Por que até os melhores profissionais podem fazer coisas erradas?

Empreendedores e executivos sempre têm as melhores intenções. Mas por que esse princípio nem sempre resulta em coisas boas?

Por: - 1 ano atrás

Critica-se o Vale do Silício, Wall Street e outros polos empreendedores por serem ambientes geradores de ganância e disseminadores dos piores instintos humanos. Infelizmente, o foco dessas críticas está errado. Os problemas não estão nas pessoas, mas no sistema que as acolhe e influencia.

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Essa foi a abordagem do painel “Como quebrar uma indústria inteira?”, apresentado pelo fundador e editor principal da Vox Media, Ezra Klein. Sua empresa é reconhecida globalmente pela forma com que mergulha nas histórias que cobre. O próprio Klein é redator, repórter, e também produtor de podcastings.

Ele é o responsável por disseminar intensa mobilização de sua equipe, e também de seus criadores.

Um incansável investigador de boas histórias

Ezra Kleine consegue um protagonismo difícil de ser equiparado atualmente. Em 2016 cobriu ativamente as eleições, entrevistou Obama na Casa Branca, e Hillary durante a campanha, lançou uma série de podcastings de enorme sucesso e também colabora como colunista da Bloomberg. Toda essa experiência e disposição fizeram parte de sua apresentação no SXSW.

“Meu trabalho é cobrir tudo aquilo que dá errado. E é por isso que estou aqui: para falar sobre negócios que têm tudo para fazer o bem, mas só estragam tudo”. Ezra diz que não tem respostas para o mal-estar que atinge o mundo e por que as coisas parecem tão ruins? Mas será que o problema, a causa desse mal-estar está em Wall Street, no governo? Não. Na opinião dele, o mundo está repleto de idiotas. “Aqui dentro há uma plateia de idealistas. Mas lá fora, só completos imbecis. Mas e se essa explicação simples estiver errada?”

Provocações: a mídia conta histórias sobre seres humanos fazendo escolhas

A pergunta certa, para o jornalista é: “como as pessoas tomam decisões e fazem suas escolhas?” A motivação geral é ver pessoas a procura de informações que confirmem seus pontos de vista. John Haidt, um pesquisador da mente humana, mostra como pedaços de informações fragmentados condicionam nossa cognição. É como se Dave Hume, no século XVIII, visse confirmado seu aforismo: “a razão é escrava de nossas paixões”. Os seres humanos racionalizam suas decisões conforme os incentivos que recebam, por onde precisamos compreender quais são os incentivos que impulsionam e influenciam nossas decisões?

O incrível é que quanto mais intelectualmente preparadas as pessoas são, muitas vezes, mais sensíveis a informação ruim, falsa ou descartável elas são. Há muitas pesquisas que comprovam essa tese.

Nós nos importamos, mas até que ponto?

Ezra diz, que para entender os incentivos, é preciso olhar com atenção para os sistemas e contextos e não para as pessoas. Procuramos protagonistas, procuramos saber quem nos identifica, quem responde a nossas aspirações, mas falhamos em olhar o meio no qual essas aspirações proliferam.

Ele mostrou um framework sobre o funcionamento do congresso americano: um jogo de soma zero, onde concordar com o outro lado significa derrota. O incentivo é derrotar o inimigo, “uma coisa lunática”, segundo o jornalista, que não obedece ao bem comum.

Vimos esse filme recentemente, com mais um adiamento da inadiável reforma da previdência, onde um grupo de congressistas simplesmente não pensou em sua função, mas em simplesmente alinhar-se com uma posição mais confortável. As pessoas se importam, sim, mas antes consigo mesmas.

Insinceridade, nosso inimigo oculto

“O propósito da maioria é governar. O propósito da minoria é ser maioria”. Essa afirmação do Deputado Pete Sessions, do Partido Republicano revela, em sua crueza, a dinâmica do Congresso. Transplante essa visão para ecossistemas de negócios, para o mercado ou para a sua empresa e você verá sempre o padrão: “vamos fazer o nosso enquanto é tempo, já que todos estão fazendo o seu”.

Na mídia, em tempos de fake news, de mudança de algoritmos no Facebook, vemos veículos procurando cobrir apenas aquilo que possa ser compartilhado e não necessariamente o que é bom, consistente, verdadeiro ou relevante. Estamos sendo insinceros conosco o tempo todo, mesmo quando falamos em espírito de equipe e na importância da colaboração entre times.

O próprio Facebook em sua busca por crescimento irracional, pode ter sua postura racionalizada do seguinte modo: ” quando as pessoas usam algo intensamente, é porque elas querem mais disso”. Em resumo: se elas compartilham fake news ali muito mais do que notícias reais, é porque querem mais fake news. Se isso chamar a sua atenção e o mantiver na rede, ótimo.

A racionalidade é vítima do sistema

O ponto central da apresentação de Ezra é que mesmo boas pessoas, profissionais de talento são consumidas pelas engrenagens de um sistema erguido sobre a necessidade de valorizar os insinceros. E é por isso que há um mindset reativo sendo criado, buscando transparência radical de políticos e empresas.

O momento pede uma postura cética, e é isso que vemos particularmente entre uma nova geração de consumidores. O mundo parece depressivo, a falta de confiança em quem tem poder e protagonismo provoca uma nova necessidade de escrever um futuro menos direcionado pelo cinismo. Para Ezra, o futuro será melhor, o que é uma forma de acreditar em algo.

Ezra coloca sua energia novamente – ideia já recorrente no SXSW 2018 – na valorização dos problemas locais, do olhar atento para o que acontece no dia a dia das pessoas comuns. Para ele, o próprio jornalismo local precisa ser valorizado, por mais inglório que pareça. O global avança, mas é no local que se encontram as pessoas com seus problemas comuns. O mundo das redes sociais parece ter desaprendido a língua das pessoas próximas.

Essa falta de confiança e ceticismo diante do sistema que valoriza a insinceridade pode quebrar indústrias inteiras. Governos, redes sociais, mídias e empresas não escaparão ilesas diante da toxicidade da falta de verdade exalada pelas lideranças.