmo a velocidade do ouriço supersônico fez a empresa acompanhar os novos tempos do videogame. A empresa saiu do mercado de consoles e, para alguns, perdeu a guerra pessoal com a Nintendo. Atualmente, a companhia retomou as atividades em diversões eletrônicas de grande porte e é uma grande desenvolvedora de jogos.

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Em 2012, a empresa abriu o seu parque de diversões para jogos eletrônicos, o Joypolis. O parque virou sucesso, mas frustrou fãs da marca. Para alguns, a guerra no universo dos games ainda não foi vencida e muitos ex-jogadores de Sonic aguardam o retorno da empresa que sobreviveu a um bombardeio no Havaí, cruzou o pacífico e venceu no Japão como um legítimo nipônico ? mesmo sendo um ocidental da gema.

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