O que os Millennials têm que as outras gerações não têm? Uma reflexão

Durante o Conarec, Millennials e Geração X debateram as características dos jovens e responderam se essas pessoas são mesmo tão mimadas assim. Confira

A convivência entre gerações diferentes sempre existiu na sociedade, é verdade. Porém, nunca houve uma discrepância tão grande no comportamento de pessoas jovens e experientes. A Geração X torce o nariz para os Millennials e vê esses jovens como uma geração mimada. Eles estão nos escritórios, são empreendedores (até mesmo líderes) e, não adianta, a sociedade precisa aceitar sua existência. Como está esse cenário aparentemente conturbado? O Congresso das Relações Empresa-Cliente 2017, Conarec, tentou desvendar.

Para isso, colocou a Geração X de frente com os Millennials: mediados pelo jornalista e âncora da Rede Globo, Rodrigo Bocardi, Demétrio Magnoli, Jornalista e Doutor em Geografia Humana, Gilberto Dimenstein, Fundador do Catraca Livre e Jairo Bouer, Colunista do Jornal O Estado de S. Paulo, protagonizaram uma conversa com Bia Granja, Cofundadora e Diretora Criativa da YouPix, Tatiany Leite, YouTuber dos canais Va? Ler um Livro e Blabla?logia e Christian Figueiredo, YouTuber e Ator.

Bocardi iniciou com uma provocação: “Essa galera que chamamos de Millennials acrescenta algo mesmo na sociedade?”, polemizou. Em um clima aparentemente tenso, o debate correu, na verdade, de maneira bastante fluída e agregadora.

Contrapontos

O Youtuber Christian brincou com o fato de chamarem a geração de mimada. “Posso concordar que somos, mas estão com medo da nossa? Esperem para ver a próxima, que será ainda mais”, disse. “A nossa geração tem facilidade para tudo, o acesso à informação, o acesso a tudo que precisamos, é muito fácil. A gente se isola porque temos acesso a tudo. Não preciso fazer perguntas para ninguém hoje em dia, eu busco no Google”.

O jovem admira o fato de as redes sociais permitirem que qualquer pessoa possa criar o seu conteúdo e fazer o que acredita ser diferente. É um novo modo de vida, de comunicação.

Dimenstein, nesse sentido, disse que não dá para dizer se é uma geração mimada ou não. “Filhos únicos existem desde que o mundo é mundo”, ponderou. Mesmo assim, criticou: “Não há jeito de perseverar na vida se você for refém das possibilidades. Existem duas formas de prosperar – com foco e resiliência misturado com disciplina. Se você não tiver um pouco de linearidade e tiver um pouco de frustração, entender que as coisas não são em tempo real, não vai perseverar. Não tem como pular os processos de dor, do processo de aprendizagem”.

Também disse sobre o mercado de trabalho: “Essa geração entra na empresa e acha que é a casa deles, não tem limite, acham que o chefe é pai. Tratar a realidade como se fosse atender aos seus desejos é próximo a loucura”.

Então a vida dos Millennials é fácil demais e não tem dor? Bouer discorda. Quando estudou em uma faculdade que a turma era predominantemente composta por Millennials, conviveu com a geração de perto. No início, estranhou seu comportamento. Usar celular e fazer outras coisas durante a aula, além do grande número de faltas, lhe pareceu algo bastante ruim. No entanto, chegou a outra conclusão depois de um tempo: “Eu entendi que eles têm foco e disciplina de uma maneira que é muito deles. Eles fazem muita coisa ao mesmo tempo, são multitask, ouvem o que você diz enquanto mexem no celular. Sua disciplina vai muito na linha de tentativa e erro, de persistir”, refletiu.

“Acredito que são pessoas que se permitem mais, aprendem de outro jeito, constroem o processo de crescimento deles de outro jeito. Não acho que são uma geração mimada”. Tampouco deixaram de sentir dor. Em uma sociedade altamente conectada e compartilhada, eles vivem em meio a milhares de opiniões e exposições sobre si mesmos, lidam com críticas e frustrações muitas vezes diárias (promovidas pelo advento das redes sociais).

Outro olhar

Bia Granja também trouxe outro ponto para a discussão: ela lembrou que a personalidade das crianças é moldada pela educação dos pais. “As crianças urbanas foram passando por um processo de cada vez mais cuidado, mais mimo. Naturalmente, por definição, isso sempre vai gerar uma geração mais mimada que a outra”, ponderou.

Tatiany Leite complementou: “Acho que a maior complicação, na verdade, não é uma questão de geração, de idade, é uma questão de onde você está, de comportamento. Parece que todo mundo que se sente de fora da Geração Millennial quer colocar as coisas numa caixinha, como se fosse uma coisa inalcançável, que o jovem não vai querer. É muito fácil falar que a geração é mimada, que tem tudo na mão, sendo que as pessoas estão fazendo isso, estão dando conteúdo falando que é específico para os Millennials, criando padrões supérfluos para essas pessoas acessarem”.

A questão de informação

Para Magnoli, existe uma cisão no modo como os Millennials enxergam o mundo em decorrência da revolução digital. “Eu não acho que eles sejam mimados, acredito que esse é um diagnóstico de mercado, que talvez faça sentido para o mercado”, disse. “Do ponto de vista político, é uma geração que perdeu uma coisa muito importante: a espessura da informação. A espessura da informação é aquela qualidade que a informação tem quando são filtradas pelas lentes dos princípios do jornalismo”, explicou.

“Os princípios são três. A identificação da verdade factual (algo que as redes sociais não identificam), contextualização da informação no tempo e espaço (no passado, na linha do tempo e na linha do mundo), e o fato de que o jornalismo tradicional reunia todo mundo que lia jornal numa mesma praça de debate, ou seja, trazia a dimensão da pluralidade, a ideia de o que o outro fala é importante, mesmo que ele não concorde com você e talvez por isso mesmo”, elencou. As redes sociais fragmentaram a praça da verdade em diversos palanques de uma opinião só. “As Millennials ficaram encantados com a sua imagem no espelho e ficam olhando apenas pra isso”.

Dimenstein questionou essa visão em partes. “É preciso lembrar que o século XX foi o mais sangrento da história da humanidade, as pessoas acreditavam em coisas absurdas, totalitarismos de ambos os lados, direita e esquerda. E não eram Millennials”, disse. “Por outro lado, hoje eu vejo a geração mais nova lendo livros muito mais grossos do que os que a minha geração lia”.

A youtuber do Vá Ler um Livro também trouxe outra perspectiva. “Concordo que talvez tenhamos perdido a espessura da informação em parte, mas é uma geração que gosta de se informar também, do seu próprio jeito. Muitos dos usuários que acompanham meu canal são Millennials e o vídeo mais visto do canal é sobre Trovadorismo, a primeira escola literária brasileira”, contou. E também deu um exemplo pessoal: “Meu tio é doutor em literatura africana e eu aprendi muito mais sobre questões sociais com uma amiga youtuber que tem um canal sobre isso do que com ele, da academia”.

“Essa é uma geração que questiona muito. As informações podem até ser rasas, mas o fato é que questionamos as informações, ouvimos mais temos novos olhares. Você não se molda apenas a sua informação, mas a dos outros também. Eu com 15 anos jamais questionaria meu pai por uma informação, por exemplo. Hoje eu questiono, eu tenho como buscar mais”, lembrou Figueiredo.

Já a política…

O jornalista Jairo Bouer também sente essa questão da espessura da informação, mas sob outro ângulo. “Por causa dessa noção de horizontalidade, de igualdade, eu sinto que essa geração tem dificuldade de lidar com a informação que vem de cima pra baixo. Isso faz com que eles falem muito mais com seus mais próximos do que com doutores, jornalistas”, analisou.

É um grande paradoxo. “É uma geração com muitas buscas. Do ponto de vista da sexualidade, vivênciais sociais, crises existenciais, essa necessidade do lugar ao sol faz com que essa geração venha se frustrando e entre em contato com suas crises e problemas internos muito mais rápido, muito antes das nossas gerações. As frustrações sexuais começaram muito cedo”, acredita.

O fundador do Catraca Livre concordou. “É uma geração que aceita muito mais a diversidade. Questões raciais e homoafetivas são muito mais aceitas por eles, de forma natural, eles nascem com a diversidade intrínseca em si”, complementou. Por essa característica, é uma geração que está criando movimentos políticos fora do lugar comum. “Tenho a sensação de que muitos dos Millennials têm um grande desânimo politicamente falando. Isso faz com que eles tenham um engajamento diferente com o assunto, em outros canais”, lembrou Bia, da YouPix.

Magnoli também lembra que as pessoas dessa geração resistem às tendências nacionalistas, xenófobas e conservadoras de forma muito forte. Votos para Donald Trump ou para o Brexit, por exemplo, tiveram baixa adesão dos Millennials. Ao mesmo tempo, em países em que o voto não é obrigatório, a presença dos jovens é baixa nas eleições. Então como apresentar resistência? “Estatisticamente eles votam pouco e quando votam escolhem partidos da periferia política”.

“Há um fenômeno hoje que é a redução do centro político (centro-esquerda, centro-direita), o tradicional vai perdendo força. De um lado há um grande eleitorado do nacionalismo, conservadorismo, e do outro lado os jovens que não votam ou votam na periferia política. Isso traz consequências importantes. Isso não é critica. A sociedade se fez assim A revolução da informação foi feita por empresas globalizadas que não têm nenhum interesse nos preceitos do jornalismo, que juntaram o jornalismo com a publicidade, o que nós tínhamos era separado antes”, refletiu.

Visões sobre a internet

O radicalismo da internet é culpa dos Millennials? Atualmente, vemos um fenômeno nas redes sociais de comentários agressivos e ofensivos, de pessoas que nunca concordam e praticamente guerreiam para ter razão. Aparentemente, muitas pessoas relacionam esse fenômeno à nova geração. “Existem jovens diferentes do MBL querendo fechar exposições, pessoas querendo propor a morte de um monte de gente, o que gera isso?”, perguntou Magnoli.

Tatiany, nesse sentido, fez um alerta importante: “A generalização é um caminho perigoso. Não dá para dizer que Millennials são todos haters. O país é muito grande, existe muita diversidade”, lembrou. O fato é que as redes sociais podem ter tido sua ascensão junto da Geração Y, mas debates rasos no ambiente online são protagonizados por todas as gerações. E, claro, em todas as gerações existem pessoas intolerantes.

“O anonimato e a distância ajuda essas pessoas. É como se você falasse corajosamente nas costas de alguém”, complementou Dimenstein. “Hoje o que vemos é que você não argumenta mais o argumento. Você argumenta o argumentador. Não adianta uma pessoa aparecer dizendo que encontrou a cura do câncer, terão comentários acusando-a de ser do PT ou de outro partido”.

Outro ponto é que agora as pessoas encontram apoio nas redes sociais. Muitas vezes, o post mais aparentemente absurdo encontra milhares de compartilhamentos e likes. “Existe hoje a questão de a pessoa ter palanque, ela ganha views, tem uma necessidade de ser vista”, lembrou Christian. Bouer concordou: “Algumas pessoas ate exageram na necessidade de ser hater, polemizar, chocar, para ter mais gente indo atrás”.

Isso traz outro ponto: o ego sempre existiu – e muito antes da internet. “As pessoas queriam ser mais sempre, mas a internet explicitou isso em números. É muito cruel porque se você não tem essa audiência, você é excluído e também é uma coisa viciante, as pessoas querem chegar lá [no alto número de likes]”, lembrou Bia.  A cofundadora do YouPix lembrou-se de uma análise lida há pouco tempo, em que uma especialista explicava que o ato de tirar selfies nada mais é do que a busca do indivíduo por fazer a sua própria narrativa. Isso já existia antes em qualquer fotografia tirada em uma viagem, por exemplo. “É interessante analisar a construção coletiva do caráter das pessoas que estão online – e não só daquelas que são Millennials”.

Magnoli também recordou o fato de que muitos comentários existentes hoje são falsos, foram feitos por robôs organizados por grupos políticos para fazer uma espécie de guerrilha virtual da informação. “Grande parte dos haters, quando se trata de política, não existem. É preciso que as pessoas quando navegam tenham o alerta de que frequentemente estão querendo debater com robôs”, disse.

Complexidade

De fato, as guerras de opiniões nas redes sociais são diárias. Muitas vezes, é difícil encontrar conversas “civilizadas”, em que os lados se escutam. Mas esse também é um aprendizado. “É muito legal quando concordam com a gente, falam das coisas que nós gostamos, mas é importante aprender a debater com quem não gosta, é saber falar, uma questão política de dar a cara a tapa e usar a rede para levar uma informação e simplesmente sair do palanque”, analisou Tatiany.

“Isso é um posicionamento político. Essa geração passa por perrengues que a gente não passava de uma forma muito rápida. A gente vê muito mais casos de anorexia, bulimia e depressão nessa geração do que víamos antes em outras gerações. Tem a ver com a expectativa de ser reconhecido”, concordou Bouer.

Construindo pontes

Durante o debate, ficou claro que as gerações são mesmo muito diferentes. Os Millennials trazem milhares de questionamentos, paradoxos, dúvidas. Indivíduos que veem muito ao mesmo tempo, se engajam, apoiam o que acreditam – e também se frustram e sofrem. Características humanas, afinal, que têm correspondência na essência de seres de qualquer idade. E algo muito importante é: é uma geração que compartilha conhecimento.

Para finalizar, os participantes deram um resumo do que pensam sobre o assunto. “O conhecimento é um processo, que exige cuidado e compartilhamento. Você só constrói conhecimento quando vive na diversidade e compartilha, e essa geração faz isso”, disse Dimenstein, do Catraca Livre. “Todas as grandes invenções foram em lugares que tinham diversidade e compartilhamento. É isso que nos une como gerações”.

A convivência pacífica entre as gerações vem, no fim das contas, de um processo de abertura. “A gente tende a olhar tudo com muito preconceito, vemos as coisas com a nossa lente de mundo, nossa geração, o que somos, acreditamos. E o mundo muda. Não vai ter uma geração igual a outra. Não é algo bom nem ruim, são simplesmente diferentes”, lembrou Bia, da YouPix. “Acho que precisamos ter calma, empatia. O grande lance disso tudo é se manter no jogo. O custo de ignorar tudo isso é muito grande”. Tatiany concordou: “Eu acho que o único jeito de todo mundo se unir é estar aberto a conversar. Porque ninguém vai ter a mesma opinião. A gente só reproduz gestos buscando a imortalidade”.

Magnoli fez outra reflexão sobre o comportamento humano: “Eu vivi em uma geração que conhecia a carência material, os horrores da guerra, sentiu a fome, a falta de comida. A questão de ser mimado talvez seja em parte da distância da carência material. Mas os Millennials vivem nitidamente outro tipo de sofrimento, o da exposição pública. Eles perderam a privacidade, estão o tempo todo nas redes dando opiniões e recebendo opiniões”, acredita. “O que nos separa é que existem sofrimentos diferentes. O que nos une é o sofrimento”, finalizou.

*Confira a cobertura completa do evento aqui






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