Consumo Consciente – Campeões também em reciclagem

Qual o papel do varejo no processo de reciclagem de garrafas de bebidas? Como os supermercados podem contribuir para que os consumidores colaborem mais com o retorno das embalagens e, como consequência, haja um aumento da reciclagem ou do reuso das embalagens de bebidas?   Na Alemanha, a legislação exige que os seguintes percentuais de […]

Qual o papel do varejo no processo de reciclagem de garrafas de bebidas? Como os supermercados podem contribuir para que os consumidores colaborem mais com o retorno das embalagens e, como consequência, haja um aumento da reciclagem ou do reuso das embalagens de bebidas?


 

n29

Na Alemanha, a legislação exige que os seguintes percentuais de embalagens devem ser remetidos para a reciclagem:

Vidro 75%
Ferro estanhado 70%
Alumínio 60%
Papel e papelão 70%
Combinações de materiais (inclusive plástico) 60%

Fonte: Portaria alemã sobre a Prevenção e Recuperação de Resíduos de Embalagem de 1998 e atualizada em 2008  (Packaging Ordinance ? Verpackungsverordnung ? Verpack V)

Alemanha 3 X 1 Brasil

Alemanha
Já tem o sistema de reciclagem de embalagens one-way implantado (vinculando indústria, varejo e consumidor) desde 2003

As embalagens reutilizáveis são bastante difundidas e utilizadas pela indústria no País (elas podem ser reutilizadas até 25 vezes)

A coleta seletiva do lixo já está implantada no país desde 1991, obrigando os cidadãos a separarem em papel/papelão, embalagens recicláveis, resíduos orgânicos não recicláveis e em alguns locais há ainda a separação de resíduos biológicos. Os vidros não são recolhidos. Eles devem ser depositados em estações espalhadas pelas cidades.
 
Brasil
Aprovou a Política Nacional de Resíduos Sólidos em 2010, mas sua aplicação ainda está em discussão. Enquanto isso, alguns varejistas fazem parcerias com a indústria e põem em prática iniciativas para reduzir o impacto de suas atividades no meio ambiente. Contudo, a coleta seletiva realizada pelo poder público, na casa dos cidadãos, ainda está começando a ser implantada nos principais centros urbanos.

n30Mehrweg
As garrafas retornáveis carregam um símbolo diferente e o valor do depósito é menor que o das embalagens não retornáveis. Em geral varia entre
? 0,08 e ? 0,15


 

Essas questões foram consideradas pelo governo alemão quando, em 1998, foi estabelecida no país uma portaria que regula o papel da indústria e do distribuidor ? incluindo varejistas ? no processo de reciclagem de embalagens. O objetivo dela, que foi atualizada em 2008, é reduzir ou evitar os impactos ambientais dos resíduos de embalagens.

Com isso, desde outubro de 2003 distribuidores de embalagens de bebidas com um volume entre 0,1 e três litros, chamadas one-way (não retornáveis), são obrigados a cobrar do consumidor um depósito de pelo menos ? 0,25 na venda do produto. O valor do depósito pode variar de acordo com o material da embalagem. O propósito é que o consumidor devolva a embalagem ao supermercado, obtenha de volta o valor do depósito e como consequência, haja um aumento da reciclagem das embalagens.

O ciclo começa na indústria, que já vende o produto aos distribuidores com o valor do depósito incluído. Por sua vez, os varejistas também cobram o valor do depósito ao consumidor ? a regra vale ainda para as máquinas de vendas de bebidas, as chamadas vending machines.

O retorno da embalagem pode ser feito manualmente, com a entrega a um funcionário da varejista. Ele conta as embalagens e entrega um cupom de desconto, que é registrado quando o cliente chega ao caixa com as compras. Alguns supermercados alemães, como Lidl, Aldi e Real, contam com máquinas para recebimento das embalagens. Elas são facilmente operadas pelo consumidor, contam as embalagens, pesam e imprimem o recibo ao fim da operação.

Questões culturais importantes levam os consumidores a colaborar ainda mais com o sistema. Uma delas é que o alemão é um povo consciente ? já conta com um sistema de coleta seletiva em funcionamento há alguns anos ? e que valoriza bastante o dinheiro. Como consequência, aos fins de semana o volume de consumidores que retornam as embalagens é grande e se formam filas de pessoas com carrinhos cheios de garrafas em frente às máquinas.

Diante do volume de pessoas, as máquinas são uma boa solução para um país onde a mão de obra não é barata.

O sistema de retorno de embalagens one-way é complexo porque o consumidor pode devolver as garrafas e latas não somente no ponto de venda onde comprou as bebidas, mas em qualquer outro varejista que também comercialize o produto. Para organizar e equilibrar os reembolsos entre os distribuidores participantes, o sistema conta com o Deutsche Pfandsystem GmbH (DPG), órgão que administra a estrutura organizacional e legal para o recolhimento e compensação do depósito compulsório das embalagens de bebidas one-way.

Vale ressaltar, contudo, que os varejistas com lojas com até 200 metros quadrados são obrigados a receber de volta somente embalagens de produtos semelhantes aos que vendem. Isso porque, além do sistema one-way, os varejistas recebem também as garrafas reutilizáveis de vidro ou de plástico PET mais resistente. Nesse caso o valor do depósito em geral varia entre ? 0,08 e ? 0,15.

E, na Alemanha, há uma infinidade de formatos e composições de garrafas de bebidas, além das latas. Há água e refrigerantes vendidos em garrafas PETs, mas também água, refrigerantes vendidos em garrafas plásticas mais resistentes que podem ser higienizadas e reutilizadas ao invés de recicladas. Há, ainda, água e cervejas também são vendidas em garrafas de vidro. Aquelas que não são retornáveis contam com um selo que as identifica como one-way e as reutilizáveis (Mehrweg em alemão) também são identificadas, mas com um símbolo diferente.

Por isso, o varejista deve informar anualmente ao DPG os tipos de produtos e embalagens que comercializa, para que possa ser feito o controle de reembolso e de atuação do distribuidor. Da mesma forma, os varejistas de menor porte devem deixar claro ao consumidor os tipos de embalagens que recebem de volta.

Nem sempre o sistema é conveniente para o consumidor. Como há produtos que são vendidos em apenas alguns supermercados, algumas vezes, ao comprar bebidas em locais que não estão na sua rotina diária, o consumidor pode ter dificuldade de retornar essas embalagens e, com isso, alguns acabam apenas as descartando. Afinal, não vale a pena viajar 20 quilômetros por causa de ? 0,25.

Contudo, desde que o sistema foi implantado tornou-se raro encontrar garrafas plásticas mesmo nos lixos da cidade. Em função do valor do depósito, algumas pessoas de menor poder aquisitivo perceberam no sistema uma forma de ganhar dinheiro. Com isso, passam o dia recolhendo as embalagens que encontram no lixo. Isso é comum especialmente nos trens, onde as pessoas costumam consumir produtos no caminho do trabalho e descartá-los nas lixeiras para não ter que carregar no trajeto.

Com isso, independente de quem devolve a garrafa, o sistema funciona. Segundo a Petcore Europe, associação que representa indústria de PET e empresas envolvidas na cadeia, o programa de depósito de PET que ocorre na Alemanha e em outros países da Europa atingiu taxas de retorno elevadas (90%), com níveis muito baixos de contaminação do PET pós-consumo. O sistema pode ser uma referência para a legislação brasileira, que ainda busca o melhor caminho de implantar a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A lei brasileira, assim como o sistema alemão, busca compartilhar a responsabilidade sobre os resíduos gerados entre indústria, comércio e consumidores.


Melhores práticas
brasileiras

– O GPA e o Carrefour contam com estações para receber resíduos recicláveis em suas lojas e encaminham esses resíduos para cooperativas parceiras.

– Projeto Recicle Mais, Pague Menos, parceria entre rede Assaí e AES Eletropaulo, oferece descontos na conta de energia elétrica dos clientes em troca de materiais recicláveis (vidro, papel, metal, plástico e embalagens Tetra Pak).

– Projeto Supermercado Lixo Zero: o Angeloni e outras redes catarinenses produzem adubo a partir de resíduos orgânicos provenientes do hortifruti, açougue e padarias de suas unidades. A ação funciona em parceria com uma associação que trabalha a recuperação de dependentes químicos.

Melhores práticas alemãs

– Sistema de reciclagem de embalagens one-way e reutilizáveis (Mehrweg) induz clientes a trazerem garrafas de bebidas de volta aos supermercados para obterem o valor que pagam pelo depósito das garrafas de volta. Sistema integra responsabilidades da indústria, comércio e consumidores pelos resíduos.

– Alguns supermercados têm máquinas que contam, pesam as embalagens que são retornadas e geram recibo de desconto. As máquinas geram mais praticidade ao consumidor.

– Resíduos de papel/papelão, embalagens recicláveis e  resíduos orgânicos não-recicláveis são recolhidos separadamente na residência do consumidor. Os vidros não são recolhidos e o consumidor deposita em estações espalhadas pelas cidades.


 n31Máquinas contam embalagens. Boa solução para um país onde a mão de obra não é barata. Congestionamento nas máquinas. Aos fins de semana o volume de consumidores que retornam as embalagens é tão grande  que se formam filas de pessoas com carrinhos cheios de garrafas em frente às máquinas.

No Brasil a logística reversa de embalagens recicláveis passou a ser mais discutida após a aprovação da Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Ela estabelece princípios, objetivos, diretrizes, metas, ações e instrumentos para que, juntos, governo, iniciativa privada, sociedade e entidades em geral se mobilizem em prol da gestão correta dos resíduos gerados no País. Contudo, algumas redes supermercadistas se anteciparam. O GPA, por exemplo, desde 2001 conta com estações para receber resíduos recicláveis em suas lojas Pão de Açúcar e encaminha esses resíduos para cooperativas parceiras. A ação é realizada em parceria com a Unilever e deu tão certo que em 2009 foi expandida para as lojas da bandeira Extra. Desde o início da ação, já foram arrecadados mais de 90 mil toneladas de material reciclável. O Carrefour também já realiza uma ação como essa.

Na bandeira de atacado Assaí, do GPA, o projeto Recicle Mais, Pague Menos, em parceria com a AES Eletropaulo, foi implantado na loja de Guaianases, em São Paulo, e oferece descontos na conta de energia elétrica dos clientes em troca de materiais recicláveis (vidro, papel, metal, plástico e embalagens Tetra Pak). Desde o início da parceria, em outubro de 2013, mais de oito toneladas de materiais recicláveis já foram arrecadadas, o que gerou desconto na conta de luz de cerca de 300 pessoas que se cadastraram no programa. Em abril deste ano a parceria foi ampliada para a loja Águia de Haia, também na capital paulista.

Com a proposta de reduzir e oferecer a correta destinação dos resíduos gerados pelos supermercados, a Associação Catarinense de Supermercados (Acats) criou, em 2011, o projeto Supermercado Lixo Zero. A proposta é que os supermercados ofereçam a correta gestão dos resíduos sólidos e se adequem às diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n° 12.305/2010).

A rede Angeloni foi uma das selecionadas para o projeto piloto. Em suas lojas a varejista também realiza o recolhimento de pilhas e baterias descartadas, assim como de equipamentos eletroeletrônicos e de informática descartados pelos clientes, recolhe de papel e papelão em todas as unidades para reciclagem industrial e ainda remédios nas farmácias, dentre outras ações. Contudo, a empresa tem se destacado na solução encontrada para os próprios resíduos.

Além de oferecer a correta destinação aos próprios resíduos recicláveis, o Angeloni tem usado os resíduos orgânicos provenientes do hortifruti, açougue e padarias de suas unidades para a produção de adubo. ?A Acats e o Angeloni fizeram uma parceria com uma associação que trabalha a recuperação de dependentes químicos. Nós os capacitamos para fazerem a parte de compostagem dos resíduos sólidos, transformando em adubo de excelente qualidade?, explica Antonio Carlos Poletini, diretor-executivo da Acats.

O projeto está totalmente implantado nas sete lojas da rede na Grande Florianópolis e parcialmente nos demais 20 pontos de venda em Santa Catarina e no Paraná. Segundo a rede varejista, ao mês 150 toneladas de lixo orgânico são transformadas em adubo, que vai parar nas prateleiras do mercado para venda. Com isso, o projeto tem gerado uma economia circular ? por gerarem empregos ao precisar de novos atores para atuar na cadeia ?, além de ter um papel social ao realizar uma parceria com a associação. De acordo com a supermercadista, com o projeto mais de 400 dependentes químicos já foram reinseridos na comunidade.  Com os bons resultados, o programa está sendo ampliado para outras redes supermercadistas de Santa Catarina.






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