Seus colaboradores são os líderes da sua empresa

Inovação requer comportamentos colaborativos. Mas como unir isso a uma cultura de hierarquia e à falta de confiança?

Muito se fala sobre a busca pela inovação, por lideranças transformadoras que engajem o colaborador, por ideias que transformem o ambiente interno e externo (consumidor final). Mas como encontrar pessoas que realmente tomem para si o papel de multiplicador de boas ideias, motivação e vontade de cocriar? Se encontrar, como lidar com egos e hierarquias, quando essa pessoa líder não possui um cargo de gestão?

Durante o Conarec 2015, dezenas de executivos falaram sobre como inovar, o que é inovação e como torná-la possível. Mas nessa plenária o assunto foi um pouco diferente. Gestoras de RH de grandes empresas juntaram-se para apresentar ? e trocar ? ideias e ações que as ajudaram a encontrar grandes líderes que são assim chamados por seus poderes de voz, sua criatividade e visão inovadora.

?A inovação não surge, ela imerge, tem a ver com estrutura?, afirma Thiago Gonçalves, country manager Brasil da GOintegro, mediador da palestra que contou com a presença de Cida Garcia, diretora de talentos humanos da Algar Telecom, Fabricia Lani de Abreu, diretora de RH e sustentabilidade da Elektro, Fátima Rosseto, diretora de RH da Natura, Maria Eduarda Lomanto, diretora de RH da DM9DDb, e Majo Martinez Campos, diretora-executiva de RH da Atento Brasil.

Majo conta que na Atento eles discutem a questão da inovação e do mercado digital há um bom tempo. ?Inovação é você pensar numa coisa de maneira diferente. Não precisa inovar na ideia, mas precisa inovar no caminho. Como eu olho o que faço hoje e encontro melhores caminhos para fazer amanhã? Ou nos reinventamos ou desapareceremos?.

Na DM9DDB, inovação é algo que se respira, pensa e sonha. ?Nós temos três pilares: humanidade, tecnologia e criatividade. Então, sempre que conseguimos qualquer processo e mudança para os clientes com esses três pilares, estamos inovando. Inovação é uma mudança de comportamento. Se permanecer apenas no digital, não é inovação?, afirma Maria Eduarda.

A Natura é uma das empresas que mais transforma algo simples em um produto de beleza capaz de cair no gosto de muitos consumidores. Uma das poucas a integrar o time Brasil do Sistema B, inovação, segundo Fátima, é parte da história da companhia. ?É como nos concretizamos quanto empresa, como nos relacionamos. É proporcionar espaços de experimentação, com olhar focado em resultado e também com foco no bem estar das pessoas?.

Quando pensamos no setor de energia elétrica, dificilmente teremos, de bate pronto, uma opinião positiva, principalmente no cenário atual. Mas Fabricia mostra que é possível inovar em um setor que faz o consumidor sentir na pele os aumentos dos preços. ?Nosso conceito de inovação e melhoria contínua faz parte da cultura no sentido de rever processos, matérias, tudo o que possa ser mais sustentável para que esteja ao nosso alcance possibilitar um melhor serviço para o consumidor?.

Já no caso da Algar, o segredo está no relacionamento com o cliente interno e externo. ?É trazer soluções inusitadas, mesmo nesse segmento de commodity que vivemos. Inovar é trazer dinheiro novo, gerar o crescimento?, explica Cida.

Mas o ponto forte da inovação parte do princípio de colaboração, co-criação, compartilhamento. ?A colaboração vem da capacidade de sentir confiança no ambiente em que você vive. Isso é essencial para se ter uma cultura colaborativa. Como criar esse tipo de ambiente??, questiona Thiago.

?A empresa tem que acreditar que as mudanças acontecerão. Não adianta imaginar que faremos as mesmas coisas do mesmo jeito que fizemos até agora. O RH tem obrigação de convencer a liderança que a estratégia precisa ser redefinida. Você aprende mais com o outro em outras áreas?, responde Majo.

Já Maria Eduardo comenta que na DM9DDB eles não trabalham com questão de hierarquia. ?Se o estagiário tem a boa ideia, ele é a bola da vez?. Liderança versus hierarquia: como você pode identificar futuros líderes e permitir que criem ideias sem um título??, provoca Thiago.

Fátima conta que a Natura faz um trabalho forte na mudança do modelo de gestão para que o ambiente permita mais versatilidade. ?Independentemente da especialidade. Liderança está, aos poucos, deixando de ser uma posição para ser algo que te nomeia dentro de um projeto, de uma ação no grupo. No dia a dia, todo mundo quer participar, mas quando se fala em carreira as pessoas ainda pensam de forma hierárquica?.

?Liderança não são apenas gestores?, afirma Fabricia. ?O que temos feito é buscar nos níveis Junior formadores de opinião que possam ser futuros líderes. Acho que na questão da inovação é importante não ter hierarquia para colher ideias de todos?.

Thiago conta que na Gointegro ele tem a oportunidade de com cerca de 400 companhias ao redor do mundo. ?Passamos a observar uma tendência forte da comunicação interna se abrir para um contexto mais social para, a partir disso, poder encontrar lideranças. A partir disso, eles descobrem quem usa mais as redes sociais, quem é mais compartilhado, quem é o zero da rádio peão. Se eu sei disso, posso colocar essas pessoas para escutarem o que e como é estratégia da empresa, coloca-lo na reunião dos executivos?.

Para Majo, vale a pena a gente discutir um pouco, mas depende do tipo de negócio e o tipo de pessoa que você contrata. ?No meu caso, a maioria das pessoas que contratamos tiveram uma educação precária. Temos uma página online com todas as informações, mas as pessoas não vão atrás. Então executamos o rali ? teleoperadores que fazem campanhas pessoalmente e uma rádio que roda com grandes temas e foram essas coisas que deram certo. Não da para comparar empresas porque o nível intelectual do país é precário?.

Não adianta abrir um monitoramento se você não entender seu público, segundo Cida. ?Tivemos um problema no Facebook com um funcionário que fez um rap dizendo que ?acordava, batia o ponto, se sentia puto e não estava querendo?. Eu achei aquilo importante e conversamos com ele que é, hoje, um multiplicador e fez um rap para o presidente apresentar em um evento de RH?.

?Na verdade, precisamos sair do conceito de controle para que as coisas possam fluir?, enfatiza Fátima.

Os maiores inimigos da inovação

Rigidez e medo de sair de determinados padrões. ?Quanto mais conseguirmos flexibilizar, mais perto estaremos de um ambiente que permite inovação, erro?, comenta Fátima.

?O medo de errar bloqueia as pessoas. Erre rápido conserte rápido?, enfatiza Maria Eduarda. Para Fabricia, o maior inimigo da inovação é a tolerância ao medo.  

Majo afirma que nenhuma política de RH está preparada para a inovação por causa do medo de errar. ?Porque ninguém se lembra da sua boa ideia, da sua iniciativa. Tenho um caso de uma pessoa que trouxe uma ideia com um resultado imediato para o Ebitda e não consigo dar um prêmio para ela?.

Realmente é difícil criar condições para que a inovação exista no ambiente corporativo. Isso porque estamos engessados em comportamentos que nos trouxeram até aqui. A questão é: será que esses mesmo comportamentos serão capazes de nos levar adiante?






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