Conheça Carl Rohde, o caçador de tendências

Sociólogo e antropólogo, o profissional holandês se especializou no estudo de tendências e criou uma agência focada no assunto. Confira a sua entrevista

Por: - 1 ano atrás

Divulgação

O sociólogo holandês Carl Rohde passou boa parte de sua vida estudando comportamentos de consumo. Mais do que isso, se especializou em tendências. Ele mesmo se define como um caçador de tendências e despreza os modismos. De acordo com Rohde, não passam de assuntos ou produtos desinteressantes e que não se sustentam no longo prazo.

E para descobrir o que realmente é uma tendência em um mar de modismos, Rohde criou a sua agência especializada no assunto, a Science of the Time. Com 25 anos de história, a empresa atua com os mais variados setores como moda, automotivo e hospitalidade.

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Durante a sua passagem no Brasil para um evento da MUTANT University, Rohde recebeu a Consumidor Moderno e falou sobre a sua linha de estudo, de como os Millennials estão influenciando o mercado e até mesmo sobre o futuro do mercado de tecnologia.

Confira, a seguir, a sua entrevista:

CM – Na sua opinião, como as tendências surgem?

Carl Rohde – As tendências surgem por motivos e formas diferentes dependendo do setor. Por exemplo, na moda, as tendências são ditadas pelas grandes marcas que apontam o que será legal e o que vai para as passarelas. Porém, ao mesmo tempo existem pessoas comuns nas ruas ou nos subúrbios e clubes que também criam moda e tendências. Muitas vezes, esses dois polos acabam se encontrando, uma vez que a Armani pode ir ao subúrbio e ver algo interessante e absorver isso para sua marca.

CM – Quantos nós falamos sobre tendências, existem diferenças entre elas em diferentes países ou a globalização acaba as unificando?

CR – Minha metodologia de cool-hunting conta com uma rede de colaboradores espalhados em todo o mundo. Acompanhamos as redes sociais, os millennials, as gerações acima dos 50 anos e catalogamos em diversos lugares as novidades mais atrativas, inspiradoras e capazes de definir novas tendências virais.

CM – Então, como o senhor definiria o poder dos Millennials?

CR – São eles quem ditam as regras do jogo. Hoje a influência dos Millennials provoca mudanças no comportamento da geração acima de 50 anos.

CM – E como é possível identificá-las?

CR – É importante entender como são as faixas etária de um país. A China tem muitas pessoas com mais de 50 anos e, relativamente, poucos acima dos 60 anos. Então podemos dizer que essa é uma nação com tendências mais sólidas. Nossas medições da fidelidade de marca entre os chineses mais velhos são bem diferente dos sexagenários de outras cidades, como Barcelona ou São Paulo, por exemplo. Então, quando falamos de tendências, tudo depende de cada lugar.

CM – Como a tecnologia está mudando as tendências ao redor do mundo?

CR – Estamos na Segunda Era da Máquina (Second Machine Age). A primeira foi no começo da revolução industrial, em que se tinham máquinas que substituíram alguns trabalhos manuais. Antes era preciso andar, mas com a industrialização comprar um carro ficou possível. Então as pessoas com esse auxílio não tinham que fazer os trabalhos físicos e perigosos. Atualmente, nessa segunda revolução, as máquinas estão indo para outro nível e fazendo trabalhos intelectuais, graças à inteligência artificial.

CM – Por exemplo?

CR – As máquinas falam onde devo ir, onde terei desconto, onde pego menos trânsito, entre outras coisas. Você pode fazer com que seu novo negócio, seu empreendimento compita com as máquinas, o que é bem complicado, ou então você pode pensar em maneiras para que seu empreendimento fique alinhado com elas. Nuvem, tecnologias de informação e comunicação IA são algumas das opções e muitas pessoas estão indo por esse caminho. No entanto, em um mundo computadorizado, você tem que escolher se vai se adaptar e se unir aos computadores ou focar no que eles não podem fazer. Por exemplo, um smartphone pode me dar várias respostas, mas não pode me dar empatia e criatividade.

CM – Então, existem possibilidades de “competir com as máquinas”?

CR – De um lado, temos o alinhamento com os computadores e novas tecnologias, mas do outro também existem outras importantes qualidades humanas que são essenciais, como a hospitalidade. No Japão, um robô pode me receber no hotel e me falar se cheguei atrasado ou não, mas eu gosto de ser recebido por um humano, que é mais amigável e empático. Na primeira era das máquinas, elas cuidavam dos trabalhos mais físicos. Agora, elas cuidam de trabalhos mentais. Como um empreendedor, pense no que pode ser realizado nessa era atual com utilizações variadas.

CM – Quais são as principais diferenças entre modismos e tendências? Como podemos diferenciar uma da outra?

CR – Sempre me perguntam quais são as diferenças entre tendências e modas. Uma moda se espalha muito rápido, é muito imprevisível e não é muito interessante. Exceto, é claro, se você faça parte do mundo da moda. É importante entender que tendências são coisas muito mais profundas para a vida das pessoas. Elas evoluem com o tempo. Diferente dos modismos, que surgem e desaparecem porque são desinteressantes. Modas são rápidas e chatas ao mesmo tempo. Tendências mais profundas demandam mais inteligência.

CM – E como as tendências impactam de fato no mercado?

CR – Elas interferem na sua rotina, no seu trabalho e também, por que não, no mundo da Moda. Elas envolvem tudo que nos cerca, não importa se o seu negócio é turismo, hotelaria, varejo ou outro tipo de segmento. Hoje a influência dos millennials, por exemplo, provoca mudanças no comportamento da geração acima de 50 anos. São essas perguntas mais profundas que analisamos na Science of the Time. Nós tentamos entender como essas tendências interferem no mercado, no consumo das marcas e dos produtos.

CM – Nós últimos anos, estamos observando um mundo muito polarizado. O sr. acredita que trata-se de uma tendência?

CR – Estamos tendo dois comportamentos distintos: desconfiança e progresso igualitário. A desconfiança tem início com a crise bancária. Os banqueiros nos roubaram e nos induziram a crise. Há também outras crises. No Brasil vocês têm a crise política e a crise econômica. Então, estamos em um momento de grande desconfiança com nossos líderes econômicos e políticos. É algo que está mais visível.

Por exemplo, por que o Trump é tão popular em um grupo de pessoas? Porque eles começaram a odiar os outros políticos, pois se sentiram traídos por eles. Então, eles escolheram uma outra figura, que não se diz política. E a vantagem, na cabeça deles, é que ele nunca os decepcionou ou os traiu. Isso é a cultura da desconfiança. Por todas as razões, por conta da corrupção, por conta da crise dos bancos na América do Norte, na política…

CM – E onde entra o progresso igualitário?

CR – É o resultado do movimento em que as pessoas se empoderaram por conta de toda a falta de crédito que os políticos e economistas têm no momento. Chamamos do Poder da Mídia Social.

CM – Poderia dar algum exemplo?

CR – Na China, as pessoas se organizaram nas redes. Cinco anos atrás, por exemplo, houve um grande acidente com trens de alta velocidade que ligavam Pequim a Xangai. O governo, no entanto, tentou colocar panos quentes e disse que se tratava de um pequeno acidente. Porém, as pessoas começaram a tirar fotos e postar nas redes sociais. Ou seja, não tinha mais como as autoridades mentirem. Então, as pessoas passaram a ter uma nova forma de se organizar. Há um site do Reino Unido que se chama fixmystreet.com (“ConserteMinhaRua.com”).

Se o governo diz que as ruas estão ótimas, as pessoas podem postar as fotos nesse site e mostrar que eles não estão sendo sinceros. Isso força o governo a agir. Estamos sim em uma fase de desconfiança, mas agora existe um novo poder: o poder das redes sociais, o poder do progresso igualitário. Isso ajuda a lutar contra a desconfiança.

CM – Como o sr. analisa o impacto das redes sociais e das tecnologias no relacionamento entre empresas e consumidores?

CR – As marcas sabem mais sobre o consumidor, afinal ele se revela todos os seus movimentos na internet. Diferentemente de grupos focais, em que os participantes estão sempre mentindo, nas redes sociais as pessoas mentem menos e podemos analisar o pensamento delas e o que elas de fato procuram. Isso independentemente do fato de apresentarem a melhor versão de si. E as empresas de mídia sabem disso.

CM – Por exemplo?

CR – Se você, por exemplo, esconde algum impulso relativo a homossexualidade, mas procura por seus interesses na internet, o Google sabe que você é gay. Socialmente você pode até negar e dizer “eu amo minha esposa” nas suas redes sociais ou compartilhar essa informação de forma privada, mas o Google sabe tudo. Ele entende que os nossos interesses que nos definem.

CM – O senhor acredita que startups podem continuar impactando o jeito que consumimos?

CR – O auge das startups já foi. O poder de mudar o mundo agora está na inteligência artificial, na computação em nuvem e na internet das coisas. Tudo isso está concentrado nas mãos das grandes empresas como Facebook, Google, Baidu, entre outras. Então, as startups precisam se alinhar com os grandes pra se tornar um sucesso.

CM – Não teremos grandes empresas surgindo? Novos Google’s ou Facebook’s?

CR – Se você quer se tornar o próximo Google, e isso pode acontecer como pudemos ver com o Snapchat, há uma grande chance deles desejarem comprá-lo. A filosofia de startup de garagem acabou. A menos que você não seja uma empresa de tecnologia, seja mais focada em criatividade humana, empatia e hospitalidade, algo mais off-line.

CM – Então, na sua opinião, não teremos mais startups mudando o mercado, como o Uber e o Facebook, por exemplo?

CR – Isso não quer dizer que não podem fazer coisas incríveis e fantásticas. Mas a maioria das startups está fazendo apenas aplicativos e isso é tedioso. Não é mais criativo. Claro que existem chances se você tiver uma ideia brilhante, mas você está competindo com todas as startups do mundo que estão trabalhando com aplicativos. É muito arriscado.

O modelo de garagem, do pensamento de “eu sou incrível e vou colocar meus amigos em uma garagem para fazer coisas brilhantes” não funciona mais. Os problemas do mundo são muito grandes para startups. O problema agora é aperfeiçoamento humano.

CM – Então você diz que os aplicativos não são uma tendência para o futuro?

CR – É muito difícil competir com o Uber, por exemplo, com um aplicativo. É muito difícil competir com o Google com um sistema de busca. É muito difícil competir com o Facebook com uma rede social. Não é impossível, mas se você pensa que isso é o futuro, você está bem atrasado e que está empreendendo sem muito conhecimento de tendências.