Especial Compliance: Agora, o tema é coisa séria

Prisão de executivos e a lei anticorrupção deixam profissionais com receio de serem as próximas vítimas. Todo o cuidado com o compliance é pouco

Por: - 1 ano atrás

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Empresas como a Petrobras, a JBS e a construtora Odebrecht podem ser consideradas marcos para o combate à corrupção no Brasil, especialmente após a prisão de uma série de executivos e políticos envolvidos nas falcatruas. Trata-se de uma rara vez em que o brasileiro se depara com nomes do primeiro escalão de governos e empresas pagando pelos crimes cometidos.

Isso foi possível, em parte, por conta da Lei Anticorrupção, que entrou em vigor no início de 2014. Desde então, as empresas podem sofrer sanções como multas que chegam a 20% do faturamento, suspensão das atividades e até mesmo o encerramento das suas atividades. Os executivos, claro, também passaram a ter punições mais pesadas.

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E a forma de discutir esses assuntos com empresários e executivos também mudou bastante a partir da promulgação da lei. A advogada Alessandra Gonsales é sócia do escritório WFaria e especializada em implantação de políticas anticorrupção e de lavagem de dinheiro. Antes desses eventos, como a Operação Lava Jato e a própria Lei Anticorrupção, o seu discurso não era muito levado a sério.

Era comum, em reuniões de apresentação, presenciar executivos dispersos, sem interesse no tema e até mesmo sonolentos. Isso mudou. “Agora, a primeira coisa que me perguntam é o que eles precisam fazer para não serem presos, mesmo que não tenham feito nada”, diz ela. “Antes pouquíssimas perguntas eram feitas nas apresentações”.

A preocupação aumenta ainda mais naquelas empresas que têm envolvimento com o setor público. Afinal, o sarrafo está alto e nunca se sabe quando uma investigação de determinando órgão ou empresa pode ser iniciada. E isso não está reservado aos grandes centros do Brasil. A empresa de saneamento Aegea sabe muito bem disso.

Risco público

Apesar de estar baseada em São Paulo, a companhia viu o seu nome envolvido em denúncias de corrupção em cidades como Ribeirão Preto, assim como a prisão de alguns nomes ligados à empresa, como Jorge Carlos Amin, ex-membro do Conselho. A companhia chegou a ter R$ 18 milhões bloqueados pela Justiça.

Para mudar a imagem e não ser lembrada por casos como esse, a Aegea, que tem como principal e mais importante cliente o setor público, apostou na criação de um programa de compliance. A primeira medida foi a transferência da executiva Tamara Willmann da auditoria para uma área de compliance. Um agravante para a empresa, no entanto, era o baixo nível educacional dos seus funcionários. Alguns, inclusive, analfabetos funcionais.

A saída encontrada foi a criação de um gibi com diversas ocasiões do cotidiano. Um fornecedor me ofereceu um presente: eu posso aceitar? É algo ilegal ou imoral? Esses questionamentos diários, de diversas áreas, são retratados na revista em quadrinhos.

“Precisávamos fazer algo mais popular para atingir esse público”, afirma Tamara. Os personagens tomaram outros espaços da empresa, como vídeos de treinamento e e-mails internos.

Outro ponto para o qual a empresa passou a olhar com mais atenção foi o canal de denúncia. Afinal, a empresa precisava fazer algo simples e seguro para que qualquer um dos 2.500 colaboradores, espalhados por 48 municípios, se sentissem confiantes para utilizar o canal.

Tamara Willmann e Hamilton Amadeo, da Aegea

Para isso, contratou um time de psicólogas que fica disponível 24 horas por dia e que foi treinado exatamente para tratar com mais naturalidade e cuidado o denunciante.

“Trabalhamos para promover o desenvolvimento local nos municípios onde atuamos, ou seja, queremos que os cidadãos-usuários de nossos serviços vejam na companhia um instrumento de transformação social, que levará mais qualidade de vida e desenvolvimento local”, diz Hamilton Amadeo, CEO da Aegea.

O inimigo trabalha ao lado

Com tantos milhões desviados, algumas atitudes de companheiros de trabalho podem passar despercebidas aos olhos dos outros. E a corrupção está mais próxima do que muitos imaginam. De acordo com dados da consultoria PwC, 58% de todos os crimes econômicos envolvendo empresas são cometidos pelos próprios funcionários. Um dado preocupante.

A Movida é uma prova deste número. A empresa de locação de automóveis controlada pelo conglomerado JSL abriu capital no início do ano passado e precisa dar informações recorrentes aos seus acionistas. E uma das mais temidas por todos diz respeito a perdas por conta de carros roubados. Nos primeiros nove meses de 2017, último dado divulgado, a companhia já tinha perdido R$ 40,3 milhões com o furto de automóveis.

Para diminuir esses números, a companhia vem aportando bastante dinheiro em soluções como o aprimoramento do sistema de biometria facial nas lojas, o aumento de rastreadores nos carros e compliance.

“Desta maneira, deixamos claro e transparente para os funcionários que a empresa não tolera atitudes deste tipo”, Renato Franklin, da Movida

A empresa também mantém um canal de denúncias e, assim que as recebe, passa a investigar o caso para saber se realmente a informação procede. Em uma das mensagens, foi colocado que um dos funcionários fazia parte de uma gangue que roubava carros.

E, de fato, descobriu-se que, além dele, um outro funcionário estava infiltrado na empresa para facilitar o trabalho do grupo criminoso. Além da demissão por justa causa, a empresa abriu um inquérito contra a dupla. “Desta maneira, deixamos claro e transparente para os funcionários que a empresa não tolera atitudes deste tipo”, afirma Renato Franklin, CEO da Movida.

Questão de imagem

Uma imagem positiva, tanto de maneira interna quanto externa, é fundamental para que a empresa continue atraindo investidores e mão de obra qualificada. E, mesmo com uma política definida, um simples desvio de conduta ou de comportamento pode colocar tudo a perder.

A Liq viveu esse problema em 2014, época em que ainda era chamada de Contax. Naquele ano, a empresa foi bombardeada de denúncias de assédio moral e desrespeito com os seus funcionários em contact centers.

Para evitar que esse tipo de problema se repetisse, a empresa lançou, em 2016, o seu canal de compliance. Feito de maneira terceirizada e independente, a Liq conta com a prevenção de casos como esse.

“Um dos principais pilares da área, se não o pilar fundamental, é a garantia de gestão da cultura ética da empresa”, Letícia Prebianca, da Liq

“Um dos principais pilares da área, se não o pilar fundamental, é a garantia de gestão da cultura ética da empresa”, diz Letícia Prebianca, responsável por toda a área de compliance da Liq. “Com a definição de um código de conduta ética, treinamento e canal de denúncia, é possível construir um ambiente de trabalho baseado no respeito”.

Outro fator positivo para a Liq com o compliance foi a conquista de contratos. Desde a promulgação da Lei Anticorrupção, diversas empresas solicitam o cumprimento de uma série de normas, entre elas a eficiência de fato do setor de compliance.

Além disso, a empresa também passou a cobrar o mesmo cuidado com os seus prestadores de serviço e dois destes fornecedores tiveram contratos encerrados. “Somente os que concordaram em implementar e aprimorar seus programas de compliance foram autorizados a contratar com a companhia”, diz Letícia.

Compliance não é só desvio

Todas as empresas citadas neste especial possuem receitas bilionárias e aportam milhões nas áreas para mitigar riscos. Elas sabem que a falta de investimento pode resultar em prejuízos ainda maiores e já sofreram isso na própria pele. Mesmo com tantos exemplos, o investimento das empresas brasileiras em compliance ainda é tímido.

De acordo com o estudo da KPMG com 250 empresas, apenas 9% aportam mais do que R$ 2 milhões na área. O lado positivo é que apenas 2% realizavam o mesmo investimento em 2016.

Sócio da KPMG para a prática de compliance, Emerson Melo vem acompanhando a evolução das empresas nos últimos anos. Realmente existe uma aceleração dos programas, especialmente nas empresas que já estiveram envolvidas com corrupção e também de multinacionais.

As empresas médias e pequenas, no entanto, pouco discorrem sobre o tema. Caso a resistência continue, pode ser tarde demais. “Diversas grandes empresas estão cobrando um compliance efetivo até dos pequenos fornecedores”, diz Melo.

Alguns profissionais da área também olham com ceticismo essa movimentação. Afinal, o compliance não pode existir somente na hora de fechar contratos milionários. As ações do dia a dia também precisam estar nos conformes do código de ética da empresa.

“A área não pode ser algo para simplesmente inglês ver”, diz Maria Fernanda Teixeira, CEO da Integrow, consultoria especializada no tema. “Agora o compliance também tem de se atentar às questões morais”.

Justa causa

Um caso que chamou bastante a atenção recentemente foi a festa de fim de ano da subsidiária brasileira da Salesforce. Para animar os funcionários durante a festa, a empresa decidiu fazer um concurso da melhor fantasia – o vencedor levaria para casa R$ 3 mil. Um dos funcionários teve a ideia de se vestir de “negão do WhatsApp”.

A tentativa de fazer graça, no entanto, não foi bem vista pela matriz americana. Três pessoas foram demitidas no caso: o funcionário que se fantasiou, um diretor e o então presidente da filial, Maurício Prado.

A consultora Maria Fernanda ainda dá o exemplo dos almoços entre executivos. Não é incomum que para fechar um negócio ou até mesmo para networking um pague a refeição para o outro – muitas vezes em restaurantes caríssimos. Essa atividade é um dos grandes cuidados do executivo Sandoval Martins, CEO do Buscapé. Para ele, o exemplo tem de ser dado em todos os momentos.

Certa vez, no fim de um almoço com o presidente de uma grande varejista, uma certa tensão ficou no ar: os dois queriam pagar a conta. Ao mesmo tempo, os dois eram proibidos pelas empresas de aceitarem qualquer tipo de mimo.

“deixamos claro aqui é que a ética não é diferencial, mas algo natural dentro da empresa”, Sandoval Martins, da Deloitte

“No fim, decidimos rachar a conta”, diz Martins, aos risos. “Para você ver como parte do mercado está cuidadoso com esses problemas”.

E o CEO é cobrado aqui no Brasil e no exterior a seguir um rigoroso código de ética. Isso acontece porque o Buscapé é controlado pela empresa sul-africana Naspers, que tem capital aberto tanto no seu país de origem quanto em Londres, na Inglaterra. Todos os meses, Martins tem reuniões com os seus diretores jurídico e financeiro e a Naspers para reportar qualquer desvio de conduta na empresa.

Um detalhe é que Martins não tem acesso direto às denúncias que ocorrem. Assim como mandam as melhores práticas de compliance, o setor é terceirizado e comandado pela consultoria Deloitte. Qualquer denúncia pode ir para o canal, inclusive contra o próprio CEO.

“Nós incentivamos em todas as reuniões que os funcionários utilizem o canal de ética, inclusive para casos de abuso e assédio”, diz Martins. “E algo que deixamos claro aqui é que a ética não é diferencial, mas algo natural dentro da empresa”.

Este é a segunda de uma série de três reportagens sobre compliance. Clique aqui para ter acesso às outras (a partir do dia 28/2)