A dualidade do novo consumidor: sua empresa está preparada para reconciliar o irreconciliável?

Em artigo, Ana Bavon – fundadora do Feminaria -, fala sobre dilemas de um consumidor muito mais exigente com as marcas que escolhe consumir. Confira

Por: - 3 meses atrás

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Paixão pela sociabilidade e paixão pela individualidade – a dualidade do novo consumidor exige das empresas soluções que atendam seus desejos demasiado humanos. Minha pergunta é: como é possível gratificar satisfatoriamente o consumidor moderno?

Há algum tempo observamos a evolução do comportamento de consumo em duas direções: a do imediatismo e da exclusividade. A tecnologia sem dúvida é a maior aliada das empresas no atendimento dessas demandas, a inteligência artificial em suas infinitas possibilidades atende com maestria a demanda por agilidade, já a segunda fica por conta dos algoritmos, sempre aptos a atender – ou criar – desejos que o consumidor sequer conhece.

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Superados esses desafios nos deparamos agora com um consumidor que decidiu olhar para dentro de si e questionar suas escolhas; nasce agora o consumidor que, consciente de suas contradições, deseja sociabilidade e individualidade, ele deseja pertencer ao grupo e ao mesmo tempo manter sua privacidade se destacando dele.

Contradições demasiado humanas

Veja que nesse artigo não pretendo fornecer a fórmula para atender esse consumidor, mas com certeza vou te conduzir no caminho da investigação, te ajudar a fazer as perguntas certas que inclusive podem ser mais importantes que a resposta.

Essas características conflitantes que levam as marcas a tentação de prometer reconciliar o irreconciliável e com isso gratificar dois anseios humanos, foi uma característica analisada e constatada por Simmel em seus estudos sobre a filosofia da moda, e certamente não estão – ainda -no radar da tecnologia, podendo dificultar a criação de estratégias que atendam com satisfação esse novo consumidor.

Se por um lado a vontade de pertencer a uma comunidade e se ver espelhado no outro ainda é um dos maiores desejos do consumidor, de outro lado o autoconhecimento urge pelo reconhecimento da sua subjetividade e idiossincrasia, é aqui nesse abismo entre uma demanda e outra que posicionaremos nosso diálogo.

Precisaremos encontrar caminhos para criar relações mais íntimas com os consumidores, mas sem parecermos invasivos preservando a necessidade de distanciamento que essa individualidade demanda. Vejamos que, ao passo que se abrem para autodescoberta esses consumidores passam a preservar e se preocupar com o uso de seus dados na rede, bem como com os efeitos nocivos das muitas telas em sua saúde, portanto, esse consumidor poderá dificultar o trabalho da inteligência artificial no atendimento e descobertas de seus desejos.

Um novo relacionamento baseado na confiança

Se já concordamos que além de transparentes, empresas precisam pensar em um mundo em que real e digital estarão constantemente intercalados. Agora precisamos que esse consumidor aposte na nossa proposta nos gratificando com sua confiança

A maioria dos consumidores americanos diz ser contra o uso de seus dados por sites ou apps que oferecem anúncios. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo instituto Pew Research Center revelou que cerca de um quarto 26% dos usuários do Facebook nos Estados Unidos optou por deletar dos seus celulares o aplicativo da rede social no período de um ano.

Esse desejo e busca pela privacidade já mudou a forma com que empresas lidam com os dados dos consumidores, exatamente como observamos neste momento na CES – maior feita de eletrônicos dos EUA, lá a privacidade é não só o assunto como o produto de maior busca nesse ambiente, sendo levantada como bandeira inclusive pela Apple.

Fornecimento de dados é a ressignificação da confiança e influenciará diretamente os desejos dos clientes e toda a estrutura do processo de vendas.

Pistas para reconciliação

Se a confiança depositada será o caminho para atingir o consumidor, é mandatório que possamos criar uma relação mais profunda com o cliente, analisar as variadas formas de fazer isso é um dever e não uma escolha.

Pensemos no produto que fornecemos e qual é a relação afetiva do consumidor com esse bem, a partir dessa constatação construir estratégias que ajudem o consumidor na sua jornada de autoconhecimento criando conexões mais profundas é uma forma de manter-se ao lado dele e ganhar sua confiança.

Por outro lado, não podemos esquecer que o desejo de pertencimento e visibilidade ainda existe, e é nesse sentido que de co-optar, de forma genuína, uma causa que conecte com questões-chave de forma alinhada aos valores, convicções e práticas do consumidor vai garantir que a marca avance em suas estratégias.