Confiança na era dos dados superpoderosos: um dilema insolúvel?

A revolução dos dados vai impactar cada aspecto de nossas vidas. Mas isso irá aumentar na confiança entre pessoas, empresas e nas demais instituições?

Por: - 1 mês atrás

Crédito: Jacques Meir
Os avanços no machine learning e na análise preditiva estão abrindo oportunidades sem precedentes para abordar problemas importantes com novos enfoques. Dados podem trazer Insights para estratégias de marketing, contratação de pessoas, condenação criminal, admissões em faculdades e diagnósticos médicos. Se você considerar essas mudanças dramáticas em sua visão pessoal ou no contexto de eventos nacionais e globais, poderá concluir que esse cento em mutação gera novos riscos e abre questões e dilemas em potencial sobre o uso, a segurança e a governança dos dados. Como desenvolvedores e consumidores de tecnologia, temos a oportunidade e a responsabilidade de garantir que o respeito à integridade e à privacidade, bem como à própria humanidade, sem preconceitos, permaneçam como os principais pontos sensíveis para a implementação e uso intenso de novas tecnologias. Rebecca Heironimus, Vice-presidente da Capital One, Will Hurd, deputado pelo Texas, do Congresso dos EUA, Tess Posner, CEO da AI4ALL e uma autêntica empreendedora social, conversaram sobre essas questões no SXSW, mediados por Andy Navarette, Head de assuntos externos da Capital One.
A questão tecnológica está no radar do governo e do Congresso norte-americano. O poder desmesurado das Big Techs, seu alcance na captação e uso indiscriminado dos dados, as questões referentes à privacidade e à confiança estão na pauta de conversações. Rebecca Heironimmus diz que a confiança é um conceito que precisa ser defendido em termos claros. As empresas, particularmente os bancos precisam ter acesso aos dados dos clientes e em troca oferecer valor real a eles. Mas qual é a noção real de valor dos dados? Will Hurd, na condição de deputado trouxe dados impressionantes: mais da metade dos americanos jamais atualiza seus dados cadastrais nos birôs de informação de crédito (Equifax nos EUA, Experian no Brasil, por exemplo), mas concedem acesso à sua privacidade alegremente a plataformas sociais. Tess Posner, complementa: 84% dos americanos interagem com IAs e provavelmente não sabem, e alegremente terceirizam suas decisões para esses sistemas. Nenhuma surpresa nesses números, pois, segundo Navarrete, vivemos uma espécie de “economia dos dados”, e a moeda claramente é a informação.
A sociedade de maneira geral está educada para lidar com os dados, com a forma pela qual empresas e os governos lidam com nossas informações? De maneira geral, os consumidores parecem não entender a complexidade da concessão e do uso dos dados – quantos de nós lemos as políticas de cookies que os sites apresentam? Como sabemos, os cookies são sistemas que monitoram nossa navegação e produzem dados a partir de nossas interações digitais.
Regulações diferentes
Será que negócios diferentes, por suas características particulares devem receber regulações diferentes? Talvez os serviços financeiros, pelas sua natureza possa ser objeto de regulação específica. A Europa adotou recentemente sua legislação de proteção de dados – GDPR, seguida por outros países, como o Brasil, que terá sua LGPD vigente em agosto de 2020.
Bancos sempre se preocuparam com a privacidade dos dados dos clientes e de certa forma consideraram qual a melhor forma de usar essas informações a serviço dos próprios clientes, como mudança periódica de senhas, uso de tokens e dispositivos externos e recursos biométricos. Ainda assim, é preciso reiterar que a educação é fator essencial. As pessoas têm consciência do quanto não sabem acerca da forma pela qual empresas e o próprio governo usam seus dados? Se terceirizamos nossas decisões para sistemas de IA, não estamos entregando nosso livre-arbítrio para o crivo de um grupo muito pequeno de desenvolvedores espalhados em poucos lugares do mundo? Os viéses de um programador podem decidir melhor que eu onde investir ou para quem devo doar dinheiro?
IA democratizada
Diante de tantos desafios, os benefícios da IA podem estar disponíveis para a maior parte dos cidadãos e comunidades? Este o objetivo de atuação da IA4ALL, diversificar a Inteligência Artificial, criando alternativas de educação, assumindo que educação e saúde são a parte principal e essencial das soluções que essa tecnologia deve oferecer para as pessoas, de forma que se torne inclusiva, acessível e democrática. Isso porque as aplicações de IA podem sim limitar o acesso das pessoas comuns a serviços e abrir um fosso que irá separá-las de uma elite versada no uso desenvolto dos sistemas.
Vale lembrar: dados têm valor e por isso mesmo, a tendência é ver empresas fechando-se em torno dos dados que ela possui. Mas da mesma forma que as informações dos clientes estão disponíveis em nome da transparência, as empresas precisam exercer uma atuação colaborativa, para oferecer maior confiabilidade, segurança e controle dos dados para os clientes. É necessário que os padrões de governança de dados sejam seguidos por toda a indústria, e que todos estejam adequados a futuras regulações.
E o futuro?
Governos, empresas e sociedade precisam construir, definitivamente, um sistema ético para os dados. Um sistema capaz de trazer confiança quase absoluta na gestão dos dados, proteger a privacidade das pessoas, dar a elas conhecimento para compreender como o acesso aos dados e a privacidade sermão tratadas pelas empresas. Na opinião de Will Hurd, o governo precisa funcionar como uma ponte que faça com que empresas e instituições tenham mais confiança mútua, visão compartilhada por Rebecca. O horizonte de 5 anos deve trazer um novo padrão global de uso seguro, protetivo e responsável dos dados. Nesse horizonte, veremos a implantação das redes 5G, a popularização de veículos com grande autonomia, a divisão clara entre duas internets – a ocidental e a asiática e como isso afetará a economia global e a captura e gravação dos dados.