Mudança climática e comunicação falha

Aparentemente, as autoridades brasileiras não compreendem a gravidade da situação hídrica e climática que viveremos nos próximos meses

Por: - 4 anos atrás

 
O aumento na temperatura atingiu todo o país e uma prova clara disso é a seca enfrentada pelo estado de São Paulo desde o fim de 2013. Países asiáticos, a América do Norte e a Europa também sentem com força o calor cada vez mais abundante e duradouro. 

O especialista em ciências ambientais e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Reinaldo Dias, falou ao portal sobre como isso pode piorar quando a população não é bem informada sobre a real situação. Confira no texto abaixo. 

As comunicações ao público carecem de conteúdo, reiterando repetidamente que a situação está sob controle, que os recursos hídricos suportarão o aumento da demanda, diminuindo a possibilidade de racionamento. Apontam, de modo geral, para chuvas que virão amenizar o problema.

A realidade é outra. Os rios estão secando, a vazão diminuindo a cada dia, o que torna a situação pior do que no mesmo período do ano passado. Grandes reservatórios não recuperaram sua capacidade anterior e operam ainda com volume morto, portanto, abaixo do nível normal. 

Previsões de inúmeros órgãos internacionais apontam para ondas de calor de longa duração que agravarão a sensação térmica com temperaturas recordes neste ano.

As ondas de calor que atingiram a América do Norte, Europa, e diversos países asiáticos, embora normais, foram bastante incomuns, pois o aquecimento global que provoca as mudanças climáticas fez com que sua frequência, intensidade e alcance aumentassem. Os resultados foram dezenas de milhares de pessoas hospitalizadas e muitas mortes. 

O Japão, que conta com um ótimo sistema de alarme e de enfrentamento de desastres desse tipo, registrou dezenas de milhares de pessoas hospitalizadas e muitas mortes somente no último mês de julho.

No início do mês de agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgaram novas orientações para enfrentar as contínuas ondas de calor que atingem o planeta. Manifestam a preocupação com o agravamento das condições climáticas no mundo e, em particular, com as altas temperaturas, a frequência e a intensidade das ondas de calor. 

Um dos pontos destacados é a necessidade de informação sobre o clima e os serviços de apoio como o gerenciamento do calor como um risco e a necessidade de se criarem sistemas de alerta para que a população e os governos estejam preparados. 

Os cientistas apontam que enfrentaremos as maiores temperaturas desde que se iniciaram as medições no século XIX. No Brasil, as diversas instâncias governamentais já deveriam estar preparadas e, principalmente, alertando a população com comunicações realistas e um amplo trabalho de educação ambiental que prepare crianças, jovens e adultos a enfrentarem essa nova situação. 

A má gestão, aliada à elevação das temperaturas, forma um caldo de cultura com consequências gravíssimas para os cidadãos, e particularmente, para aqueles mais pobres, que não têm acesso a equipamentos que amenizem os efeitos do calor. 

O calor excessivo pode causar desidratação, insolação, enjoo, acidentes vasculares e atingem principalmente as crianças, os idosos e os doentes. A criação de sistemas de enfrentamento da crise hídrica que se aproxima é urgente, com destaque para a informação correta da população, sem meias palavras ou inverdades. A máxima é utilizar as palavras corretas para situações concretas. 

O racionamento já ocorre para boa parte da população em várias regiões brasileiras, em particular na cidade de São Paulo, exatamente nos bairros onde reside a população mais carente. Reconhecer a gravidade da situação é o primeiro passo para enfrentar com sucesso o problema e o seu agravamento. 

Somente com o público informado e com uma participação ativa no processo de uso racional da água, poderemos evitar uma catástrofe maior do que aquela que ocorreu no ano passado. O calor virá, a chuva será pouca e, para agravar a situação, o fenômeno El Niño, que ocorre devido ao aumento da temperatura nas águas do pacífico e nos atinge diretamente, será um dos mais significativos e duradouros dos últimos anos. Ainda dá tempo de mobilizar a população para evitar o pior.

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Reinaldo Dias é professor da Universidade Mackenzie Campinas. É doutor em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política pela Unicamp e especialista em Ciências Ambientais.