A intolerância com os intolerantes

“Após 15 minutos de diálogo, ou melhor, de recusas seguidas, percebemos que o restaurante era intolerante aos intolerantes”

Por: - 11 meses atrás

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Lactose, glúten, ovos, carne e seus derivados, leveduras, camarões, castanhas, óleos… praticamente são incontáveis os tipos de doenças relacionadas a algum tipo de intolerância. Eu convivo com isso diariamente e vejo que os intolerantes, por escolha, ideologia ou doença crônica precisam praticamente se desculpar por existirem.

Um dias desses fui a uma pizzaria no bairro dos jardins, em São Paulo. Éramos um grupo grande e uma das pessoas era intolerante a lactose grau máximo. Ele ficou calado porque como ser o estraga prazer de uma turma carioca que precisava conhecer a verdadeira iguaria paulistana? “Fiquem tranquilos eu sempre dou um jeito de comer alguma coisa” Ele nos disse. Sentamos e, ao receber o cardápio, uma busca incansável se iniciou, a la “Onde está Wally?” ou, melhor dizendo, “O que não leva queijo?”.

Meu caros, após longa pesquisa, ficamos em êxtase: encontramos algumas sugestões de saladas, sopas, pães artesanais e, quem sabe, pizza branca (daquela assada com sal grosso e alecrim, sem queijo?). O garçom chega a mesa e nos preocupamos em pedir todos os itens perguntando se poderia fazer pequenas alterações para eliminar o queijo da receita. Recebemos negativa em todas as perguntas. “Ah, não tem como”, “Ih, aí complica, o chef não pode”, “O pão com linguiça já vem com o queijo, não tem como tirar”, “Essa sopa tem creme de leite”. Após 15 minutos de diálogo, ou melhor, de recusas seguidas, percebemos que o restaurante era intolerante aos intolerantes.

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Saímos do restaurante sem acreditar, o sentimento de frustração tomou conta de todo grupo. Sentimos pena do nosso colega, e ele ficou surpreso por ter sido tão maltratado. Atravessamos a rua e entramos em um restaurante japonês que topou substituir todos os enrolados que continham cream cheese, ou que tinha raiz forte ou camarões em sua composição. Encontramos enfim um lugar onde o cliente, ou melhor, as pessoas estavam no centro da decisão. O chef do lugar pareceu ser muito mais flexível e empático. Afinal de conta, o chef não cozinha para as pessoas? Acho que nem todos.

Pois bem, aqui estamos no final de 2017 em meio a uma crise econômica onde especificamente a área de serviços está indo de mal a pior. Portanto, um restaurante em que se cobra praticamente R$ 100 a pizza de 6 fatias e não se pode pensar fora da regra, deve estar faturando muito bem para não levar em consideração as exceções que cada vez mais crescem no país. Cardápio antigo fadado ao fracasso.

Tomo o meu relato como exemplo para repensarmos nas nossas escolhas pessoais e profissionais. Será que estamos sendo intolerantes com os intolerantes em outros quesitos? Será que na prática aceitamos mesmo a diferença de credo, origem, cor, será que estamos abertos a nos dar chances de provar novas receitas de relacionamentos, modos de aprendizado e reconhecer nossas limitações?

Não seja uma pizzaria, seja um restaurante japonês. Abra exceções, faça concessões: sem glúten, sem camarão e sem queijo pode ser uma aventura sinestésica incrível, basta experimentar.

Em 2018, experimente mais.
E boicote a intolerância, seja ela qual for.