Por que é tão difícil abandonar o doce conforto da mediocridade?

“Mudar é antinatural, demanda esforço e traz riscos. É o tipo de inquietação que nos leva a fazer loucuras e a empreender reformas e a mexer em vespeiros”

Por: - 2 anos atrás

Shuttestock

A mediocridade nos faz otimistas. Por que ser medíocre é um exercício de paciência e resiliência diante da corrida mudancista que abate empresas mundo afora. Venhamos e convenhamos: é bastante confortável saber que podemos manter tudo como está na perspectiva de que tudo volte a ser como sempre foi. Que mudanças capazes de provocar tsunamis em outros mercados chegam aqui como “marolinhas”, na expressão inesquecivelmente infeliz de um populista dado a fazer “caravanas” Brasil adentro.

O leitor talvez concorde que aqui no Brasil a mediocridade encontra terreno fértil para crescer e frutificar. Somos atavicamente fieis a ideias anacrônicas como “contribuição sindical”, “jornada de trabalho de 44 semanais”, “direitos trabalhistas”, “aposentadoria aos 52 anos”, “estado provedor e vigoroso”, “socialismo do século XXI”, “movimentos sociais” e outros exotismos.

A nossa mediocridade está presente em todos os locais, resplandecendo ao ponto de gerar uma epidemia de cegueira coletiva no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas estaduais e municipais. E como pólvora morro acima, a mediocridade instala-se na sociedade, e nas empresas de modo geral, corroendo a iniciativa, o pensamento inovador e a vontade de fazer diferente.

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Vamos lá: exercitando esse modo de não pensar, ao menor sinal de uma ruptura ou de uma mudança que nos obrigue a fazer diferente, basta acionar nossos contatos na política para buscar uma Medida Provisória camarada, uma tarifa de importação mais salgada, uma desoneração para chamar de nossa. E quando bate a recessão que nos obriga a buscar maior eficiência, controlar custos, comprimir margens e fazer o possível para sobreviver, aí basta ao medíocre destilar desculpas infalíveis: “somos vítimas da crise! Precisamos baixar os juros, precisamos de uma ditadura, precisamos de um inimigo externo! Precisamos fundamentalmente regular a mídia!!”

Afinal, o medíocre convicto jamais assume um erro. De que adianta assumir erros se isso significa mais trabalho a fazer e a necessidade de “errar diferente”? É tão mais simples continuar errando do mesmo jeito porque tudo sempre acaba do mesmo jeito. E nesse final, basta disparar aos chavões de sempre: “precisamos rever os processos”; “alguém disse para não mexer em nada”; “esses fornecedores não sabem nada”; “também, com essa verba…” e, por mais paradoxal que seja, a muleta campeã: “precisamos inovar”. Aí, como diria o célebre Giuseppe Tomasi di Lampeduza, em seu romance clássico “O Leopardo”: “às vezes precisamos mudar algumas coisas para não mudar absolutamente nada”. Esse é o aforismo que define o medíocre. Uma pessoa com a habilidade de permanecer imóvel diante dos acontecimentos, torcendo para que a movimentação termine e tudo fique exatamente como sempre.

Mudar é antinatural, é contra-intuitivo, demanda esforço e traz riscos. É o tipo de inquietação que nos leva a fazer loucuras e a empreender reformas e a mexer em vespeiros. Mudar significa também quebrar corporações, romper padrões, modificar negócios, resolver problemas, propor soluções e defender a mudança, comunicar a mudança, buscar engajamento, adesão e compromisso. Tudo muito bonito no papel, mas incrivelmente cansativo e trabalhoso.

É exatamente por isso que é difícil abrir mão da mediocridade. Se não fosse, viveríamos em um país competitivo, criativo, cheio de ideias, inquietação e vivacidade. Um país que seria mais exigente consigo mesmo e que pediria por reformas continuamente. Um país mais eficiente e mais justo, onde políticos teriam de trabalhar com espírito público e empresas seriam reconhecidas mundialmente pela sua competência. O Brasil poderia até mesmo ser um país rico e isso antes de envelhecer. Um local que teria estudantes ocupando os primeiros lugares nas Olimpíadas globais de educação e até cometeria a ousadia de ter um sistema de saúde funcional e acessível para a população.

Quem quer viver em um país desses?
Muito, muito melhor viver ruminando nossa doce mediocridade.

*Jacques Meir é diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão