Como a sua forma de comprar pode refletir o seu potencial para inovar?

Graziela Di Giorgi, escritora do livro O Efeito Iguana e mentora do Programa InovAtiva Brasil, mostra o quanto a inovação desafia nossos velhos hábitos

Por: - 2 anos atrás

Shutterstock

Todos nós temos uma tendência natural a preferir uma recompensa imediata a esperar por uma maior no futuro. Várias experiências já comprovaram esse viés imediatista que influencia muitas das nossas decisões do dia a dia. Desde escrever mensagens de texto caminhando na rua ou dirigindo, até comprando um produto por impulso. A esse fenômeno, os economistas comportamentais deram o nome de viés do curto prazo, um desvio no comportamento humano diante de decisões.

Curiosamente, essa tendência de querer algo no momento ressoa com um serviço muito comum e popular que carregamos no bolso – o cartão de crédito. Ele representa o viés do curto prazo materializado em produto, porque ele próprio é a promessa de entrega de uma gratificação imediata (produto), em troca de um pagamento futuro – o que ecoa perfeitamente com o nosso próprio modelo mental.

A psicologia por trás das nossas decisões influencia nossa predisposição para inovar. Se tendemos naturalmente ao imediatismo e, se ainda por cima essa tendência é reforçada todos os dias pelo nosso entorno, dificilmente conseguimos inverter essa lógica de pensamento sozinhos. Inovar requer um mindset que desafia esse comportamento porque exige um investimento imediato para uma promessa de resultado futura. Nada é garantido, somente a necessidade do desembolso inicial – uma inversão à lógica a que estamos acostumados.

Mas, um serviço se destaca por estabelecer como premissa exatamente a lógica contrária ao viés do curto prazo. Já imaginou pagar adiantado por algo ainda sem garantia de produção? Muitas vezes, é preciso investir um ano antes da promessa de entrega. Parece pouco provável que alguém se predisponha a tal compromisso, mas isso não é só uma realidade, como vem crescendo rapidamente.

O Kickstarter aposta no poder do coletivo, oferecendo benefícios tangíveis em troca dessa confiança. Talvez por influência de outro viés que carregamos – o Efeito Manada – ele venha funcionando e conquistando fãs ao redor do mundo. Ao ver que outros também apostaram em algo ainda em estágio de promessa, sentimos andar por um bom caminho, vendo que não estamos sozinhos. Sentimos uma espécie de pertencimento ao nos juntarmos a um grupo com interesses afins e, com isso, tendemos a achar que estamos fazendo a escolha certa.

Não estou aqui defendendo o abandono do cartão de crédito, até porque foi através dele que consegui apoiar a produção do meu futuro-provável capacete iluminado no kickstarter. Nem cabe aqui uma discussão sobre como o sistema financeiro está ancorado em pagamentos com promessa futura (liberando crédito de um dinheiro, que nem é nosso, diga-se de passagem). Mas proponho uma reflexão sobre o mindset que nos leva a usar o cartão de crédito – um comportamento recorrente e reforçado pelo impulso. E é justamente esse imediatismo que nos bloqueia ao fazer algo que requer tempo para mostrar resultados.

Se inovar requer investir agora em algo que só possivelmente dará resultados no futuro, considero propostas como a do kickstarter um bom treino para abrir o nosso modo de agir no sentido contrário. Aos poucos, vamos diluindo o nosso viés do curto prazo e entendendo que as coisas que realmente consideramos relevantes são aquelas que nos predispomos a contradizer o nosso impulso inicial.

Talvez, somente talvez, esse exercício nos faça não apenas sermos menos imediatistas, ampliando a nossa predisposição a tomar riscos, como também nos eduque a consumir aquilo que achamos realmente relevante. Vale a pena ao menos tentar. Visite o site e apoie um projeto que faça sentido pra você. 😉

* Graziela Di Giorgi é sócia da Opt-Inn, escritora do livro O Efeito Iguana e mentora do Programa InovAtiva Brasil desde 2015.