Quem decide o que as crianças podem ver na TV?

Será que os pais precisam da intervenção do Estado para decidir o que é bom ou ruim para seus filhos?

Segundo a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, antropologia é o estudo do homem como ser biológico, social e cultural. Ele engloba origens, evolução, desenvolvimentos físico, material e cultural, fisiologia, psicologia, características raciais, costumes sociais, crenças etc.

Michel Alcoforado, antropólogo especializado em consumo, é sócio-diretor da Consumoteca, um escritório de conhecimento especializado no consumidor brasileiro. Para ele, o especial do portal sobre Publicidade Infantil, é uma daquelas questões que os dois lados estão certos.

?Estou de acordo com o discurso que vai contra a publicidade infantil porque incentivar que as crianças comprem ou ?atazanem? seus pais para comprar alguma coisa não é legal e isso traz uma série de preocupações que não fazem parte da infância. Mas tendo mais a concordar com as pessoas que são contra a proibição porque publicidade e consumo fazem parte da vida social brasileira e de qualquer lugar do mundo desde sempre e nós não podemos achar que durante a infância a pessoa não participará disso. Porque não tem como você participar da sociedade sem ser através de consumo?.

Leia também: Publicidade infantil: proibição, tabu e involução

Michel chamou a atenção para o quanto a proibição da publicidade infantil afetou e afeta a programação voltada para as crianças. ?Os canais e produtos voltados para crianças são, em boa parte, financiados pela publicidade. Você vê marcas querendo um espaço na TV; a empresa vai lá e cria um conteúdo para essas crianças e ele tem um intervalo para o conteúdo acontecer. No momento em que você tira a publicidade infantil, não terá mais ninguém para bancar esse negócio. Como que nós vamos gerar conteúdo para essas crianças? O governo vai bancar? Os pais farão uma associação para gerar conteúdo para os filhos??

O antropólogo cita dois pontos a serem reforçados. ?O primeiro é quem vai pagar essa conta, porque os pais querem conteúdo, mas não querem que seus filhos vejam a publicidade. E o segundo é: será que vale a pena a gente tirar o consumo, que é um elemento fundamental na construção da nossa sociedade moderna, nesse momento inicial da infância??.

Leia também: Publicidade infantil: é – ou deveria ser – proibido proibir

?Nós nascemos e morremos consumindo coisas. Não tem porque dizer que existe uma fase da vida que não podemos consumir?.

Michel comenta que acha interessante essa preocupação com a publicidade infantil porque, ao contrário do adulto e do adolescente, a criança não tem a decisão de compra. ?O pai é quem tem que dizer se é para ela ou não. Acho que mais uma vez nós estamos vendo um processo de transferir para o Estado a decisão de onde é que está o limite do seu filho. Isso não pode acontecer. Não é o estado que deve dizer o que meu filho pode ver ou não, sou eu. O estado não pode decidir nem legislar sobre a vida privada das pessoas, nem sobre a maneira como você educa o seu filho?.

Ele afirma que existem situações que não apenas podem como deveriam ser evitadas. Por exemplo, um desenho infantil ser estampado em produtos de limpeza é um risco para toda a família porque os produtos estão ao alcance das mãos da criança.   

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?Publicidade não tem que educar ninguém. Quem tem que educar é a escola, são os pais. A publicidade foi feita para vender, esse é um ponto básico?.

Para Michel, não existe programa nem publicidade impróprios. ?Nós já temos órgãos competentes fazendo esse tipo de avaliação ? o Conar está aí para isso, para decidir o que é publicidade própria e o que é imprópria. Precisamos parar com essa coisa de achar que a gente precisa ter lei para tudo. O papel de estado deve ser de agência reguladora, ficar de olho no que acontece. Na ditadura é que o governo decide tudo. Debater é importante, permitir ou não é que é o problema?.

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