A grande aventura da inovação

A inovação que perseguimos é repleta de mitos, lendas e tons sobrenaturais. Mas, na verdade, inovação é uma disciplina que pode ser aprendida e praticada

No princípio, fez-se a luz. E com ela a inovação. Essa é a percepção que temos da inovação: um insight, um lapso de genialidade que derruba verdades e rompe modelos de negócios, modelos culturais e visões de mundo. Porque há uma diferença entre a inovação acabada e o processo que a gerou. Essa diferença, esse espaço é ocupado pela mistificação poderosa, generosa para nós, os comuns, de que para inovar é preciso ser genial. O inovador ultrapassa a inovação e ganha uma aura de infalibilidade que aplaca a sede dos normais.

Uma grande inovação só pode ter sido fruto de alguém “fora da caixa”. Até que vem um Google e começa a produzir inovações em série. E aí, a pergunta que incomoda: será que o Google tem 150 mil inovadores trabalhando juntos? Eles reuniram todos os inovadores do mundo? Vendo em perspectiva, é importante entender que o Google é uma empresa inovadora, na qual a disciplina em si é sistêmica. Ele está para o século 21 como a 3M ou a Basf estiveram para o século 20 (mas ainda continuam protagonistas neste início de milênio), empresas capazes de produzir inovações em série. São diferentes de outras organizações que produzem inovações, talvez mais esporádicas ou ocasionais. Donde se conclui que há empresas com DNA de inovação e empresas que aprendem a inovar.

O aprendizado da inovação é importante para colocar as coisas nos devidos lugares e derrubar o senso comum da “magia” da inovação. A resposta transcendental é sempre bem-vinda para explicar por que empresas em geral (as não inovadoras na essência) inovam tão pouco. Pena que essa resposta é insuficiente e só bloqueia o potencial das empresas convencionais. Inovação pode, sim, ser aprendida. Não é privilégio de mentes iluminadas, gênios especiais ou personalidades mágicas.

Clemente Nóbrega, um físico, outrora executivo de sucesso e hoje um pesquisador do mundo empresarial, grande estudioso dos mecanismos da inovação, toca na ferida: “Não é natural inovar. É um processo que nunca acaba… Não tem genialidade nenhuma, tem de acabar com essa ideia de que você tem de ser um cara diferente, um sujeito especial… Estatisticamente nós somos médios. Quem inova, experimenta. Ele nunca sabe antes. Naturalmente, as empresas vão fazer o que fazem sempre. A inovação só acontece se houver gestão no processo de inovar, isto é, se você introduzir metas para a inovação, maneiras de medir, de acompanhar, de corrigir, de cobrar”.

Isso quer dizer que inovação pressupõe experimentação. Tentativa e erro. Esforço. Derrotas em série para então colher uma vitória. Inovação pode ser aprendida, sistematizada. Inovação é um processo, não um talento. E, então, desfaz-se a luz, mas tudo se torna mais claro. Qualquer empresa, independentemente do seu porte, segmento, visão ou missão, pode, sim, se dedicar a produzir inovação. Por isso, não faz sentido pensar em rankings de inovação nos quais empresas são listadas a partir de um recorte de faturamento, como se o tamanho e o poder financeiro fossem critérios que possam caracterizar uma empresa inovadora. Existem rankings com essa distorção por aí. Nenhum deles consegue entender exatamente o que significa ser inovador. A inovação pode não estar presente em todas as empresas. Mas toda empresa precisa estar preparada para assumir os riscos inerentes à inovação.

 

*Esta reportagem especial é dividida em cinco partes e mostra que a inovação não tem limites. Isso pode ser observado, também, na lista de cem empresas selecionadas por Consumidor Moderno como vanguarda do pensamento e da prática inovadora em nosso país. Apresentaremos diariamente novas empresas, acompanhe o nosso Especial Inovação.

 






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