O incêndio no varejo de livros e o futuro das livrarias no Brasil

Assim como na queda de Alexandria, o centro do conhecimento do período helenístico, a crise das livrarias brasileiras é um misto de tragédia e revolução

O mercado de varejo de livros no Brasil está em chamas. Assim como o evento que dizimou a biblioteca de Alexandria, no século 1 a.C., o estopim que deu origem à crise no setor editorial no País não é um consenso.

É provável que uma sequência de incêndios e revoluções tenha jogado Alexandria num turbilhão do qual não conseguiu escapar. As chamas que assolam o varejo livreiro brasileiro são alimentadas pela crise político-econômica e pelos ventos da revolução tecnológica.

Nessa hecatombe, a luta tem sido para manter em pé os seus principais pilares: Saraiva – que fechou 20 lojas de uma só vez – e Livraria Cultura, que anunciou recuperação judicial.

Desde 2015, estima-se que a receita da Livraria Cultura tenha caído 30%. Mais de 40% da sua força de trabalho foi dispensada. Em outubro, a rede anunciou recuperação judicial e ganhou seis meses para arrumar a casa.

A última reunião do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), realizada na última sexta-feira (9), apontou que, só em dívidas em atraso com a classe, a Livraria Cultura tem R$ 90 milhões. A Saraiva, que anunciou o fechamento de 20 lojas pelo Brasil, tem dívidas atrasadas de R$ 100 milhões com os editores. Os números podem ser maiores porque ainda há dívidas para vencer.

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Para Cauê Seignemartin, sócio da editora independente Autonomia Literária, a crise no setor de livrarias vem se consolidando há algum tempo e, apesar de estar relacionada à queda nas vendas e à consequente redução do faturamento, está muito mais associada ao modelo de negócios. “O modelo pilar que as grandes livrarias montaram, que é um sistema de lojas e infraestruturas nababescas, em shoppings ou em lugares glamourosos, não se sustenta”, avalia.

O sócio da editora aponta que, apesar dos resultados preocupantes das varejistas, as editoras são as que mais sofrem com a crise. Ele atribui isso ao esquema que se criou no Brasil de consignação das vendas, que remunera as editoras apenas depois que o livro é vendido. Via de regra, as grandes varejistas têm de 60 a 90 dias para pagar as editoras depois de faturada a venda.

A explicação para o aumento das dívidas em atraso pode estar, segundo Seignemartin, em operações financeiras praticadas pelas varejistas. “Não teria por que não pagar uma mercadoria que elas já venderam. Se não estão pagando é porque o dinheiro foi reinvestido em algum lugar que não deu retorno. Elas usam esse ágio de até 90 dias para fazer esquema financeiro. Só que aí acontece um monte de coisas que estão fora do controle, como crises econômica e política ou mesmo a baixa Selic”, sugere.

Artes: Fernanda Pelinzon/ Grupo Padrão

Seignemartin afirma que a crise das grandes chega amortizada às pequenas editoras porque essas começam a trabalhar já focadas na venda a pequenas livrarias ou mesmo na venda direta ao consumidor. Dos 1.500 livros vendidos pela Autonomia Literária ao mês, um terço é venda direta. “Uma editora independente não pode viver para receber 120 dias depois. Nosso esforço de vendas nunca esteve nas grandes redes, mas nas pequenas livrarias e na venda direta, seja na venda pela internet – peer-to-peer – seja em evento”, detalha.

Sergio Herz, presidente da Cultura, afirma que as mudanças do varejo no mundo todo afetaram diretamente a livraria. “Em vários países nosso setor teve que se reinventar, por isso, e como é natural, estamos encarando os mesmos desafios por aqui. Com o agravante de ter que atravessar um cenário econômico-político muito desafiador”, pondera.

O executivo garante que a empresa já fez a lição de casa e planeja recuperar o crescimento depois de concluídos os ajustes. “Reduzimos nossa estrutura, renegociamos contratos com lojas. Hoje, atuamos somente em espaços com ótimos resultados e nossa operação on-line é forte”, diz Herz, que complementa: “os canais digitais terão cada vez mais preponderância e a loja física terá seu papel redefinido para um local que une experiência, cultura e entretenimento. O desafio é como ganhar dinheiro nesse novo modelo”.

A compra da FNAC, segundo Herz, foi um movimento para, entre outras coisas, melhorar a operação on-line da Cultura. “Estávamos interessados na operação on-line e na base de clientes da rede francesa no Brasil, algo bem relevante, além de ativos tributários e fiscais que têm seu valor, independentemente do resultado das lojas”, explica.

O fechamento da operação da FNAC no Brasil um ano e meio depois de ter sido comprada pela Cultura foi, segundo o executivo, resultado da “falta de visibilidade, tanto econômica quanto política, e quanto ao futuro do Brasil. Mas aprendemos muito (com a aquisição) e iremos introduzir parte do portfólio FNAC nas lojas da Livraria Cultura. Apesar de o plano não sair completamente como queríamos, acho que foi acertado”, avalia.

Além da herança da FNAC no on-line, a Cultura aposta na integração da Estante Virtual com o site da Livraria Cultura para ampliar seu portfólio. A ideia é criar um catálogo de 26 milhões de itens.

A Saraiva também acusou a crise econômica e os desafios operacionais, diante de um mercado em transformação, como os responsáveis pelos recentes fechamentos de loja. A empresa destaca que ainda mantém 84 pontos de venda físicos no País e que o e-commerce vem apresentando crescimento importante, “alcançando 38,4% do total de vendas da companhia no segundo trimestre de 2018. Esse resultado reflete o investimento na transformação do negócio”, avalia a empresa.

Editoras

Ao longo dos últimos anos, as grandes editoras criaram uma relação umbilical com as varejistas, em especial por conta da política de consignação de livros. Por isso, pagam o preço agora.

A Companhia das Letras é uma das que mais sofrem com a crise. A empresa havia vendido 45% das suas ações ao grupo inglês Penguin, em agosto. No dia 31 de outubro, concomitantemente aos anúncios de fechamento de 20 lojas da Saraiva e da recuperação judicial da Livraria Cultura, a editora anunciou a venda de mais uma parte importante de seu capital ao grupo inglês, que passou a ter 70% da empresa brasileira.

A distribuidora BOOKPartners é outra que foi atingida em cheio pela crise. A empresa, que já foi responsável por quase 20% dos livros científicos, técnicos e profissionais do País, pediu recuperação judicial em abril deste ano. A empresa é dona da varejista Cia. dos Livros. Uma das lojas da marca está dentro da Universidade Mackenzie, em São Paulo. O aluguel para operar dentro da universidade gira em torno de R$ 35 mil. Dos 50% recebidos pelas livrarias por cada livro vendido, 30%, na média, são usados para pagar o aluguel.

A Companhia das Letras vendeu 70% das suas ações à inglesa Penguin

O custo com imóveis se destaca na crise das grandes livrarias. A expansão da Livraria Cultura e da Saraiva se deu especialmente dentro de shoppings, o que agrava a situação por conta dos custos de locação nesses espaços.

A Livraria Cultura espalhou quase todas as suas 18 lojas por centros comerciais desse tipo, caminho que foi trilhado primeiro pela Saraiva, que tem como agravante o fato de ter criado uma rede de lojas físicas com mais de cem unidades.

Shoppings e gastos com locação

Entre os shoppings escolhidos para sua expansão, a Livraria Cultura deu prioridade para os de maior requinte, que recebem o público AB. A loja no Shopping Iguatemi, em São Paulo, foi inaugurada em 2013, ainda antes da crise. No ano anterior, uma pesquisa internacional da Cushman & Wakefield colocou o Shopping Iguatemi como o 12º ponto comercial com o maior aluguel do mundo e o primeiro do Brasil.

Livraria Cultura do Shopping Iguatemi

A Livraria da Vila, que também aumentou sua participação nesses pontos comerciais, teve que reestruturar suas operações para reduzir custos com locação. Uma das lojas mais importantes da rede, no Shopping Cidade Jardim, o segundo mais caro do País para lojistas, foi reduzida de 2.500 metros quadrados para apenas 300.

Esse padrão foi estendido a outras lojas da Livraria da Vila em shoppings. “Fizemos o mesmo movimento no JK e estamos fazendo agora no Higienópolis, com a mudança para uma área menor. O custo de ocupação em shopping é muito alto”, explica Flavio Seibel, CEO da Livraria da Vila. Hoje, sete das dez lojas da rede estão em shoppings.

Para o executivo, o mercado de livro não deve se recuperar de uma vez. A expectativa é que leve um tempo e que, cada vez mais, pequenas e médias livrarias aumentem sua participação no setor. O executivo avalia o que acontece com Saraiva e Cultura como “muito ruim. Se por acaso o mercado perde essas livrarias, a gente perde muito e vai demorar mais para sair da crise”, avalia.

Livraria da Vila, no Aurora Shopping, em Londrina-PR

Em uma jogada inesperada, a Livrarias Curitiba abriu cinco lojas em São Paulo em um ano. A rede do Paraná quer se distanciar da parte do mercado que sofre mais pesadamente com a crise. Em vez de apostar nos shoppings mais tradicionais e em regiões nobres, a rede lançou lojas em regiões mais distantes dos grandes centros, como Diadema e Taboão da Serra.

Em comunicado, a rede afirma que os resultados para esses investimentos são esperados para médio e longo prazos. Um número em especial pode justificar o movimento da Curitiba. Segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL), 40% das vendas de livros em lojas físicas estão fora dos grandes centros.

Mas o grande esforço da Livraria Curitiba tem sido para aumentar suas vendas no atacado, com a abertura de dois centros de distribuição, um em São Paulo e outo em Curitiba para atender em especial às vendas a mais de mil varejistas, que já representam 35% das vendas da rede.

O presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov, fala que o momento de varejo livreiro tem-se prolongado por conta da falta de soluções para a crise econômica brasileira. “Nesse movimento, a chave está na redução de custos fixos. De todo tipo. Infelizmente, o momento ainda recessivo da economia, que está se estendendo muito além do que as pessoas poderiam imaginar, está passando sua conta”, avalia.

Mudança de comportamento

Gurbanov afirma ainda que, para além dos problemas de gestão e macroeconômicos, o mercado livreiro passa por um momento de reajuste que contempla novas formas de consumo. Ele não vê uma redução do hábito de leitura, mas uma mudança na maneira como se lê. “Hoje se lê mais, só que essa leitura é mais fragmentada entre diversas plataformas. Entre elas está o livro, e tem sido cada vez mais difícil vender isso. O livro tem que entender o tempo do consumidor, que hoje é estimulado por conteúdos mais poderosos. A disputa pelo tempo é muito acirrada e o livro, à medida que requer concentração, tempo e atenção, acaba perdendo espaço”, explica.

Evandro Martins Fontes, diretor de Vendas da Martins Fontes, concorda com a visão de que a transformação no mercado livreiro não está só ligada à crise econômica e de gestão, mas é também uma simbiose de mudanças de comportamento e acesso a novas plataformas. “No smartphone, temos acesso a conteúdos diversos. Outro fator é a popularização do streaming. Hoje, você pode, a qualquer momento, assistir a um filme ou seriado. As séries se tornaram muito populares e isso rouba também o tempo da leitura”, lamenta o diretor.

A operação de varejo da Martins Fontes teve uma redução de 20 a 30% desde 2015. Porém, o grande negócio da empresa foi o que mais sofreu. A editora Martins Fontes perdeu 40% de vendas e faturamento desde 2015.

A editora foi fornecedora da Livraria Cultura por quase quatro décadas e sofreu com a varejista durante a derrocada que se acentuou em 2016. “Durante décadas, a Livraria Cultura nunca havia atrasado um pagamento sequer. Em outubro 2016, quando me dei conta do valor em atraso que eu tinha a receber, suspendi o fornecimento. Passei a receber somente por meio de cobrança cartorial”, revela Evandro.

Para o executivo, o que mais alimentou o fogo que derreteu o resultado das varejistas está relacionado às mudanças na gestão nos últimos 15 anos. “A situação na qual as empresas estão hoje é um reflexo direto da mudança no modelo de negócios”, avalia.

A Saraiva investiu em megastores e no aumento do mix de produtos, misturando livros com outros tipos de mídias mais modernas, como CDs e DVDs. Mas o que Evandro ressalta como decisivo para a derrocada da empresa é a compra da livraria Siciliano, que era a segunda maior do País, e a venda da editora Saraiva ao Grupo Somos, que tirou das mãos da empresa os resultados com as vendas de livros de Direito, que alavancaram a empresa nos anos 90.

O diretor da Martins Fontes lembra que, historicamente, uma enorme parte do que se produz de livros no Brasil fica parado no estoque das editoras, sem chegar às gôndolas do varejo. Com a crise das varejistas, a situação pode se agravar. “No mercado como um todo, somente 40% do que se publica no Brasil chega às livrarias. Com a crise da Cultura e da Saraiva, esse número deve cair”, aponta.

O firewall

De potencial destruidora do varejo de livros desde o lançamento dos primeiros e-books, a internet pode se converter na barreira para conter o incêndio que se alastra pelo setor.

Desde que impôs limites severos às grandes varejistas, a Martins Fontes precisou recorrer cada vez mais às vendas pela internet. O investimento da Martins Fontes tem sido, principalmente, na pulverização da sua produção via marketplaces. O site da editora está conectado aos espaços de Amazon, Submarino, Magazine Luiza, Mercado Livre, entre outros.

A participação das vendas diretas ao consumidor no total de faturamento da Martins Fontes deve saltar ao fim deste ano por conta da redução acentuada de vendas ao varejo. “A média histórica (de vendas on-line) é 20% do faturamento total, mas com a queda das vendas para a Saraiva e Cultura pode ter ultrapassado os 50%”, aponta Evandro. Os resultados serão consolidados ao fim do ano.

A crise da Livraria Cultura e da Saraiva passa ao mercado, como um todo, um ar de melancolia pré-catástrofe. Mas a tragédia não é inexorável. Bernardo Gurbanov, da ANL, diz que fechar operações pode ser mais caro que abrir e que os gastos envolvidos nesse momento de interrupção de operações físicas agravam o sentimento negativo. “Mas a manutenção de algumas lojas físicas requer esforços financeiros quase impossíveis de se sustentar em longo prazo”, avalia.

O fenômeno do comércio on-line, que hoje é visto como um dos cavaleiros do apocalipse do varejo, pode vir a ser a salvação para algumas livrarias. “O encolhimento da loja física não quer dizer encolhimento do consumo. Nos últimos anos, com a recessão, o consumo diminuiu, mas em longo prazo voltará a crescer, e o e-commerce vai permitir o acesso ilimitado”, aponta o presidente da associação de livrarias.

Sobreviver ao incêndio do mercado livreiro vai depender de quão bem as empresas do setor vão preparar seus bankers no mundo digital. O que restar das lojas físicas deve ganhar novamente o caráter de livraria-farmácia, abandonado no fim dos anos 90, quando o contato afetuoso com os livros foi dissipado nos átrios frios das grandes megastores.






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