Deixe a sorte para o céu, Nintendo

Os brasileiros ainda se curvavam subserviente à coroa portuguesa quando uma empresa conhecida por seu videogame iniciava a sua trajetória ascendente no mundo dos jogos. Era a Nintendo e o seu lema de ?deixar a sorte para o céu?, segundo uma tradução literal e não oficial do nome da empresa para o português. E pelo céu, mundo afora, lá foi à empresa.

Por: - 50 anos atrás

O assunto no tempo da gênese da empresa, fundada em setembro de 1.889, não era o Super Mário. O fundador da empresa, Fusajiro Yamauchi, dava início a uma pequena fábrica de Hanafuda, uma espécie de jogo de cartas japonês. Na Terra do Sol Nascente, existem diversas maneiras de se jogar o Hanafuda, mas uma delas é um pouco parecida com o Mau-Mau.

Ao fundar uma empresa de cartas, Fusajiro seguiu os passos de nihonjin (japonês) e seus pressupostos culturais peculiares da cultura japonesa, algo que lembra o cuidado com o bonsai. Embora seja uma planta naturalmente pequena, ela só aparenta fragilidade aos olhos não treinados, nobre gafanhoto. O segredo de sua força e longevidade dependem dos cuidados conferido à poda, ao caule e, claro, a raiz.

E foi assim no decorrer dos anos. Yamauchi aproveitou como poucos a oportunidade de negócios na chamada Era Meiji (1867 a 1902), um dos períodos mais importantes para a história moderna japonesa e que representou a abertura do mercado japonês para as empresas do ocidente ? em especial, as inglesas e americanas. A ocidentalização trouxe um ônus cultural: era o fim da era medieval ou dos guerreiros samurais no Japão.

Yamauchi não apenas notou os ventos ocidentais que sopravam na direção da oriental flor de cerejeira. Ele percebeu que era chegada a hora de não apenas deixar, mas lançar a sorte para o céu de uma empresa que daria origem a Nintendo. E foi o que aconteceu. O tal sopro do outro lado mundo de inspiração foi o ponto de partida para a mudança no perfil do negócio da empresa e, a partir dela, surgiu o baralho ocidental no mundo oriental – um dos primeiros na terra dos samurais.

A industrialização do baralho ocidental em terras japonesas pela Nintendo começou em 1902. As novas cartas se transformaram em um rápido sucesso de vendas e público no Japão e parte da Ásia. Em 1951, a empresa adotou o nome de Nintendo Playing Card e uma década depois já despontava como uma das grandes companhias nipônicas na bolsa de valores de Osaka e Quioto. Aliás, a empresa produziu cartas personalizadas para a Walt Disney.

Nos anos subsequentes, a Nintendo ainda apostou em outros jogos analógicos, mas a revolução na empresa ocorreria apenas na década 1970. É nesse momento que eletrodos, transistores e outros elementos da eletrônica são incorporados ao negócio da companhia. Foi tiro certeiro no alvo.
Foi mais do que isso, aliás. Foi espetacular. Nenhuma outra empresa havia feito algo parecido no Japão até a década de 1970. A empresa lançou o Beam Gum, uma espécie de pistola laser. De novo, mais um sucesso. O brinquedo ainda voltaria a dar às caras em um dos consoles da Nintendo
Dos eletrônicos para o videogame foi apenas um passo.

As novidades vindas do Vale do Silício desembarcavam rápidas e atualizavam a empresa sobre o que era feito por empresas como Atari, Magnavox e outras. Logo, virou competição ? e das feias entre as companhias desse segmento. Para a Nintendo entrar nesse jogo, era preciso mais do que uma mera ficha de fliperama. Foi preciso se juntar com outra empresa do setor eletrônico: a Mitsubishi Eletric. Juntas, desenvolveram tecnologias para os primeiros consoles e, claro, fizeram os primeiros telejogos.

Nem mesmo o ?crash de 1983? dos videogames causou sustos para esse frondoso e aparentemente indestrutível bonsai dos eletrônicos. Afinal, dois anos antes, em 1981, o artista e idolatrado Shigeru Miyamoto (tão mítico quanto Nolan Bushnell para os japoneses e na Ásia) havia criado o jogo Donkey Kong. Era o que faltava para a empresa deslanchar de vez ao redor do mundo.

O jogo foi mais do que um sucesso de vendas. Era a primeira aparição do personagem que seria o ícone da Nintendo e, sem qualquer exagero, o maior herói dos videogames. O nome de batismo dele era Jumpman, um carpinteiro bigodudo, que vestia roupa e chapéu vermelhos e que estava em uma jornada para salvar a sua namorada, Pauline.

No fim, Jumpman virou apenas um dos seus secretos apelidos do Super Mario, o grande herói que surgia naquele momento e que falaremos mais em outro momento. O Mario foi o carro abre-alas de todos os produtos lançados pela empresa: do primeiro Famicom (ou Nintendo oito Bits), passando por Super Nes, Game Cube, Wii e o atual Wii U. O Mário foi e continua sendo o ?ás? na manga de uma empresa em tempos de crise ? e outra está a caminho. Mas, como ficou claro no recente caso da McDonald?s (Veja o link da matéria da PAULA SOBRE O MARIO), o Mário parece pronto para qualquer crise.

Os próximos anos da empresa serão de muitos desafios. Mas alguém duvida do poderio de uma empresa que foi pioneira na maioria das oito gerações dos games e cansou de se reinventar? Um poder de transformação que outra japonesa não teve, mesmo com a força de um porco-espinho cheio de energia. É o que veremos no próximo capítulo da série sobre gamificação.

Para mais informações sobre a Nintendo, acesse esse link.

Acompanhe a evolução da Nintendo por algumas imagems:

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Nintendo em cinco imagens

1 ? Hanafuda Yamauchi ? baralho tradicional japonês

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2 ? Baralho convencional Hanafuda ? o primeiro a ser produzido pela empresa

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3 ? Baralho Nintendo ? Baralho com o nome Nintendo

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4 ? Beam Gum da Nintendo ? primeiro brinquedo eletrônico

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5 ? Famicom ? primeiro videogame

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