Especial Frotas – Entre o custo e o risco

O GRANDE NÚMERO DE ASSALTOS, AS PÉSSIMAS CONDIÇÕES DAS ESTRADAS NO BRASIL, A FALTA DE OPÇÕES DE MEIOS DE TRANSPORTE DE CARGAS, ASSIM COMO DE POLICIAMENTO NAS RODOVIAS, TORNAM O GERENCIAMENTO DE RISCO E O USO DE TECNOLOGIAS DE MONITORAMENTO ESSENCIAIS PARA A DISTRIBUIÇÃO NO PAÍS.

Um caminhão de cargas que transita em uma rodovia é cercado por três veículos. O da frente obriga o caminhão a andar em velocidade reduzida e o de trás, onde estão os criminosos, aproxima-se. Os assaltantes sobem no caminhão em alta velocidade e conseguem chegar até a carga, com parte dela sendo repassada para o veículo que está atrás. Em outro caso, um carro com os assaltantes fecha o caminhão pela frente, consegue pará-lo no meio da estrada e o sequestra após render o motorista.

Em uma região mais tranquila, os assaltantes passam a carroceria inteira para outra cabine e levam toda a carga. Essas são algumas das cenas a que podemos assistir em programas europeus e americanos de televisão sobre assaltos cinematográficos de cargas. No Brasil, os roubos não têm traços tão hollywoodianos, embora sejam bem comuns e cotidianos.

Em 2012, foram 14.400 ocorrências, representando R$ 960 milhões em perdas em todo País, segundo a NTC & Logística ? entidade que representa empresas do setor de transporte rodoviário de cargas. A Região Sudeste concentra 83,64% dos assaltos, e somente nos Estados de São Paulo (51%) e do Rio de Janeiro (25%) estão 76% das ocorrências do território nacional.

A concentração nos dois Estados acontece porque são os maiores centros produtores e consumidores, abrigando um grande fluxo de veículos transportando cargas, segundo o coronel Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança da entidade. ?O cenário existe por conta da concentração de renda e consumo. É mais propício roubar e mais fácil escoar os produtos para pontos de venda irregulares?, explica.

Destino: Campinas
Dados do Fórum de Gerenciamento de Risco, criado pela Associação Brasileira de Logística (Abralog) e pela consultoria Accenture, apresentam uma realidade ainda mais pessimista. Estimam que o roubo de cargas no Brasil chega a US$ 850 milhões por ano ? mais que o dobro dos dados da NTC & Logística se considerarmos o atual câmbio do dólar. ?O número é tão expressivo que as seguradoras brasileiras, por exemplo, passaram a redigir suas apólices após as recomendações de empresas especializadas em lidar com o risco de roubo de cargas no transporte rodoviário?, diz Pedro Francisco Moreira, presidente da Abralog.

A região de Campinas (SP) tem sido um dos grandes focos desse tipo de crime. Em outubro, uma carga de processadores de computador, estimada em R$ 1,3 milhão, foi roubada de um caminhão que passava pela Rodovia dos Bandeirantes, por uma quadrilha especializada. As características da indústria local, que concentra montadoras de eletroeletrônicos, têm sido um dos atrativos para os crescentes roubos na região.

Contudo, ainda de acordo com o coronel Souza, o maior número de ocorrências do Sudeste tem como vítimas veículos menores, que atendem ao comércio varejista. Fim de tarde, quando há trânsito e os veículos precisam reduzir a velocidade para acessar bairros da cidade, especialmente as periferias, é o cenário em que mais acontecem os roubos. Grande parte deles é de ocorrências de oportunidade, realizadas por um grupo pequeno de criminosos, segundo o coronel Souza.

O problema da recepção
Os caminhões que são alvos dos criminosos transportam produtos eletroeletrônicos, farmacêuticos ou alimentícios, garante Manoel Sousa Lima Júnior, presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp). ?Isso tudo acontece porque não se combate a receptação de cargas. Se houver combate, o roubo vai diminuir.? Ele explica que o assalto não é realizado apenas por aquele que rouba o motorista, porque ele ganha um valor muito pequeno. ?É uma cadeia que é interrompida, com a participação de pessoas que não se conhecem, para que não se caracterize como uma quadrilha?, completa.

Para Sérgio França, diretor da Prosegur, uma série de fatores acaba mantendo a ilegalidade do roubo de cargas. ?O País é muito grande, permitindo uma distribuição fácil e rápida, falta fiscalização e há impunidade?, avalia. Por isso, Júnior, do Setcesp, sugere fiscalização e punição mais severa aos receptadores que comercializam mercadorias irregulares, uma vez que sustentam essa rede de assaltos. Reclama, ainda, da falta de delegacias especializadas no Estado de São Paulo para que se possa ter uma resposta rápida à ação dos criminosos.

Diante do crescente número de roubo de cargas, o governador paulista, Geraldo Alckmin, chamou a atenção para o programa de combate ao roubo de carga no Estado de São Paulo durante o Salão Internacional do Transporte (Fenatran), que ocorreu em novembro de 2013. Disse que todas as Delegacias de Investigações Gerais (DIGs) do Estado terão um núcleo para apurar o furto, o roubo e o desvio de cargas. E que o objetivo é chegar até os receptadores. Prometeu, ainda, que haverá uma ação especial em Campinas devido a uma ocorrência maior desse tipo de crime na região.

Por sua vez, em 2012, para melhorar a estrutura, o governo federal lançou o Programa de Investimentos em Logística (PIL), que prevê aplicação de R$ 133 bilhões em nove trechos de rodovias e em 12 trechos de ferrovias. Somente as rodovias devem receber R$ 42 bilhões em 7,5 mil quilômetros, investimento que deve ser realizado em duas etapas: R$ 23,5 bilhões em cinco anos e mais R$ 18,5 bilhões em 20 anos.

Motoristas expostos
Contudo, a realidade é crítica. Para José Parisatto, diretor de operações e relação com o cliente da Locamerica ? especializada no planejamento e terceirização de frotas ?, a precariedade da estrutura das rodovias é o maior desafio da logística no Brasil. ?As condições das estradas são muito ruins, com buraco, falta de sinal de celular, falta de postos de polícia ou postos de polícia abandonados. O condutor, exposto, fica com medo de trafegar?, afirma.

Rodovia: entrega mais demorada e produto mais caro
Manoel Reis, coordenador do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain (GVcelog), da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV?Eaesp), afirma que a logística no País conta com um grande agravante que é a falta de opções. É baseada majoritariamente em rodovias, que estão em péssimas condições de conservação. ?Isso aumenta o tempo de distribuição e os custos das mercadorias na ponta da cadeia?, afirma.

Acidentes e as perdas
Somente os acidentes respondem por prejuízos aproximados de US$ 3 bilhões por ano no País, segundo dados da pesquisa da Abralog (confira no box). Embora a maior quantidade de ocorrências esteja ligada a eventos de roubo no transporte rodoviário, o maior valor de perdas é devido aos acidentes nas rodovias.

Soluções
O que o varejista que precisa transportar produtos pode fazer para reduzir as perdas no processo de logística e distribuição, já que o Estado é lento e ineficiente? Com o propósito de mitigar as perdas, hoje muitas empresas oferecem serviços de monitoramento, rastreamento e gestão de risco.

Um dos caminhos que têm sido aplicados pela Zatix, especializada em rastreamento, é a inteligência embarcada. Com uma série de funções de segurança, o sistema rastreia e toma decisões na falta de comunicação ou de um operador. ?O motorista sai com um roteiro definido, e o cliente pode parar o veículo e travar as portas do baú no caso de saída da rota. Isso é programado com antecedência, e o sistema toma a decisão sozinho?, afi rma Sandro Azevedo, diretor comercial da companhia

Outra possibilidade, chamada de função programável, é quando o motorista, ao iniciar viagem, é obrigado a informar o destino ao terminal de dados. Nesse momento, o sistema libera o motorista dentro de um roteiro preestabelecido. Para o condutor mudar de rota, tem de pedir autorização, caso contrário isso é entendido como situação de assalto

Breno Davis, gerente-geral corporativo de operações e relação com o cliente da Locamerica, acredita que, do ponto de vista de tecnologia para redução de prejuízo e mitigação de risco, as soluções mais efetivas são as voltadas para monitoramento e bloqueio de caminhões, especialmente os maiores, em que o índice de recuperação é de 85%.

Para os veículos menores, outras soluções também podem ser aplicadas, como os alarmes e as trancas. Contudo, nesse caso nem sempre a carga é resgatada, uma vez que a solução é focada no veículo. Por isso, a empresa recomenda a realização de um seguro para os produtos transportados.

Resgate da mercadoria
Para o resgate da carga e até mesmo a inibição dos roubos, há um rastreador com bateria que pode durar de três dias a um ano. O equipamento da Dimep Sat ? que oferece tecnologia de rastreamento ? é instalado dentro de ao menos uma das caixas da carga e, em caso de roubo, é possível localiza-la, e não somente o veículo.

?Uma vez que os criminosos percebem o uso da tecnologia, também há uma inibição de novos assaltos, já que sabem que podem ser localizados?, explica Paulo Lima, gerente de vendas do departamento de monitoramento de frotas da empresa.

Apesar de ser um custo adicional que entra no orçamento das companhias, o investimento em gestão de risco, monitoramento e/ou rastreamento pode ser bem inferior ao custo que se pode ter com perdas. Lima afi rma que o equipamento custa de R$ 98 a R$ 125 por mês por veículo em planos de 24 meses, em um sistema de comodato. Claro que esse custo vai variar com a demanda de cada empresa. ?Um cliente gastava R$ 60 mil com desvio e roubo de mercadorias. Em três meses, o custo caiu para R$ 3 mil.?

Por sua vez, Azevedo, da Zatix, garante que as soluções de inteligência embarcada chegam a reduzir o risco de roubo de carga em 80%. No caso de produtos de grande valor, a Prosegur oferece uma divisão com carretas especiais para transporte de itens como celulares, televisores de LED, relógios, chips e medicamentos. ?Essa é nossa especialidade, e, nesse caso, os seguranças da escolta ficam dentro do veículo, ao invés de usarem carros extras seguindo o caminhão?, afirma Sérgio França, diretor da empresa, com conta com filiais em todo o País, com exceção de Roraima.

Dentre as dicas para mitigar perdas, França destaca que as empresas devem tomar cuidado com a contratação de muitas prestadoras de serviço. ?Em geral o cliente contrata uma empresa de gerenciamento de risco, indica quais os modelos de segurança que devem ser colocados, mas contrata escolta e tecnologia de outra empresa. Com isso, fragiliza a operação de risco, porque muita gente fica sabendo que ela vai ocorrer?, alerta França

AS PERDAS NO TRANSPORTE DE CARGAS NO BRASIL

  • As rodovias nacionais mantêm um elevado índice de acidentes, que respondem por prejuízos aproximados de US$ 3 bilhões por ano.
  • As perdas causadas por roubo de cargas correspondem anualmente a valores próximos de US$ 850 milhões.
  • O serviço de gerenciamento de riscos no transporte rodoviário de cargas é contratado por cerca de 90% dos entrevistados.
  • 4,4% dos respondentes não contratam seguros para transporte rodoviário de cargas.
  • 75% das empresas declararam não gastar mais de 10% do orçamento das áreas responsáveis pela gestão de riscos em treinamento.
  • Mais de 60% delas informaram alocar mais de 30% de seus orçamentos com os custos combinados de serviços de seguro, gerenciamento de riscos no transporte rodoviário de cargas e em escolta.
  • Embora a maior quanti dade de ocorrências esteja ligada a eventos de roubo no transporte rodoviário, o maior valor de perdas está ligado às ocorrências de acidentes no transporte rodoviário de cargas, que respondem por 34,62%.

Efeitos colaterais
O monitoramento pode trazer vantagens extras. Azevedo, da Zatix, afirma que é possível ter um melhor gerenciamento da frota e aumento da produtividade. ?Cada etapa da viagem é controlada em tempo real pelo gestor das rotas, que percebe quando um motorista está demorando mais tempo para fazer uma viagem, ajudando na gestão da logística?, relata.

Lima, do Dimep Sat, lembra que outra vantagem é o maior controle da jornada de trabalho dos motoristas, permitindo checar se estão cumprindo as normas do Contran, evitando-se, além de acidentes, processos trabalhistas.

A verdade é que as empresas que dependem das rodovias brasileiras são obrigadas a se cercarem de soluções que garantam a segurança da carga, ou arriscam perder valores ainda muito maiores. Com isso, sem dúvida, esse é um custo adicional ? um dos aspectos do chamado ?custo Brasil? ? que acaba sendo incluído no preço final da mercadoria.

SIMULADORES PARA TREINAMENTO

Pensando na crescente escassez de mão de obra qualificada de motoristas de veículos tecnológicos e na necessidade de diminuir acidentes e custos operacionais, a Navig ? empresa de cursos e treinamentos para condutores de frotas que chegou ao mercado em outubro de 2013 ? fornece qualificação e aprimoramento para motoristas de caminhão, ônibus e automóvel de frotas por meio de simuladores dotados de alta tecnologia.

O equipamento constrói um cenário com componentes dos veículos para aumentar a sensação de realismo dentro do ambiente virtual. Os simuladores estão instalados em unidades móveis de treinamento. Dessa maneira, a Navig leva os equipamentos até o cliente, o que facilita o trabalho com a equipe e evita a perda de tempo e custos com o deslocamento dos funcionários.

Os cursos vão de economia de combustível a conscientização sobre o consumo de álcool e drogas. De acordo com o piloto de stock car Luciano Burti, à frente da empresa, ter um profissional bem treinado gera economia e mais credibilidade corporativa. ?O volume crescente do mercado, com margens cada vez menores, torna imprescindível o treinamento dos condutores?, afirma o empresário.




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