América Latina: a próxima fronteira dos pagamentos móveis

Especialistas debatem os desafios da região para popularizar tecnologia que já domina África e Ásia

Fazer pagamentos por meio do celular já é uma realidade bastante cotidiana na vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Poucas delas, no entanto, estão da América Latina. Por um lado, isso intriga as empresas e investidores do setor – afinal, tratam-se de países com enorme potencial de expansão do sistema financeira ao lado de altas taxas de penetração digital. Por outro lado, é uma oportunidade única, e muitos deles acreditam que a próxima revolução referente à expansão de serviços de pagamentos móveis será aqui.

É isto o que foi discutido em um painel sobre o futuro do dinheiro móvel na América Latina durante a Futurecom 2016, congresso de tecnologia e comunicações realizado entre os dias 17 e 20 de outubro em São Paulo. “Em número de usuários, a América Latina ainda é um mercado relativamente pequeno, mas seus potenciais são enormes”, disse Kamaljit Rastogi, diretor global de negócios e soluções financeiras da indiana Mahindra Comviva, uma das líderes em serviços de pagamentos móveis na Ásia e África.

Atualmente, diz Rastogi, existem 1 bilhão de contas móveis, distribuídas por 93 países, e é nestes dois continentes que está a maioria delas, com a África consolidada à frente. “Existem hoje 19 países onde o número de contas móveis é maior do que o de contas bancárias”, diz. “Mas se olharmos por nível de utilização a América Latina é um fenômeno.”

Hoje, segundo os números da Mahindra, 47% dos cadastros em contas móveis na América Latina são ativos, quer dizer, são acessados e usados a uma frequência mínima por seus usuários. É um índice que não se compara a nenhum outro lugar – na África subsaariana esta proporção é de 38%, seguida pelo sul asiático (27%), Oriente Médio e norte da África (26%) e a Ásia do Pacífico (13%). A média global gira em torno dos 30%.

Esta é uma das razões para que a Mahindra tenha colocado as Américas em seu radar – em fevereiro do ano passado, a companhia anunciou um plano de expansão para a região acompanhado da expectativa de crescer 300% por aqui, com apetite por países como El Salvador, Guatemala, Honduras, Bolívia e Colômbia, entre outros. Só em 2014, seu crescimento latino havia sido de 170%.

Onde estamos errando?

“Há várias companhias atuando na região, temos os mesmos produtos dos outros lugares e já fazemos isso há dez anos. Por que então não há números fabulosos nem um caso de grande sucesso na América Latina?”, questionou Hernando Rubio, presidente de uma das líderes em pagamentos móveis da Colômbia, a MovilRed.

Para ele, a resposta passa por particularidades da região que não estão sendo endereçadas corretamente – “não somos Paris, mas também não somos Nairobi”, diz. Uma vez que isso seja detectado e ajustado, o potencial de crescimento é enorme.

Em regiões paupérrimas como a África, explica, as ‘e-wallets’ foram em muitos casos a ferramenta que permitiu transações comerciais pela primeira vez. As baixas taxas de bancarização foram uma das principais razões para que as tecnologias de pagamentos móveis pegassem instantaneamente nas regiões de países mais pobres.

Aqui, a população descoberta pelo sistema financeiro também é grande, mas a situação é um pouco diferente – no Brasil, 60% da população possui conta bancária e Rubio estima que menos de 10% tenha cartão de crédito em toda a América Latina. Isso impede coisas simples como, por exemplo, ter uma conta no Netflix ou, até pouco tempo, no Uber, que exigem o cartão. Segundo ele, os serviços de pagamentos móveis nos países latinos devem endereçar necessidades como estas, que incluem atividades como pagamento de contas, transferências, compras online ou nas lojas, recarga de celular e outros serviços. Tudo pelo celular.

“Permitir transações financeiras pelo celular é uma poderosa ferramenta de mobilidade social”, diz o executivo. Elas propiciam serviços básicos como compras, poupança e empréstimos a toda uma população a quem os bancos não chegam. “Estas pessoas não têm acesso a esses serviços não é porque não tenham condições ou porque os bancos não querem emprestar para elas. Os bancos simplesmente não sabem onde elas estão, e não têm como saber”, explica. “Por isso trazer essas operações para uma e-wallet é importante, nos ajuda a encontrá-las e conhecê-las”.

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