Encontro de mulheres, para mulheres

Em entrevista à Consumidor Moderno, Irene Natividad, presidente do Global Summit of Women, fala sobre o evento que começa amanhã e sobre o papel da mulher nos negócios nos últimos anos

Irene Natividad é uma importante líder feminista e presidente do Global Summit of Women, encontro internacional de líderes femininas do mundo inteiro para o intercâmbio de iniciativas desenvolvidas por mulheres em todas as partes do mundo. Seu comprometimento com o ativismo vem de longa data: em 1985, foi eleita presidente da National Women?s Political Caucus, tornando-se a primeira ásio-americana (ela é nativa das Filipinas) a chefiar uma organização política dos EUA. Irene falou à Consumidor Moderno sobre sua atuação na busca por um mundo melhor para as mulheres.  

Amanhã, 14 de maio, começa em São Paulo a 25ª edição do evento. A ideia é debater questões referentes à mulher, como as melhores práticas, estratégias e soluções para acelerar o progresso econômico das mulheres.

Esta edição do Summit destacará as inovações das mulheres no mercado global, como Robin Chase, que fundou a ZipCar, maior empresa de compartilhamento de carros do mundo, e Luiza Trajano, da rede Magazine Luiza. Com o tema “Mulheres Criativas, Economias Criativas”, o evento  promoverá a inovação e a criatividade das mulheres que ajudam a moldar as economias de seus países. Entre as participantes confirmadas, estão a Presidente do Kosovo Atifete Jahjaga e a vice-presidente do Vietnã, Nguyen Thi Doan, entre outras personalidades. O evento será realizado entre os dias 14 e 16 de maio, no Grand Hyatt São Paulo.

Consumidor Moderno – Como começou a se envolver com a luta das mulheres por mais espaço? Quais conquistas recentes das mulheres você considera mais importantes?

Irene Natividad – Não houve uma época específica em que comecei a me envolver com os direitos das mulheres. Pelo contrário, tem sido uma jornada de 35 anos. Meu interesse pelo tema evoluiu de uma acadêmica para uma ativista. Meu tema de dissertação de doutorado, por exemplo, foi sobre ?Narrativas de Mulheres Escravas? escritas no século 19 e hoje escrevo boletins sobre mulheres nos conselhos de administração na Fortune Global 200, para fornecer dados de referência de mulheres que estão nos mais altos escalões da liderança corporativa. Uma grande transição da literatura para a economia, mas no final, o tema é mulheres.

Em relação às conquistas das mulheres, a mais importante é o estudo, chave para sua independência econômica. Tornam-se quase a metade da força do mercado de trabalho, apesar de todos os tipos de barreiras que impediam a sua participação como trabalhadoras. E, mais recentemente, são o combustível para o crescimento das pequenas empresas em todos os cantos do mundo.

 

CM – O que é, na sua opinião, ser feminista?

IN – Feminista é uma mulher ou o homem que acredita que as mulheres são iguais aos homens e, portanto, devem ter as mesmas oportunidades em cada setor da sociedade à disposição dos homens.

 

Irene NatividadCM – Você se classificaria como feminista e /ou ativista do movimento feminista? Comente um pouco sobre sua história.

IN – Logo no início, os ativistas pelos direitos das mulheres trabalharam no sentido de constituir uma base jurídica para a igualdade das mulheres, que fosse incorporada na constituição de um país ou a uma lei geral de igualdade de direitos entre homens e mulheres. No início o foco eram os direitos humanos ? o direito a votar, a educação, a trabalhar em todas as profissões.  Conforme o tempo passava e as mulheres aumentavam seu nível de instrução e experiência profissional, o foco mudou para como permitir que as mulheres  tivessem sucesso e adquirissem papéis de liderança no mundo dos negócios, no governo, nas Forças Armadas, entre outros. Nesta jornada, a maior barreira que continua a impedir o progresso das mulheres são as velhas percepções culturais do que as mulheres podem ou não podem fazer.

 

CM – Por que você acha que, apesar de falarem tanto no assunto, as mulheres ainda têm tão pouco espaço no mercado de trabalho? Podemos dizer que isso tem a ver com a falta de união das diversas vertentes do movimento feminista ou trata-se apenas de vestígio do mundo patriarcal?

IN – Sempre digo que as mulheres são “imigrantes” do local de trabalho, onde a cultura, os processos e a língua foram desenvolvidos sem serem pensados nelas. Assim, as mulheres têm que aprender a integrar-se em um ambiente que é, essencialmente, “estrangeiro” para elas.
As mulheres trazem um grande pool de talentos com elas. Tornaram-se a maioria dos recém-formados não só no Brasil, mas em outras partes do mundo. Contudo, estão subempregadas em empregos que não condizem com a sua preparação educacional. Muitas estão estagnadas em cargos inferiores de diversas instituições impedidas de ascender na hierarquia da empresa. Uma questão importante é o fato de que as mulheres querem ter sucesso no trabalho e em casa e combinar os dois é um desafio constante.
Algumas empresas e governos têm respondido a esse desafio, fornecendo generosas políticas como a licença paternidade, mas a maioria ainda não tem. Os Estados Unidos, meu país, só fornece licença não remunerada, cuja maioria das famílias não pode arcar por muito tempo.

 

CM – Como surgiu o Global Summit Women? Pode comentar um pouco sobre a evolução do evento?

IN – Em 1990, um grupo formado por mim percebeu que não havia um fórum global para tratar questões econômicas referentes à mulher. Então, nós decidimos que iríamos reunir as melhores práticas, estratégias e soluções para acelerar o progresso econômico das mulheres para que as mulheres não precisassem começar do zero. Mulheres aprendem melhor umas com as outras, portanto logo decidimos juntar líderes de negócios, do governo e da sociedade civil para compartilharem o que funciona.

 

CM – Quais mudanças você pode apontar nos objetivos do evento? Eles continuam os mesmos da primeira edição?

IN – Nosso foco sempre foi e continua a ser o de proporcionar um fórum para o intercâmbio de iniciativas desenvolvidas por mulheres em todas as partes do mundo. O objetivo não mudou. O que mudou são os números de pessoas presentes e do leque de países participantes. Ao longo dos anos, elementos foram adicionados com base no feedback dos participantes.
Uma Mesa Redonda Ministerial foi criada em resposta a pedidos de ministros que frequentam o Summit e queriam seu próprio espaço de intercâmbio de informações. Um Fórum da Juventude foi criado para mostrar exemplos de jovens empreendedores para universitários que convidamos de cada país sede. A Expo de mulheres (WEXPO) também foi criada a pedido de empresárias que queriam mostrar os seus produtos, serviços ou organizações. Recentemente, começamos a convidar CEOs do sexo masculino e outros líderes para fazer parte do programa do Summit.

 

CM – Qual país pode ser apontado como o mais maduro, em relação à participação da mulher no mercado de trabalho? O que você acha do Brasil em relação ao tratamento com as mulheres?

IN – Não há nenhum país que tenha resolvido as três questões básicas que as mulheres enfrentam na economia – o desafio de trabalhar em casa e trabalhar no trabalho, a diferença de entre homens e mulheres e a discriminação permanente no local de trabalho, que pode ser sutil ou evidente. No ranking dos países que mais fazem por mulheres, os nórdicos sempre se destacam com suas políticas progressistas em prol de mulheres e meninas. Mulheres brasileiras também enfrentam estas três questões principais, mas talvez estejam mais acentuadas por uma cultura com mulheres com pontos de vista mais tradicionais, especialmente das que são de fora das zonas urbanas.

 

CM – De que maneira as mulheres influenciam o mercado consumidor? Como a maior participação delas em cargos de destaque influencia as relações de consumo?

IN – Esta é uma das áreas onde reside a força econômica das mulheres, que são a maioria dos consumidores nas economias desenvolvidas e cada vez mais nas economias emergentes. A renda de mais e mais mulheres aumenta na medida em que entram no mercado de trabalho. Seu poder de compra se estende para além de bens de consumo a automóveis, equipamentos tecnológicos e suprimentos necessários para as empresas que estão criando.
Isto significa que o poder de compra das mulheres afetará a rentabilidade de muitas empresas no mundo. No entanto, esta influência de compra não se reflete em cargos executivos seniores ou cargos de diretoria em muitas empresas. Uma vez perguntaram ao ex-CEO da Albertson por que ele tinha 6 de 10 assentos no conselho ocupados por mulheres, e ele respondeu : ?Não importa o quão inteligente são os meus homens de marketing , eles não podem entrar nas mentes das mulheres que são a maioria dos nossos consumidores”. Ele articulou em poucas palavras o business case para a inclusão das mulheres em cargos de liderança corporativa.

 

CM – Você pode apontar algumas mulheres que se destacaram historicamente e algumas que se destacam atualmente? Por quê?

IN – Existem muitas para eu selecionar uma ou duas. E, ao mesmo tempo, não o suficiente.  Posso apenas dizer que nós mulheres não estamos no lugar onde queremos estar, não estamos onde deveríamos estar, mas não estamos onde estávamos.




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