Afinal, existe um modelo rentável para o jornanismo na era digital?

Em busca de respostas, o jornalista Caio Túlio Costa mergulhou fundo no tema e lançará um estudo inédito. Coversamos com ele sobre esse assunto que, segundo Costa, vive um o momento de disrupção, onde a palavra de ordem é compartilhamento. Confira

“O jornalismo digital não trata de colocar uma matéria na internet. Trata de uma redefinição fundamental da relação do jornalista com sua audiência, de como pensamos sobre nossos leitores, da percepção que temos de nosso papel na sociedade, de nosso status. Deixamos de ser os jornalistas que tudo veem e tudo sabem, produzindo palavras a serem aceitas passivamente pelos leitores.” – Katharine Viner, subeditora do The Guardian.

As palavras de Katharine, em uma palestra em Melbourne na Austrália, no final do ano passado, resume o cenário contemporâneo da imprensa no mundo. No entanto as empresas jornalísticas ainda procuram ganhar escala quando o assunto é um modelo de negócio rentável na era digital.

Em busca de respostas para esse desafio econômico da imprensa, o jornalista Caio Túlio Costa passou seis meses na Columbia University Graduate School of Journalism, em Nova York, discutindo o assunto com especialistas. O resultado dessa imersão é a obra: “Um Modelo de Negócio para o Jornalismo Digital: como os jornais devem abraçar a tecnologia, as redes sociais e os serviços de valor adicionado” *.

No estudo, Costa analisa que o conteúdo digital para se tornar rentável requer uma “compreensão totalitária” da cadeia de valor imposta pelos meios digitais: “é preciso partir do zero porque a cadeia de valor é outra”, diz.

Mas como? Segundo o jornalista é mandatório que essas empresas apresentem uma “proposta de valor clara” aos clientes. O gratuito já não basta. Para Costa o momento é “disruptivo” e para atrair investidores, e consequentemente público, um fundamento que deve ser estratégico nessa criação de valor é a “superdistribuição”.

Consumidor Moderno – As redes sociais redefiniram a forma como o consumidor absorve notícias, as compartilha e expõe suas opiniões sobre elas.  No futuro, seriam as redes sociais apenas mais um canal de propagação, ou o único meio onde o jornalismo diário que conhecemos hoje poderá sobreviver de fato?

Caio Túlio – Como diz William Gibson, "o futuro já chegou, só não está uniformemente distribuído". As redes são supercanais de propagação, canais de superdistribuição da informação. As publicações que não perceberam isso, agora, perecerão mais cedo. Mas é evidente que este não é o único canal apesar de ser o supercanal de distribuição. Entender esta realidade é o desafio das publicações tradicionais, inclusive para deixarem de ser tradicionais no próprio ambiente digital – que é disruptivo.

CM – Como atrair publicidade para um conteúdo digital? A relevância para novos investimentos está mais associada hoje ao seu formato, a sua estética e novos canais do que propriamente ao seu conteúdo?

CT – Essa é uma discussão complexa, mas a única maneira de dar certo na área da publicidade é conseguir escala. Caso contrário, a receita será muito pequena e estará sempre ameaçada. Recomendo a leitura do meu paper "Um modelo de negócio para o jornalismo digital” a ser publicado na Revista de Jornalismo da ESPM em abril. Ali eu discuto em profundidade a questão da publicidade online e como as publicações devem lidar com esse desafio.
 
CM – O modelo de negócio paywall (sistema que restringe o acesso gratuito a um certo número de reportagens e permite abrir mediante a demanda e pagamento) funciona para o Brasil? Somado à receita publicitária via internet esse modelo seria capaz de sustentar a produção e o lucro de uma empresa jornalística que não tenha mais a fonte de renda do meio impresso?

CT – Já está funcionando em jornais como Folha, Zero Hora, Valor, O Popular (de Goiânia), Gazeta de Vitória. Estadão e O Globo já estão quase prontos. Não este modelo, aliado à publicidade, não será capaz de sustentar as publicações online. Elas vão precisar de mais fontes de receita, como as que podem advir da venda de serviços de valor adicionado.
 
CM – Falando em “valor adicionado”, por que as empresas jornalísticas no Brasil ainda não se associaram, por exemplo, às companhias telefônicas na elaboração de um modelo de negócio e compartilhamento de conteúdo que seja mais interessante do ponto de vista econômico e para o alcance da grande massa? Quais seriam outros setores que poderiam trazer novas possibilidades de negócios para essas empresas?

CT – A Folha esteve associada à Portugal Telecom durante um bom tempo. Acredito, no entanto, que elas não se associam por medo de serem engolidas pelas telecoms. Há muitas maneiras de associação, mas o mais importante é as empresas jornalísticas entenderem que o momento é de disrupção e que a palavra de ordem é a do compartilhamento.

Levar em consideração a intenção do seu produto de estar junto de seus leitores, independente da plataforma é mandatório. Investimentos são necessários. Projetos especiais, que mesclam diversas áreas e até o oferecimento do próprio device para o assinante, são estratégias já adotadas por algumas empresas. Departamentos devem dialogar. Não será apenas a sua área de TI geradora de novas fontes de receita. A necessidade de se pensar tecnologia como estratégia de negócios é eminente. Essa mudança já teve sua curva de aprendizado. Para muitos, essa alteração da estrutura organizacional já aconteceu. Hoje quem não colhe frutos precisa podar galhos.

*O estudo “Um Modelo de Negócio para o Jornalismo Digital: como os jornais devem abraçar a tecnologia, as redes sociais e os serviços de valor adicionado”, se transformará em 107 páginas de um e-book, que também terá sua versão imprensa na íntegra publicado na edição de abril da Revista de Jornalismo da ESPM (versão brasileira da Columbia Journalism Review) e posteriormente disponível online.

 






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