O dilema do inovador

“Qual é a inovação possível fora do controle ou da influência de GAMFA (Google, Amazon, Microsoft, Facebook e Apple)?”

Por: - 4 meses atrás

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O senso comum indica que vivemos em uma era de mudanças profundas, na qual inovar é condição essencial. Mas convém olhar para a nossa realidade de forma mais cuidadosa. O Brasil reconhecidamente é um ambiente não muito pródigo na geração de inovação, porém, em uma perspectiva mais ampla, o ciclo de criação de inovações que presenciamos não se compara àquele vivido no fim do século 19 e início do século 20 – quando o mundo assistiu ao extraordinário avanço representado pela criação da indústria do automóvel, da siderurgia, do petróleo, das telecomunicações, da energia elétrica, da refrigeração, das campanhas de vacinação, do cinema, da transmissão por rádio e das ferrovias. Na verdade, o atual ciclo de inovações não pode sequer ser comparado ao que sucedeu o fim da segunda guerra, que nos legou a criação da sociedade de consumo de massas, com a chegada da TV, do ar-condicionado, da moderna construção civil, dos eletrodomésticos, da diversificação do sistema financeiro, do chip, do computador.

Basicamente, vivemos um ciclo de inovações baseado na transmutação de negócios criados a partir da perspectiva do pós-guerra no século 20 para novos padrões derivados da digitalização. A rigor, temos uma onda inovadora que se desdobra a partir da internet – inovação pensada e iniciada justamente no pós-guerra, como produto de segurança militar coordenado pelo exército em parceria com as universidades nos EUA – e que encontrou no smartphone a plataforma ideal para a criação de soluções e ideias que extraem valor de elos e partes ineficientes existentes em negócios incumbentes e tradicionais. Claro que a criação de empresas baseadas em plataformas digitais traz inquietação e desconforto ao mercado, ao mesmo tempo em que influencia e recondiciona alterações no comportamento do consumidor. O fato é que a grande novidade trazida pelos negócios digitais e pelas novas formas de comunicação foi justamente o empoderamento do consumidor. Ele tem mais voz, conecta-se em rede com outros consumidores, produz conteúdo, utiliza diversos canais para se comunicar e comentar suas impressões sobre produtos e serviços. Não por acaso, muitas das metodologias usadas pelas empresas para criar inovação partem da premissa de que o consumidor está no centro e é a partir dele que se desenham lançamentos e disrupções.

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Com a digitalização, outros fenômenos ganharam terreno fértil para se reproduzir: a aceleração que nos faz viver de modo mais veloz e nos condiciona a buscar atividades cada vez mais intensas, mesmo com a perspectiva de termos vida mais longa; e a polarização, que aglutina pessoas, cidadãos, consumidores em torno de polos homogêneos, limitando o debate e o exercício do contraditório como forma de construir consensos e ideias mais robustas. Esses fenômenos, combinados, acabam por limitar a criação de ecossistemas de inovação. Estamos no limiar de uma era que homogeneíza a busca por negócios diferentes, não necessariamente vinculados a aplicativos ou a outros formatos digitais. Essa homogeneidade se constitui na concentração de produtos e serviços desenvolvidos por um conjunto ínfimo de empresas, com poder jamais acumulado ao longo da história. Atualmente, o Google responde por 89% das buscas on-line. A Amazon responde por 44% do comércio eletrônico nos EUA. A Apple e o Google respondem por 99% do mercado de sistemas operacionais para telefonia móvel. Google e Facebook respondem por 63% do mercado de propaganda on-line. A Amazon detém 75% do mercado de livros eletrônicos. E o Facebook tem 94% do mercado de redes sociais, com usuários registrados. Toda essa concentração elimina empregos e uniformiza nosso comportamento digital: compramos na Amazon, fazemos buscas no Google, curtimos conteúdos no Facebook e no Instagram (que pertence à empresa de Mark Zuckerberg) e nos comunicamos pelo WhatsApp (também parte do Facebook), usamos os softwares da Microsoft para o trabalho, o Skype (da mesma Microsoft) para comunicação e fazemos downloads da Apple Store (mais de 175 bilhões em dez anos). Dado esse contexto, a pergunta inevitável: qual é a inovação possível fora do controle ou da influência de GAMFA (Google, Amazon, Microsoft, Facebook e Apple)?

Esse é o dilema do inovador atualmente: em vez de pensar em soluções capazes de criar novos negócios, ou aprimorar as empresas nas quais trabalhamos, fora do âmbito digital, os modelos de negócios que surgem estão fortemente embutidos nos padrões delineados pelo poder das Big Techs. Logo, é até possível fazer uma provocação e repetir o raciocínio de Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York e maior crítico do monopólio das Big Techs, de que vivemos uma era de “não inovação”.

De todo modo, é preciso reconhecer que as bases de competição estão mudando e que nosso País entra, como é de praxe, com atraso nesse campo. Nesta edição, trazemos nosso primeiro ranking de 100 Empresas Inovadoras, no âmbito do Prêmio Whow! de Inovação, estudo modelado com a integração de metodologias desenhadas pela DOM Strategy Partners em parceria com o Centro de Inteligência Padrão – CIP, e o uso da Inteligência Artificial da Stilingue, com avaliações de 11 grandes especialistas do nosso mercado. Um esforço notável que será continuamente aprimorado ao longo dos próximos anos, no melhor espírito que fundamenta a produção das melhores inovações. Queremos apoiar quem produz inovação em nosso País superando todas as adversidades e hostilidades de nosso mercado.

A inovação não pode ser um processo restrito somente à criação e à modelagem de negócios baseados nos parâmetros da indústria digital. Ela pode e deve ser aplicada como sistema indutor de melhorias e disrupções em processos, na gestão, no desenvolvimento de talentos e na produção de conhecimento tácito que impactem mercados e até mesmo as sociedades. A amostra do ranking das 100 Empresas mais Inovadoras é um belo conjunto dessa diversidade que caracteriza a inovação. É, sobretudo, mais um passo na formação de um ecossistema real de empresas e instituições que produzem ideias inovadoras. Quanto mais pudermos identificar, reconhecer e valorizar práticas e iniciativas, sistemas e conceitos, produtos, processos e serviços que tenham DNA inovador, melhor para o País.

O dilema e o desafio de quem se propõe a inovar é ir além do fetiche da criação de um app. É entender que a inovação é um modelo para resolver problemas. Pois não faltam problemas para resolvermos em nosso País, em nosso mercado, em nossas empresas e em nossa vida. Ou seja, oportunidades não faltam para quem acredita no poder da inovação.