Qual o lugar do tédio em uma sociedade digital e acelerada?

Sim, o tédio pode ser estimulante e gerar inovação. Um pensamento contraintuitivo chamou a atenção no Cannes Lions. Conheça

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“Como o ordinário pode ser extraordinário?”. Foi com essa provocação que Wain Choi, Chief Creative Officer da Cheil Worldwide introduziu o painel especial desta importante rede global de publicidade no Cannes Lions 2017. A ideia central proposta no painel foi mostrar como um instante comum, rotineiro, pode gerar a centelha criativa que surpreende e emociona.

Fiéis à proposta de conteúdo, os palestrantes, todos representantes da cultura criativa asiática, destacaram a força do tédio e como ele se encaixa em uma sociedade acelerada que vive no ritmo de uma busca no Google.

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O primeiro palestrante foi Yungsuk Nah, diretor e produtor de TV DA CJ E&M. Sul-coreano, Nah se apresentou, de forma irônica, como um dos mais famosos produtores de TV da Coreia do Sul, um mercado emergente, que está no centro da revolução digital. O jovem diretor mostrou produções locais como “2 dias é uma noite” e “Vovôs sobre as flores” nos quais o tema central – viagens em grupo – fizeram das atrações grandes sucessos. O programa sobre os “vovôs”, inclusive, será produzido também nos EUA.

O que fazer em 10 dias de férias?

Falar sobre viagens na cultura asiática é algo poderoso. Já é quase folclórico para nós, latinos, o apego dos povos do Sudeste asiático pelo trabalho. Yungsuk Nah fez a si o seguinte questionamento: “O que eu faria em 10 dias de férias?”. O diretor disse que não encontrou resposta satisfatória até ouvir sua roteirista: “Não gosto de viajar, não gosto de homens estou muito cansada e tudo que eu quero é ir para um local esquecido para comer panquecas, ler HQs e dormir o quanto puder”. Essa demonstração de tédio fez muito sentido para Yungsuk.

A natureza só vale como experiência

“Eu adoro fazer nada”, afirmou o jovem sul-coreano. Uma afirmação surpreendente vinda de alguém oriundo de uma cultura que valoriza obsessivamente o trabalho. Mas Yungsuk defende o conceito a partir de uma observação: “Eu procurei uma casa no campo e fiquei chocado com o preço do aluguel. Fiquei chocado ao perceber que muita gente, como eu, gostaria de passar férias no campo. Mas a maioria, como eu, acaba não indo”. Moral da história: as pessoas gostam da experiência naturalista, mas não necessariamente querem vivenciá-la.

Sucesso não é igual à felicidade. Agora também na Coreia do Sul

Millennials, na Coreia, assim como no mundo, vão reescrevendo paradigmas. Yungsuk destacou que as novas gerações de sul-coreanos não mais enxergam que esforço e sucesso são sinônimos de felicidade, um exercício de contraditório que deve abalar as fundações de uma cultura tradicional. Os jovens da Coreia querem viajar em vez de fazer dinheiro, viver na noite em vez de fazer dinheiro. Para eles, chega de competição, missões e jogos. Por isso, os reality shows mais vistos no país hoje são sobre comer, dormir e passar o tempo, ou seja as ações mais ordinárias da evolução humana. Um bom exemplo é o programa “3 refeições ao dia”, que mostra a preparação de 3 refeições ao dia, apenas e tão somente. A grande fantasia para eles é poder desfrutar a realidade da vida mais frugal possível. O poder do tédio.

Personas cínicas

Os shows e programas de Yungsuk têm uma persona, na figura do ator, Seojin Lee, também presente ao painel. Seojin assume o alter-ego de Yungsuk, no melhor estilo de Woody Allen. Quando alguns trechos dos programas foram exibidos, percebemos como Seojin satirizava as situações, ironizava o tédio reinante das situações banais para criar um efeito de estranheza realmente notável. Uma metalinguagem do tédio, que parece lembrar que o escapismo dos Millennials também se alimenta de cinismo…

Humor faz sentido?

Tschaik Lee, Vice-Presidente Executivo da CJ E&M, assumiu a parte final do painel para falar sobre “humor e sentido”. Como balancear humor e sentido para criar histórias significativas? Para o executivo, o foco excessivo no humor faz perder o sentido e a contrapartida no sentido, desidrata o humor. O que há entre o humor e o sentido. Quais são as grandes mudanças no sentido que as buscam atualmente?

Para Tschaik, essas mudanças abrangem três vetores fundamentais da vida humana: o sentido do trabalho – ao ver um programa como “3 refeições ao dia”, o trabalho é feito para a pessoa, não para uma organização. Cozinhar, pescar, cuidar, plantar, significa trabalhar para si próprio. A segunda grande mudança diz respeito ao sentido do tempo – somente quando damos um tempo para nós, podemos sentir de fato a importância do tempo. Qualquer pessoa que saia de férias sabe o quanto vive-se intensamente nesse período e o quanto ele nos satisfaz.

Tédio dá sentido à vida

Finalmente, Tschaik destaca a mudança no sentido da vida. Quando o grande objetivo passa a ser uma coisa simples, como preparar três refeições ao dia, é possível descobrir um novo sentido para a vida. Isso significa abrir mão provisoriamente de tantos interesses e metas impostas pela nossa vida profissional, que trazem uma infinidade de decisões a serem tomadas que não necessariamente dizem respeito a cada pessoa individualmente.

Há, é claro, similaridades com a teoria do ócio criativo do Domenico de Masi, filósofo italiano que faz sucesso por aqui. Mas não há dúvida de que em um mundo regido pela aceleração, pela velocidade digital, pela mudança frequente, ter tempo para o tédio pode representar uma reconexão da mente com nosso individualismo e com nossa essência.






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