Aplicativo africano calcula quantas vacas “custa” uma esposa

Apesar de não ser muito usual na nossa cultura (esperamos), quem pretende se casar na Nigéria, no Quênia ou na África do Sul, já não precisa pechinchar o dote que entregará à família de sua prometida: um aplicativo para celulares permite calcular, com parâmetros de idade, altura e peso da mulher, o número de vacas que deverão ser entregues aos seus pais.

O lançamento do app “Máquina de calcular de lobolo” (nome que recebe o dote no sul do continente) neste ano causou furor e polêmica na África do Sul, onde o criador do aplicativo – que já tem mais de 20 mil downloads – foi acusado de desvirtuar a tradição e fomentar o machismo. “O povo que pensa que o aplicativo é sexista deve se perguntar se o problema é com o aplicativo ou com a cultura do ‘lobolo”, disse à imprensa local o artífice da invenção, Kopo Robert Matsaneng, que ressalta a intenção recreativa do programa. “Eu não inventei a tradição, simplesmente a refleti”, defende-se o programador, que lembra, além disso, que o aplicativo permite, para ser mais “divertido”, calcular também o valor de um homem, algo alheio à tradição africana.

Ciente da evolução da sociedade e de que muitas famílias nestes tempos dão suas filhas para casamento em troca de dinheiro, ao invés de vacas, Matsaneng oferece também o valor do dote em rands (moeda sul-africana) e em dólares. A importância que tem o aspecto físico na taxação centrou boa parte das críticas, mas o aplicativo leva em conta também a situação civil, educativa e laboral da futura esposa. Assim, uma mulher com estudos universitários, que não tenha sido mãe e não tenha se casado, será mais valiosa para a família do marido do que outra de menor formação que venha em lote com os filhos e já tenha passado pelo altar.

“Na parte da educação, acrescente por favor o nível de qualificações de pós-graduação… Não estou fazendo todos estes estudos para nada”, diz na página do aplicativo uma jovem que fez download do programa. Outra sugestão de melhora é introduzir como critério de cálculo os dotes da candidata.

Segundo o calculador, a família de uma jovem de 27 anos, 1m65 de altura, 58 quilos e tamanho 38, considerada atraente, com estudos universitários e emprego, solteira e sem filhos, receberá como dote nove vacas ou US$ 6.651.

Se a mulher tem 40 anos, mede 1m60, pesa 80 quilos e usa um tamanho 46, tem apenas bacharelado, não trabalha, já foi casada e tem filhos, o cálculo tem um saldo negativo de duas vacas ou US$ 1.339, que presumivelmente ela deverá pagar à família do marido.

Como se fosse pouco, o calculador dá o valor médio do “lobolo” que é pago em distintas zonas da África do Sul, assim como nos pequenos reinos de Lesoto e Suazilândia, ajudando a escolher a zona na qual buscar esposa de acordo com as possibilidades econômicas de cada um.

“Este aplicativo é o futuro. Acho que nossos pais deveriam conhecê-lo e começar a usá-lo em suas negociações (entre famílias, na hora de pedir o dote)”, escreve Nini Skosana, outra usuária.

Mas nem todo mundo recebeu com tanto entusiasmo a “máquina de calcular”. Entre os críticos há tanto opositores como partidários do ‘lobolo’.

Os primeiros consideram a tradição – que este aplicativo atualiza e promove – um ataque à dignidade da mulher, que é comprada como um produto processado. Para os segundos, a automatização de um cálculo que normalmente é estabelecido mediante a negociação entre famílias vai contra um dos propósitos originais do “lobolo”, o de unir as famílias dos pretendentes.

* Com informações da EFE

 

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