Sobre aplicativos, caronas, ônibus e a desburocratização da vida

Um relato sobre como pegar carona via aplicativo foi bem mais legal do que enfrentar fila, atraso e descaso na rodoviária

Por: - 3 anos atrás

Imagem: Divulgação Bla Bla Car

Qual é o paulistano que não tem familiar no interior? Aliás, do jeito que a vida é globalizada e a migração/ imigração são uma realidade cada vez mais forte, em todas as classes sociais, não só no interior de São Paulo como também em outros estados ou países temos familiares. De modo que viajar não é mais somente por lazer, mas é uma necessidade. Afinal, quem mora longe tem saudade. E precisamos de algum jeito amenizar essa situação.

Eu não fico imune a isso. Minha família, aliás, é bem espalhada e eu aproveito os fins de semana para viajar bastante. Claro que isso tem um custo e manter essa rotina de visitação é um grande problema.  Não dá para a gente ver as pessoas que amamos com a frequência que gostaríamos, infelizmente. Mas e se houvesse um jeito de baratear isso? E se houvesse uma maneira de desburocratizar as viagens? Pois bem…  essa desburocratização, claro, veio dos apps e da economia compartilhada.

Já fizemos matérias por aqui sobre isso. Inclusive sobre o Bla Bla Car, que foi o app que usei esse fim de semana. Mas por que, então, para mim foi uma experiência tão diferente? Bem… eu sou de uma geração que foi ensinada a não falar com estranhos. Imagina pegar carona com alguém que eu não conheço? Nós fomos ensinados a ter medo de tudo e de todos. Não foi culpa dos meus pais. Eles também foram criados assim.

Vamos fazer uma rápida análise do medo, aqui. Claro que, quanto mais jovens, menos medo nós temos. E eu não sei por que isso acontece e a ideia nem é analisar isso. Mas, vale ter em mente que jovens são menos temerosos e, por isso, arriscam mais. Isso não é algo exclusivo da Geração Z, mas de todos os jovens.

Mas… há uma coisa que não podemos negar. Embora sempre tenha existido a história do penpall (o tal amigo por cartas), a internet, claro, mudou tudo. A ideia de que você pode simplesmente dar um Google e descobrir muito sobre a pessoas talvez tenha ajudado. Assim, a noção de “estranho” mudou.

Então, neste sábado, pela primeira vez, lá fui eu pegar carona com um estranho. Por sugestão da minha prima de 22 anos, que me olhou com a cara mais assustada do mundo e perguntou “Por que você não usa o Bla Bla Car?”, baixei o app e encontrei meu caroneiro.

Fomos no carro eu, o motorista e mais três moças. E foi uma viagem fantástica. O motorista, um querido. Super atencioso, dirigindo na velocidade da pista de boa, sem pressa. E eu já sabia que seria assim, já que no app é possível avaliar o motorista e comentar sobre sua performance. E os comentários a respeito do meu eram super positivos. Marcamos um ponto na Barra Funda – eu não conhecia a estação, mas “meu motorista” foi muito paciente e conseguimos nos encontrar. Saímos no horário, mas no app já estava avisado que poderia ter flexibilidade de horário – 15 minutos. Essa informação faz toda a diferença. Você vai ao encontro sabendo que não há um horário fixo.

Das meninas que estavam comigo, duas eram bastante mais novas, uma com 18 e outra com 22. Interessante que a mãe delas não sabia com quem elas estavam viajando (a coisa do jovem de ser destemido – eu preferi “brigar” com a minha mãe, porque ia, sim, pegar carona com um estranho, mas avisei com quem eu estava, de modo que ela praticamente tinha todas as informações sobre meu paradeiro). Nossa terceira parceira de carona já faz isso há dois anos. Ela contou que começou com um grupo de Facebook, de pessoas que organizavam vagas em carros de quem viaja todos os dias.

Sobre a viagem: fomos conversando, conheci gente bem bacana, demos risada. Com 5 pessoas, fica fácil combinar um gosto musical. Mas, na verdade, nem deu para ouvir rádio, tanto que cada um tinha para contar de si. Adorei meus novos amigos de uma hora que – provavelmente – não verei nunca mais na vida. Mas que me fizeram uma super companhia por um curto período de tempo e tornaram meu dia bem mais divertido.

Na volta, infelizmente não achei um carro com vaga para o meu horário. Acabei indo para a rodoviária, a fim de tomar um ônibus. Campinas – São Paulo é uma rota bastante frequente, há ônibus a cada 20 ou 30 minutos. Mas… não dá! Uma fila imensa para comprar o bilhete. Consegui comprar para o ônibus de 17h40 (eram 17h, então não foi assim tão ruim). Mas… vou narrar exatamente como foi.

No caixa, a moça havia avisado que o ônibus sairia da plataforma 26/ 27. Quando o relógio apontou 17h30, um ônibus encostou na plataforma 27 – marcando saída 17h20. Oi? Encostou, então, um ônibus marcando 17h40 na plataforma 26. Todos na fila fomos tentamos embarcar, mas o motorista nos informou que nosso carro era outro, que sairia direto de Campinas e aquele teria vindo de outro lugar. Isso às 17h40, exatamente. Ou seja… era evidente que nosso ônibus iria se atrasar.

A pior parte foi quando um funcionário da companhia nos mandou procurar um outro fulano, próximo à plataforma 31. Eu ainda tentei argumentar. Como assim? Nós somos muito, ele é que tem que vir a nós e não 40 pessoas se deslocando pela rodoviária a fim de obter informações. Se a empresa atrasou, ela é que nos deve uma satisfação, não os consumidores que precisam procurar. Enfim, ninguém nos deu uma satisfação, os passageiros que descobriram que nosso carro seria o próximo e nós saímos com um atraso de mais de 20 minutos.

Ah, Cometa… como você faz isso em tempos de apps que podem cada vez mais deixar seu negócio em maus lençóis?

No ônibus, tinha criança chorando, gente com som alto – fones de ouvido nem sempre barram o volume da música, celular tocando – enfim, cada um viajando a seu gosto, sem nem pensar se estava atrapalhando o próximo.

Já falei da diferença da viagem, atendimento e de serviço. Bem… vamos aos preços. Pelo aplicativo, paguei R$ 17, mas há viagens de menos ou mais valor. Imagino que o motorista determine. Vale dizer que ele – o motorista – não objetiva lucro. A ideia é angariar algum valor para ajudar com a gasolina e os pedágios. Ou seja… vantagem para todos.

Eu entendo que uma rodoviária tenha seus custos, que empresas paguem funcionários e que, por tudo isso, as passagens de ônibus precisam ser mais caras. Eu entendo que não há carona para todos e que para quem viaja com a família, talvez o ônibus seja uma opção melhor. Mas tenho a impressão que essas empresas precisarão mudar muito seu atendimento por conta desses apps que surgem a cada dia. Vale ficar de olho. Eu super recomendo.

A propósito, o motorista também avalia quem pegou carona. Afinal, o “estranho” pode estar em qualquer lado, né?