Está na internet: vai assumir todos os riscos?

Um dos debates mais marcantes e polêmicos do Cannes Lions deste ano foi iniciativa da Ogilvydo e Intelligence2 e abordou a questão da privacidade e da responsabilidade na internet.

O debate “Post at your own peril” (Poste por seu próprio risco” em tradução livre) reuniu  Stephen Bailey, autor, consultor de design e curador de conteúdo, crítico ácido e feroz da internet; Scott Galloway, Professor da NYU Stern School of Business; Daniel Franklin, Editor-Executivo da The Economist; Emma Holten, ativista e escritora e Mariella Frostrup, Escritora, apresentadora e crítica de arte, colunista do The Observer.

 

Playground ou campo de batalha?

As redes sociais tornaram-se um parque de diversões mais envolvente, viciante e acelerado da história. ao mesmo tempo, deu lugar e impulso a uma nova forma de constrangimento e crime: o vilipêndio online. Em poucos minutos, uma reputação pode ser difamada. A história da americana Justin Sacco é emblemática: em 2013, ela postou um comentário jocoso sobre AIDS para os seus 170 seguidores no Twitter antes de embarcar para a África. Ao aterrisar, foi violentamente atacada no ambiente digital a ponto de perder o seu emprego. Um tuíte e pronto. Você está despedido. Vítimas do cyber abuso não tem virtualmente nenhum recurso

Incidentes como esse estimulam o lobby daqueles que querem ver a mídia social regulada, para permitir que as pessoas tenham a mesma proteção verificada em qualquer espaço público.

Stephen Bayley fez uma introdução curta e contundente, vociferando contra o caráter anárquico da internet. Para ele, a rede estimula o exibicionismo e abala o criticismo. O abuso e o vilipêndio online refletem as falhas da internet: a destruição progressiva da privacidade, o aumento exponencial dos riscos  (quanto mais tempo você passa, mais riscos corre). E qual a superioridade da nova mídia? A internet significa também a democratização da informação. Mas que democratização? Em tese, induz as pessoas a não terem responsabilidade com o que publicam. E só buscam seus 15 minutos de fama. Stephen destacou que a internet é vendida como um paraíso de conectividade e ninguém diz que ela é um excepcional ambiente para toda sorte de ladrões e pervertidos. Escravos de um mercado escravizante.

O contraponto foi imediato: Daniel Franklin, da The Economist, há um trabalho duro para inocentar a internet. Ele concorda plenamente com a ideia de que todos são responsáveis pelo que publicam na internet. Todos têm de ter a consciência de que o que fazem publicamente pode ser facilmente e rapidamente compartilhado.
Há mais celulares no mundo que pessoas. O que significa um número absurdo de pessoas filmando com seus celulares. Mesmo que você nada publique, fique certo de que sua imagem está sendo ou foi publicada em algum momento.

Imagens e palavras podem ser publicadas fora de contexto e causar constrangimentos. “Fundamentalmente, os inimigos da internet dizem que não podemos permitir que as pessoas falem livremente na rede. Não conte, não compartilhe. Sua vida será publicada de qualquer jeito. É isso só ajuda aos inimigos da liberdade de expressão”.

Scott Galloway, eleito pelo World Econômica Fórum um dos líderes do futuro, partiu para outro conceito: “Qual a definição de perigo? expor-se ao perigo e ao risco. Há um trade off a partir do momento em que você se inicia no digital. A todo momento fazemos essas escolhas e negociações para ganhar tempo ou qualquer benefício, qualidade de vida, carreira. Não sabemos se as consequências desse trade off serão ruins. Partimos do princípio de que tudo nessa vida digital é benefício”.

Galloway ainda lembrou que mesmo as mulheres, vítimas clássicas de vilipêndio digital, podem se sentir ser mais seguras graças aos benefícios da sociedade digital. Ela facilita apanhar os criminosos. Ao mesmo tempo, há criminosos que simplesmente usam da força dos dados para cometer delitos.

 

Como calibrar a nossa privacidade?

Emma Holten, ativista é vítima brutal de dano moral e exploração digital (fotos suas digitais foram roubadas e vendidas para sites pornográficos e indexadas pelos mecanismos de busca): ela foi incisiva sobre a questão da responsabilidade individual: “estou em dúvida sobre a definição de risco. Pois falamos em risco para quem? De quem falamos? Quando minhas postagens ou arquivos são roubados e usados a minha revelia, de quem é a responsabilidade? Nada disso vai eliminar os problemas sociais. Em minha experiência, as consequências não se baseiam sobre o que são mas sim sobre quem somos. Fotos de mulheres nuas tem valor pelos cliques e valor financeiro. Há aqui um problema de gênero. Não era um corpo de uma mulher qualquer e sim o corpo de uma jovem nua”.

Ela diz que talvez o problema esteja justamente nesse conceito: o de colocar as consequências como perigo. As consequências do vilipêndio digital dela não se basearam no que ela fez e no que falou. Foram uma ofensa ao gênero feminino. 10 mil anos de evolução foram estapeados por preconceitos e por esse tipo de ataques (digitais). A internet traz os buracos negros e zonas de sombra que existem na sociedade, abuso, preconceito, racismo. E deixar de regular certas responsabilidades de distribuição e apropriação de conteúdo na internet significa manter o silêncio e a opressão prevalecerem.

Estavam lançadas as bases para um debate intenso e caloroso. Scott pontuou que há leis nos EUA, em que as pessoas podem preservar seus dados. O que está no seu PC e é acessado de forma ilegal é um crime. Emma respondeu de imediato e deu o contexto em que a lei pode proteger uma pessoa que tenha sofrido violáceo de dados: “você precisa registrar seu corpo como trade mark em estados americanos para ter proteção. As consequências mudam de pessoa para pessoa. Não vejo como isso proteja as pessoas. Protege as marcas”.

O diretor executivo da The Economist, Daniel Franklin comentou que o problema central é responsabilizar pessoas que não podem ser exatamente responsabilidades por coisas que não fizeram. Correram riscos ao publicar e isso deve ser responsabilizado, mas ao tirar de contexto, como acusá-los? Como defendê-los? A palavra “identidade” está mudando de sentido. Não há busca por bom ou mau no ambiente e na evolução digital mas sim por mais ou menos regulação. Isso envolve mecanismos e empresas como o Google que na Europa foi compelido pela justiça  sobre como toma decisões, sobre como prioriza os resultados. E isso traz novas consequências inclusive para o seu negócio fundamental, baseado nos links patrocinados. Afinal, o algoritmo que classifica uma vítima como Emma é o mesmo que ranqueia uma marca no topo de um resultado de busca positivo.

 

Todos devem ser transparentes?

Emma defende que o mundo real não é dissociado mundo real. “Eu não tenho mais como selecionar um ‘opt out’. Meu nome está no page Rand do Google de uma forma que eu não concebi. Nós temos que aprender que a internet é como uma ameaça do mundo real. Temos de entender que o uso da internet pressupõe a maneira como vivemos no mundo físico”.

A conclusão desse debate é que parece não haver desculpas para quem viola os dados dos outros. Precisamos de melhores leis e melhores regulações. Isso abre a porta para outras formas de censura e de restrição à liberdade de expressão? Daniel questiona: “há uma divisão no mundo digital e o mundo físico?”

Emma é bastante clara sobre a sua causa: “quando falo em regulação não falo em lei. Eu digo como o Google já foi obrigado a tirar fotos impróprias de outras pessoas publicadas em seus resultados de busca. Eles precisam estar conscientes de que um algoritmo deve ser pensado de forma a considerar que cria um espaço de expressão. E que portanto devem dar a palavra a todos, inclusive os que se sentirem ultrajados”.

Portanto, a era digital traz novas questões sobre o público, o privado, responsabilidades, privacidade e a natureza humana. Onde e como encontrar a linha fina que separa sua imensa capacidade criativa e de realização do potencial humana de sua zona de sombra onde proliferam os nossos instintos mais mundanos.

*Jacques Meir é Diretor de Conhecimento e Plataformas de Conteúdo do Grupo Padrão.

 

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