As lições que podemos tirar após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo

Nós preferimos impor nosso estilo, negligenciando as circunstâncias ou considerando-as improváveis. Reagimos tarde à inovação e a novas configurações

Seguia razoavelmente bem o ano de 2018, com solavancos políticos aqui e ali, nenhum clima para a Copa do Mundo que se aproximava, inflação baixinha, dólar soluçando, Trump bravateando, quadro eleitoral em clima de barata voa, muitos candidatos e nenhuma ideia. De repente, o País foi atropelado por uma paralisação. A greve dos caminhoneiros escancarou todos os problemas do País, desemprego, subsídios, impostos amalucados, falta de infraestrutura, mau humor com os políticos, corrupção, falta de perspectivas. Cai o presidente da Petrobras, talvez o único executivo à altura do cargo que a estatal teve de fato em décadas, a inflação dispara, a produção industrial despenca, o desemprego continua flagelando famílias e esperanças. O ufanismo futebolístico entra em campo e até consegue catalisar as atenções por uns dez dias. Com a eliminação do Brasil na Copa, caímos na real. Afinal, ali vemos trabalho sério, planejamento, métodos, ideias. Mesmo esse padrão de profissionalismo é insuficiente para levar o País novamente ao protagonismo no cenário do futebol.

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O fracasso relativo na Copa mostra que o mundo anda e se aprimora em velocidade maior que a nossa. De grande força do futebol mundo, há anos estamos em um segundo grupo de nações que almeja a vitória, mas não reúne condições totais para isso. Nossa seleção evoluiu em dois anos, mas nossos planos de jogo revelaram nossa inclinação incansável pela manutenção de padrões estabelecidos. Enquanto seleções como a Bélgica, a França, a Croácia e até a Alemanha (mesmo com a eliminação na primeira fase) são equipes em beta, que se amoldam às circunstâncias do jogo e ao adversário jogo a jogo, nós preferimos impor nosso estilo, negligenciando as circunstâncias ou considerando-as improváveis. Reagimos tarde à inovação e a novas configurações. Claro que o trabalho atual deve ser mantido, porque há gente no comando que pode aprender lições e elevar seu patamar de exigências para reconduzir a seleção nacional ao grupo das realmente favoritas. Tão claro quanto o fim definitivo da era do improviso e da empresa baseada no carisma do dono está terminando.

O grande achado de mais este ano perdido é que o padrão de profissionalismo exigido das lideranças e das equipes para conduzir empresas nesse rallye acidentado, que é o mercado brasileiro, está mais elevado. Mesmo as tarefas mais simples, em negócios pautados pela informalidade, ganharam novos elementos de tensão: um simples pagamento pode ser feito em dinheiro, cartão de débito, crédito, na bandeira A, B, C, C, na maquininha do adquirente X, Y, Z, K ou W, com a inclusão do plano de milhagem 1, 2 ou 3, ou com vale-alimentação das marcas H, J ou L, pelo celular ou pelo meio de pagamento da empresa I ou da S… Cada transação resolve-se em segundos, porque os sistemas digitais rapidamente processam essas escolhas e alternativas e tornam natural esse procedimento. Mas quantas vezes paramos para pensar em tudo que um pagamento envolve?

Unindo o cenário desalentador da economia, o futuro nublado da eleição, os ensinamentos de mais uma derrota da seleção e a complexidade que demanda empresas cada vez mais profissionais, temos então a essência vital que pode aumentar as chances de o País reencontrar um caminho virtuoso: informação e conhecimento. Quantas de nossas empresas, pequenas, médias, líderes, startups ou scale ups, estão comprometidas com o trabalho dessas informações que pautam nossa realidade com suas equipes? Quantas explicam que os problemas enfrentados hoje são consequência de péssimas decisões tomadas no passado? Nossas lideranças empenham-se em engajar seus colaboradores em torno da cultura e de causas quando esquecem que a maioria das pessoas está, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, “preocupada com a janta”. E como é possível fazer com que estas garantam suas jantas?

O trabalho das lideranças não pode ser paternalista e tutelar como o da comissão técnica da seleção que encobria os erros de seu principal talento ou manter um atacante incapaz de fazer gols. Isso significa não omitir informações, falar de modo aberto com o time, sem exortações ou autoajuda. O Brasil precisa substancialmente ser mais profissional. O resultado das eleições de outubro dependerá fortemente da informação disponível ao eleitor. Boa parte desses eleitores trabalha em empresas. E cabe às lideranças circular informações qualificadas entre os colaboradores não para exercícios de proselitismo, mas para dar alguma consciência e base às escolhas que eles farão.

Precisamos de melhores decisões, em resumo. Precisamos inclusive nos dedicar a criar novos e melhores padrões para influenciar boas decisões. Isso exige empenho, dedicação, vontade das lideranças. Caso contrário, iremos pautar e lamentar o futuro modelado a partir das fake news e da polarização infantil e raivosa que campeia nas redes sociais. O resultado do jogo nesse campo serão só mais anos perdidos.






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