Arte e pedofilia: esconder o problema não traz nenhuma solução

Polêmicas com quadros nas redes sociais acendem um alerta: não discutimos os problemas sociais como deveríamos. Preferimos a briga pela ideologia

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Na última semana, as redes sociais foram inundadas por comentários sobre arte. O problema é que não foi de uma maneira agradável. No começo da semana, o Santander foi criticado por milhares de pessoas por conta da exposição Queermuseu em seu espaço cultural localizado em Porto Alegre (RS).

Os críticos diziam que quadros incentivavam e faziam apologia à pedofilia e à zoofilia. Muitas pessoas também o defenderam, mas logo mudaram de lado após o banco espanhol retirar a exposição do espaço por conta das críticas.

Mais recentemente, o Museu de Arte Contemporânea (Marco), de Campo Grande (MS), também foi alvo pro conta de um quadro chamado exatamente “Pedofilia”, da artista Alessandra Cunha. Três deputados estaduais fizeram denúncia contra a obra e o delegado Fábio Sampaio concordou com o parecer.

Muitos defensores publicaram que arte não pode ser censurada. Concordo. Mas outro fator me preocupa ainda mais: a forma como insistimos em lidar com os problemas. Queremos escondê-los e ignorá-los.

Um quadro faz você pensar. Um livro ou um filme também têm como consequência a sua reflexão. Com eles, descobrimos fatos que não fazíamos ideias que existiam. E adivinha: nem tudo o que acontece no mundo é algo bonito.

Muito pelo contrário.

Sabe o que realmente incentiva a prática de crimes? Simplesmente ignorá-los. Discutir pedofilia, crimes passionais (na maioria das vezes cometidos por homens) e afins ajuda a alertar as pessoas a respeito da gravidade desses crimes. Mais: eles vão continuar existindo, mesmo você insistindo em ignorá-los.

No jornalismo sempre existiu um tabu que aos poucos vem sendo quebrado. O suicídio nunca era tema de reportagens ou artigos, pois temia-se que isso incentivasse a prática.

Adivinhe o que aconteceu? Os suicídios só aumentaram nos últimos anos: desde 2002, há um crescimento de 10% no número de pessoas que se matam no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Todos. Os. Anos.

Não é à toa, portanto, que o tema é debatido cada vez mais. Estamos em um “setembro amarelo”, que tenta combater exatamente esse tipo de problema.

Quando vemos um quadro falando sobre pedofilia, ele retrata algo que insistimos em aceitar que não existe. Só que você precisa admitir que é algo que acontece há muitos anos, antes mesmo daquele artista contemporâneo ter nascido.

Antes mesmo até de Cristo.

De acordo com dados do Disque-Denúncia Nacional, a cada dia são feitas 50 denúncias relativas a abuso infantil. Esse número deve ser muito maior, já que muitos preferem o silêncio. Então, ignorar o problema não vai fazer com que ele deixe de existir. Se fosse assim, você, eu e todo o resto do mundo não teríamos mais com o que nos preocupar. Não é assim que acontece, infelizmente.

Aceite que você não vive em um conto de fadas. Assim fica mais fácil admitir a realidade e lutar contra os problemas dela.

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