Quando decidir o momento de contratar um coach ou um psicólogo

Psicólogo e coach Guilherme Barati fala sobre o crescimento do coaching e dos perigos de esperar que o profissional seja uma espécie de terapeuta em sua vida

Por: - 1 ano atrás

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O psicólogo Guilherme Barati passou dez anos dentro de RH de um grande conglomerado, o Grupo Ultra. O contato diário com tantos funcionários das mais diversas formações e atribuições fez com que o profissional se perguntasse se todos que estavam lá eram felizes. Pois, só dessa forma, era possível que todos rendessem da melhor forma possível.

Foi com esse pensamento que Barati passou a estudar mais sobre o assunto. Mestre pela PUC-SP e doutor pela Unicamp, se especializou em temas como “trabalho, saúde e subjetividade”. Após sair do Grupo Ultra, além de atuar como clínico, Barati também passou anos como coach de consultorias como a Falconi.

Na entrevista a seguir, o profissional fala da diferença entre um coach e um psicólogo: quando que as pessoas devem procurar um ou o outro. Com o grande crescimento de coachs no mercado, que não exige especialização para atuar, a possibilidade de um acabar piorando o seu problema acaba aumentando. “Se ele atende uma pessoa que está acelerada, trabalhando muito e várias horas por dia, e pede para ela acelerar mais, vai reforçar uma adversidade”, diz Barati.

CM – Qual a diferença entre um psicólogo e um coach?

Guilherme Barati – O coach busca resultados pontuais na carreira do profissional. Repensar carreira, alcançar metas e afins, como se fosse um administrador. Algo mais de curto prazo. Já o psicólogo trata de questões mais profundas, como anseios internos, comportamentais, problemas como crise de ansiedade e até dificuldade de se expor. Quando envolve esse tipo de problema, já não cabe a um administrador cuidar, mas de um especialista na saúde.

CM – Há casos em que as pessoas buscam um coach pensando em se tratar de problemas internos? Ou seja, uma vergonha de procurar um psicólogo?

GB – Existe um preconceito quanto ao psicólogo, por isso muitos buscam o coach. A mensagem que passa para a sociedade de alguém que tem um coach é de uma pessoa que é excelente, mas que pode se tornar extraordinária. Ainda há na sociedade o pensamento de que quem procura um psicólogo ou terapeuta é mentalmente instável.

CM – E o que isso resulta?

GB – As próprias empresas incentivam o coach para ajudar os profissionais a alcançar melhores resultados. Temos a teoria do super-homem no mercado de trabalho: os profissionais são proibidos de demonstrar fraquezas e devem serem os mais resilientes possíveis. Isso resulta em pessoas que aparentemente estão bem preparadas e que são bem-sucedidas naquilo que fazem, mas os bastidores da sua vida podem estar arrebentados. Isso pode trazer resultados no curto prazo para a empresa e o funcionário, mas isso tende a trazer sérias complicações no longo prazo. O coaching pode resultar somente em uma aparência melhor. O problema é que as empresas, muitas vezes, preferem apostar só na aparência.

CM – O coaching pode trazer malefícios, caso seja feito de maneira errada?

GB – Um coach pode agravar um problema. Por exemplo, se ele atende uma pessoa que está acelerada, trabalhando muito e várias horas por dia, e pede para acelerar mais, vai reforçar uma adversidade. Essa pessoa precisa de um funcionário que a ajude a desacelerar não só no trabalho, mas internamente. Eu percebo que estamos em uma cultura do sacrifício. As pessoas precisam mostrar que estão se sacrificando, pois isso valoriza elas no ambiente de trabalho. Tem funcionários que se impõem mais coisas do que precisariam fazer de fato.

CM – Mas existe alguma forma de mudar isso?

GB – Essa foi uma indagação minha. As pessoas não querem mais metas e resultados do que elas já têm. Isso vem fazendo com elas se enterrem mais e se sintam desmotivadas. E as empresas fazem o que para isso? Pensam no coach com exercícios imediatos: reuniões, feedbacks e afins. Vira uma receita de bolo, mas não é bem isso. Tem casos, por exemplo, que pegam um cara tímido e querem que ele seja mais extrovertido para uma determinada posição. Mas nem perguntam se ele realmente quer isso – as vezes, o profissional nem tem a intenção de assumir um cargo com muita exposição, pois prefere ser de uma parte mais analítica e fechada. Em vez de forçar o profissional a fazer uma série de exercícios, por que não conversar com ele os pontos que ele realmente quer melhorar?

CM – E qual o papel das empresas nesse problema?

GB – É muito importante e pouquíssimas estão fazendo algo a respeito. O trabalho tem sido o principal lugar de sofrimento e as áreas de gestão de pessoas continuam cobrando cada vez mais que as qualidades apareçam e as deficiências sejam escondidas. A estratégia das empresas precisa acolher essas deficiências e limitações e trabalhar com elas. É necessário aceitar que os funcionários têm deficiências e questões comportamentais e ajudá-las com isso, não simplesmente escondê-las.

CM – Existe alguma diferença entre as gerações mais novas e as mais velhas? Os jovens estão sofrendo mais?

GB – Os problemas não se restringem às gerações mais novas, mas os jovens agem de maneira diferente. Os profissionais de antigamente tinham uma outra visão sobre hierarquia, principalmente porque havia uma divisão clara em casa. Essa geração de agora teve uma liberdade maior dada pelos pais, que entenderam que os seus filhos precisavam de uma criação mais aberta. Então, por conta disso, os mais jovens entendem menos as relações de hierarquia, algo que os experientes tiveram contato desde a infância. E tem outro fator: os mais velhos tendem a suportar mais ambientes ruins do que os jovens, mesmo que isso represente um adoecimento.

CM – Mas pesquisam mostram que há um crescimento de doenças psicológicas nos mais jovens.

GB – Eu também estou acompanhando uma explosão de pacientes mais jovens, especialmente vindos de startups ligadas à tecnologia. A cobrança está em todo o lugar, independentemente do setor ou da área que a pessoa trabalha. Há uma insatisfação generalizada com o trabalho. Até por conta disso, as pessoas estão indo atrás de coachs, pois veem neles uma solução mais rápida. Ao mesmo tempo, diversos profissionais estão se tornando coachs com muitos problemas nas carreiras, mas que se enxergam capazes de ajudar os outros. E hoje vivemos em uma cultura que nos convida a extrapolar. Nunca temos um limite e ao mesmo tempo nunca está bom. Isso traz transtornos de pânico. Pior: mais utilização de drogas estimulantes e remédios para a pessoa sempre se sentir ligada.

CM – E qual o papel da tecnologia nesse debate?

GB – A tecnologia mudou a forma de trabalharmos até o capitalismo. Até mesmo quando uma empresa é criada, mira-se que ela seja adquirida o mais rápido possível. Quando entra um fundo de investimento, ele quer que a empresa tenha resultados ainda mais rápidos para vendê-la novamente. Estamos em um mundo em que as empresas e as pessoas se desfazem rapidamente das coisas, tudo é muito líquido. Temos um culto à rapidez. Ao mesmo tempo, há uma contradição: cobramos a criatividade de todos. Mas como você pode ser criativo com tantos e-mails e notificações na sua frente e reuniões intermináveis? Como você vai parar para pensar, se você mal tem tempo para isso? É complicado.