A ética e as borboletas

“E na pós-modernidade? Nossa sociedade pós-moderna trocou a ideia da ética por dois valores culturais básicos: a felicidade e a eficácia”

Por: - 2 anos atrás

Shutterstock

Que coisa mais antiga, a ética! Daquelas que nem na velha prateleira do velho armazém encontramos. Podemos procurar em vão por horas no antiquário da esquina, no museu já empoeirado que tentava contar a história da humanidade. A busca se perde em um lento labirinto de ideias ultrapassadas, ideias que passaram. Onde a ética se perdeu? Esses pensamentos vieram a minha mente enquanto escolhia o tema deste artigo. Tantos assuntos para escrever. Todos fugiam e permanecia um, dos mais difíceis, a ética. Será que ainda é possível escrever sobre um tema tão nada do momento? Vamos lá.

Tempos passados, a ética se relacionava com a imitação da conduta dos pais e avós. Ser correto significava atender as tradições da família de forma a manter a dignidade de toda sua linha de criação. Agir sem ética atacava, antes de tudo, os antepassados.

Confira a edição online da revista Consumidor Moderno!

Na modernidade, agir com ética significava lutar pelas transformações sociais, pela justiça, por uma sociedade mais equânime. Ser correto significava acusar as injustiças sociais. Agir sem ética atacava, antes de tudo, o sonho por um mundo melhor.

E na pós-modernidade? Nossa sociedade pós-moderna trocou a ideia da ética por dois valores culturais básicos: a felicidade e a eficácia.

Todos nós queremos ser felizes. Mais ainda: todos nós precisamos ser felizes. E o que é pior: todos nós somos felizes, custe o que custar. Quando é esse o tipo de pensamento que organiza nossas ações, algo salta aos olhos: não se tratar mais de sermos felizes juntos, pois a felicidade passa a ser uma conquista individual, egoísta. Não olho mais o outro enquanto outro. Ele é apenas um meio para a obtenção dos meus fins: a felicidade plena. O resto que se dane se eu conquistar minha felicidade.

Todos precisam ser eficazes para o bem da sociedade. Rapidez e lucros imediatos. O tempo e o espaço são comprimidos em prol dos resultados. As distâncias e os lugares não existem mais no mundo virtual. Tudo precisa ser agora e aqui. Se mesmo que por apenas alguns momentos, estou fora do mundo tecnológico me sinto lá longe e antes. Meu tempo passou. Meu lugar foi ocupado. E juntos morrem a felicidade e meus lucros econômicos. Por isto mesmo preciso colaborar para a eficácia da organização social. O resto que se dane se eu lucrar com minha eficácia.

As perguntas que voltam são: existe algum lugar para a ética no mundo pós-moderno? Existe a possibilidade de um olhar lento para o outro? Consigo enxergar alguém que merece respeito e que está além da minha felicidade?

Está difícil. A inércia nos leva no caminho de um hedonismo pós-moderno. A ética foi substituída pela feliz eficácia.

Mas continuo achando que vale a pena agir com ética. Nas pequenas coisas, nos pequenos olhares. É assim que começa. Se educarmos nossos filhos a devolverem o estojo do colega, talvez eles se portem bem se chegarem um dia no Congresso Nacional ou na Presidência da República. Mãe e pais, mãos à obra. Como diria o poeta Manoel de Barros: “Eu penso renovar o homem usando borboletas”.