Muito além dos benefícios: o que traz felicidade aos funcionários?

Os profissionais das novas gerações – cada vez mais avessas ao tédio – buscam bem-estar e propósito em tudo aquilo que fazem. Confira

Por: - 7 dias atrás

Uma condição ou um estado de espírito? A felicidade, para especialistas no tema, é um sentimento profundo de satisfação. E isso não significa se sentir bem a todo o momento, mas sim saber que as insatisfações fazem parte da vida, sejam elas pessoais, sejam profissionais. “As pessoas costumam confundir felicidade com euforia. A primeira está em nós. Já a segunda depende de um estímulo externo”, diz o pensador Fabrício Carpinejar. Em suma, a euforia está vinculada àquilo que uma pessoa tem; enquanto a felicidade é um reflexo daquilo que ela é. “A felicidade improvisa. E isso reduz – e muito – o nível de frustração”, diz o especialista.

E como isso impacta as empresas? É simples. Diversos estudos mostram que pessoas felizes trabalham melhor, são mais saudáveis, produtivas, resilientes e leais. Se antes a relação entre empregado e empregador se baseava na troca de mão de obra por remuneração, hoje presenciamos um ressignificado da palavra trabalho. O formato, em si, não mudou muito. Na prática, a maioria das pessoas ainda trabalha 40 horas semanais em um escritório, mas é dentro dele que as transformações acontecem.

Confira a edição online da revista Consumidor Moderno!

Não à toa, cientistas, psicólogos e sociólogos vêm se debruçando sobre o tema para compreender o papel que o trabalho assumiu na vida das pessoas. Uma das constatações é a de que, mais do que oferecer pufes, videogames e áreas de descompressão, atingir a felicidade no ambiente profissional exige uma compreensão muito maior do estado emocional do colaborador. O assunto vem sendo levado tão a sério que algumas empresas criaram até o cargo de Chief Happiness Officer (CHO). Sim: diretores de felicidade.

A busca pelo propósito

Diante das novas gerações, como a Y e a Z, cada vez mais avessas ao tédio e com sede de propósito, o desafio das empresas para motivar os colaboradores é ainda maior. “Falar de propósito pessoal é muito subjetivo, ainda mais quando o assunto se relaciona com a felicidade no ambiente corporativo”, diz Wilson Lima, head de Recursos Humanos da Youse. Para o executivo, um dos primeiros passos é o “match” perfeito na hora de escolher o candidato. “A empresa pode ter o melhor ambiente do mundo, mas contratar a pessoa certa para a vaga errada pode ser fatal. Por isso, acredito que o ‘core’ da área de recursos humanos seja iniciar o processo de contratação de forma correta para evitar frustrações futuras de ambos os lados”, completa.

Projetado pelo arquiteto Guto Requena – o mesmo do Google –, o escritório da Youse, em São Paulo, foi pensado para que todos trabalhem de forma harmônica. “Todo o ambiente é dividido em squads (equipes multidisciplinares que atuam em cada produto). Isso não só dá mais agilidade às entregas como favorece a interação entre as equipes”, explica Lima.

Um dos maiores varejistas do País, o Carrefour criou para os funcionários o Bem Cuidar, um programa que beneficia os mais de 40 mil colaboradores a partir de três pilares: saúde, equilíbrio e social. As ações incluem de campanhas de vacinação contra a gripe à extensão da licença-maternidade de 120 para 180 dias e, da paternidade, de 5 para 20 dias. “No Carrefour, acreditamos que iniciativas como esta são fundamentais para garantir o bem-estar, o desenvolvimento profissional e a produtividade dos nossos colaboradores”, afirma Alexandre Espinosa, diretor de RH Corporativo do Carrefour Brasil. Reconhecida por suas políticas de valorização da diversidade, a empresa acredita ainda que esse conjunto de ações se reflete no atendimento prestado ao consumidor. “Nós temos o maior programa trans do mercado. Essa diversidade é importante porque os clientes são diversos e, assim, conseguimos atendê-los da melhor forma”, garante Paula Cardoso, CEO do Carrefour e-Business Brasil.

Inovações na mesa

A preocupação com o bem-estar no ambiente corporativo veio ao encontro do aumento de doenças relacionadas ao estresse nas organizações. No Brasil, 70% da população economicamente ativa sofre com algum tipo de estresse relacionado ao trabalho e, segundo a Organização Mundial da Saúde, 30% dos trabalhadores do planeta apresentam transtornos de ansiedade, estresse ou depressão. São as chamadas doenças silenciosas.

O banco espanhol Santander, por exemplo, lançou práticas pelo bem-estar psicológico de seus funcionários. Vivian Rodrigues, superintendente-executiva de RH do banco, explica que esse monitoramento é feito de forma constante. “O gestor percebe que tem um funcionário que está com algum problema e precisa de apoio. Entro em contato com a central com a qual temos assistências psicológica, financeira e jurídica. Se o funcionário estiver de acordo, desenvolvemos um plano”, diz.

Para cuidar da saúde mental dos colaboradores, o Bradesco Seguros também criou o projeto. O LIG Viva Bem é um serviço de atendimento psicológico profissional confidencial. “O programa fornece orientação e aconselhamento para seus colaboradores e dependentes. Ele surgiu com a proposta de resolver problemas pessoais, familiares, legais e financeiros fora do ambiente de trabalho e, assim, diminuir o impacto dos problemas do dia a dia. Sabemos que o bem-estar impacta todas as esferas do ser humano”, diz Juliano Marcílio, diretor de Recursos Humanos do Grupo Bradesco Seguros.

Enquanto isso, na operadora de telefone Vivo, a solução encontrada para encorajar seus colaboradores a um momento de reflexão foi a meditação. Por dia, entre 50 e 60 funcionários marcam presença na sala de meditação, além de dois grupos fixos. “A iniciativa da sala de meditação está ligada ao posicionamento da Vivo que, como marca, quer incentivar seus clientes a viver menos do mesmo, encorajando-os a aproveitar aquilo que importa para cada um. Como acreditamos que esse posicionamento vem de dentro para fora, criamos a sala de meditação, para incentivar nossos colaboradores a buscar autoconhecimento, tanto pessoal quanto profissional, para viver e valorizar o que importa de verdade”, explica Fernando Luciano, diretor de Talentos e Inovação da Vivo. 

Na Sodexo, até o repertório cultural do colaborador recebe atenção. “Fizemos uma convenção em Foz do Iguaçu para as pessoas conhecerem a cidade. Muitos estavam viajando de avião pela primeira vez. Não falamos apenas de novos cargos, mas também de situações que abrem um mundo novo e aumentam o repertório do colaborador”, explica Aline Tieppo, head de Comunicação Interna e Diversidade e Inclusão da Sodexo Benefícios e Incentivos. Segundo ela, criar oportunidades para que o colaborador possa ser reconhecido não só pelo seu chefe, mas também pelos seus pares, é outra preocupação do Grupo.

Melhorar o engajamento dos colaboradores foi um dos grandes desafios da EDP. Dos 14 países em que a companhia elétrica está presente, o Brasil aparecia em último nesse quesito. Foi quando a empresa resolveu reunir 1.700 colaboradores voluntários para definir as diretrizes de um projeto chamado de “Cultura EDP”. Com as iniciativas, entre elas projetos voltados à educação e à saúde, foi dado o primeiro passo para a humanização da EDP. “Após a ação, fomos para o primeiro lugar, o que mostra o sucesso do projeto. Esse movimento foi demandando a necessidade de alinhar o lucro com o que chamamos de qualidade com foco no cliente”, explica Luis Gouveia, diretor de Organização da companhia. “Quanto mais feliz o colaborador está, mais crescem os bons indicativos. Isso porque, quando ele não está satisfeito, não dá o seu melhor. A felicidade de quem trabalha conosco retorna de várias formas para a empresa e para a sociedade”, conclui.

VP de Gente e Cultura da RD, Maria Susana de Sousa concorda. Há dois anos, a empresa farmacêutica deu início a uma nova etapa em sua cultura organizacional. Em consonância com a missão “Gente que Cuida de Gente”, redefiniu o nome do setor de RH para Gente e Cultura. Com mais de 36 mil funcionários, a empresa apostou em treinamentos e canais abertos com as lideranças. “Em 2018, por exemplo, foram mais de 5.300 promoções e 35 mil pessoas treinadas. Temos uma plataforma de ensino a distância, o Portal do Saber, disponível para todos os funcionários”, conta.

Uma das maiores empresas de contact center do mundo, a Atento – líder em serviços de gestão de clientes e terceirização de processos –, disponibiliza programas de Mentoring, Coaching, além da Academia e da Universidade Atento, ambas com metodologias específicas para o desenvolvimento profissional e pessoal. “O ambiente de trabalho torna-se um meio, um facilitador. Criamos uma cumplicidade entre empresa e colaborador”, diz Elaine Terceiro, superintendente de Comunicação Interna, Ouvidoria, Responsabilidade Social e Engajamento da empresa.

Sempre visto como um ambiente rigoroso em relação ao dress code, o setor bancário começa a desconstruir esse estereótipo. O banco Itaú Unibanco, por exemplo, já permite que seus 86 mil funcionários se vistam como acharem melhor. Ancorada pelo mote “Vou como Sou”, a novidade se estende a todas as áreas da instituição. “Existe uma preocupação genuína em deixar o profissional mais à vontade e mais feliz durante sua jornada de trabalho. Pessoas felizes são profissionais melhores e, por isso, nossos gestores estão cada vez mais atentos ao que nossos colaboradores têm a dizer sobre a experiência deles no banco”, explica Sergio Fajerman, diretor-executivo da área de Pessoas do Itaú Unibanco.

De acordo com o executivo, as ideias trazidas por Jacob Morgan em sua obra “O Futuro do Trabalho: Atraia Novos Talentos, Construa Líderes Melhores e Crie uma Organização Competitiva” serviram de inspiração para outras mudanças. “Procuramos estruturar a experiência do colaborador em três pilares: ambiente físico, cultura e tecnologia. Preciso oferecer o melhor em cada um desses aspectos para maximizar a experiência do profissional aqui no banco, de forma que ele consiga entregar seu melhor”, diz.

Com proposta semelhante, a Mastercard também desenvolveu ações que se preocupam com o colaborador fora do ambiente corporativo. “Para auxiliar seus funcionários a encontrarem propósitos de felicidade em suas funções, a Mastercard criou o programa The Whole You (Você por Inteiro), cujo objetivo é contribuir de forma relevante para atender às demandas dos colaboradores a partir do entendimento de que cada pessoa tem a sua jornada dentro e fora do ambiente de trabalho. Para chegar neste modelo, a Mastercard identificou o perfil dos colaboradores em grupos e estruturou uma política ampla de benefícios”, explica Fabiana Cymrot, VP de Recursos Humanos da Mastercard para Brasil e Cone Sul.

Uma nova ideia de felicidade

O conceito de felicidade alinhado ao consumo perdeu força. Para Heloísa Capelas, escritora especialista em autoconhecimento e processos transformativos, essa relação mudou e a busca pela felicidade se tornou uma obsessão. “Hoje, com as facilidades na aquisição de bens materiais, os sonhos mudaram e as pessoas estão se perguntando o que mais se faz na vida, fora a conquista material, para serem felizes”, explica.

Autora do livro “O Mapa da Felicidade”, Heloísa diz que existe uma relação direta entre pessoas felizes e produtivas. “Os estudos mostram que pessoas felizes trabalham melhor e rendem mais. Hoje, a busca é por fazer algo que seja útil, produtivo e agradável. O que as pessoas buscam é algo que gostem e as façam felizes e esse tema precisa ser conversado nas corporações para alinhamento de propósito entre todos”.

Para Monica Hauck, CEO da Solides – software de gestão de pessoas –, a definição de felicidade foi reinventada pelos Millennials. “Essa geração precisa dessa sensação de mais plenitude e bem-estar. Isso é um valor muito forte para essa geração, que vem com um conceito no qual o trabalho é um lugar onde ela precisa se sentir feliz. As empresas acabaram de se adaptar a esse novo contexto”, diz. A executiva também acrescenta que a felicidade depende de outras variáveis: “Quando se fala de felicidade no trabalho, acho que também é uma questão individual e não podemos controlar todas as variáveis”. Isso mostra que a felicidade é, sim, não só um estado de espírito como uma responsabilidade compartilhada.