Grilos? Por que não? Veja como pode ser o nosso futuro sem carne

Soluções de startups mostram que é possível produzir alimentos ricos em proteína com baixo impacto no meio ambiente

Por: - 5 dias atrás

Kelp Jerk, snack feito de algas marinhas / Divulgação

De outubro a dezembro do ano passado, 8,09 milhões de cabeças de gado foram abatidas no Brasil. No mesmo período, o abate de suínos superou a marca de 11 milhões. Os dados do IBGE também revelam que 1,42 bilhão de cabeças de frango foram abatidas.

Os alimentos de origem animal são ricos em proteína e estão presentes no cardápio da maioria da população global. No Brasil, porém, há quem abra mão da carne ou de qualquer alimento de origem animal e busque outras fontes de proteína, ferro e vitaminas B6 e B12. Segundo o Ibope, 30 milhões de brasileiros (ou 14% da população) declaram ter excluído a carne do cardápio.

A pesquisa divulgada no ano passado mostrou o interesse da população por mais produtos veganos. Isso porque, mais de a metade dos entrevistados (55%) disse que consumiria mais produtos livres de qualquer ingrediente de origem animal caso eles estivessem melhor indicados na embalagem.

A Global Footprint Network realiza, desde 1970, um cálculo que determina o dia em que a humanidade já consumiu todos os recursos naturais que o planeta é capaz de renovar em um ano. Na primeira vez em que o cálculo foi feito, a humanidade ficou “no vermelho” em dezembro. No ano passado, em agosto.

Mudança de hábito

Uma pesquisa da Kantar Worldpanel mostrou que 27% das famílias brasileiras fizeram alguma mudança em seus hábitos alimentares. Os brasileiros declararam ter aumentado o consumo de frutas e sucos naturais, além de diminuir o consumo de carne vermelha, açúcar e refrigerante. Todos os tipos de carne apresentaram queda de volume em 2018 na comparação com o ano anterior.

Infográfico: Arte / Grupo Padrão

“Já faz algum tempo que a saudabilidade tem sido um fator importante na hora das compras não só no Brasil, mas em todo o mundo. Agora, o movimento ganha mais força”, afirma Giovanna Fischer, diretora de marketing e consumer insights da Kantar Worldpanel.

Substitutos da carne

Nos últimos quatro anos, a maior produtora de carnes do mundo em valor de mercado, Hormel, gastou US$ 2,9 bilhões em aquisições. A empresa comprou outras produtoras e aumentou sua participação de mercado. A JBS, terceira em valor de mercado, se mantém como o grande player brasileiro.

Mesmo com o domínio, as grandes empresas devem olhar com atenção para as startups que prometem revolucionar o mercado. Além disso, os consumidores exigem, cada vez mais, uma postura ética das companhias, seja qual for o setor da economia. Neste contexto, as produtoras de carne precisam mostrar que têm um impacto positivo para o meio ambiente ou, pelo menos estão reduzindo os danos causados à natureza.

Por causa da demanda por transparência radical, fim dos maus tratos a animais e aumento da procura por produtos veganos, startups surgem para preencher algumas lacunas. Essas empresas usam a tecnologia para desenvolver alimentos ricos em proteínas mesmo sem usar nenhum ingrediente de origem animal.

Para substituir a carne, as startups recorrem a plantas e insetos. Empresas como as norte-americanas Chapul e Exo utilizam grilos como fonte de proteína. A Chapul faz barras de chocolate, banana e coco que têm o inseto na lista de ingredientes. Além disso, a empresa produz proteína desidratada ao estilo Whey Protein.

Reprodução

Já a Exo vai além e vende grilos assados inteiros. A empresa descreve o inseto como “a coisa mais próxima da fonte de proteína perfeita que esse planeta já viu”. As avaliações das pessoas que compraram o produto são positivas. Dos 40 feedbacks que o produto recebeu, apenas três avaliam os grilos assados como ruim ou péssimo.

Tabu

Para os brasileiros, comer insetos está longe de ser um hábito. Nos Estados Unidos, os insetos também não fazem parte do cardápio. Segundo a CBInsights, 40% dos consumidores norte-americanos não comeriam insetos mesmo sabendo de seus benefícios para a saúde. As empresas que usam os bichos em seus produtos defendem que o ingrediente não é muito diferente de crustáceos como camarões e lagostas. No mundo, cerca 1.000 espécies de insetos são consumidas por 80% das nações.

Refeição completa

Já a francesa Feed aposta em barrinhas e shakes veganos que podem substituir uma refeição. Os produtos não dão trabalho para os clientes, para preparar o shake, basta apenas agitar a solução. Além de veganos, os alimentos são livres de glúten e lactose.

“A Feed revolucionou o mercado de FoodTech francês. Nós vendemos mais de 30.000 refeições por dia e distribuímos nossos produtos em 2.500 varejistas”, conta Anthony Bourbon, CEO e fundador da Feed. Bourbon conta que criou a empresa quando trabalhava muitas horas por dia e não tinha tempo para preparar uma refeição saudável.

Divulgação

Os produtos da Feed são feitos com sementes de linho proteína de ervilha e frutas e legumes liofilizados. Bourbon explica que as refeições foram desenhadas para dar uma sensação de saciedade por mais tempo e lembra que os produtos são acessíveis – um shake que substitui uma refeição comum custa € 3,90 (R$ 16,84) “Nossa intenção é garantir que as pessoas pensem duas vezes antes de visitar uma rede de fast-food”, diz Bourbon. 

Para Bourbon, empresas como a Feed vão dominar o mercado de alimentos na próxima década, desbancando as gigantes que atualmente dominam o seguimento. “Já vimos pequenos players dominarem outros setores. Há uma grande chance de que o mesmo fenômeno aconteça na indústria alimentícia”, prevê.

Akua

Uma das startups que encontrou uma fonte alternativa de proteína é a Akua. A empresa norte-americana cria snacks a partir de algas marinhas. No próximo dia 15, a companhia lança seu primeiro produto: o Kelp Jerk. Rico em nutrientes e proteína, ele é feito com alga marinha do tipo Kelp. Courtney Boyd Myers, fundadora da Akua, conversou com a Consumidor Moderno sobre o papel da empresa no futuro da alimentação, confira:

CM: Como você pensou em uma solução baseada em plantas marinhas?

Courtney: Depois de trabalhar com a GreenWave, uma organização sem fins lucrativos, e aprender sobre os inúmeros benefícios econômicos, ambientais e de saúde da alga marinha cultivada, fui inspirada a aprender o que poderíamos fazer com o produto na esperança de criar um mercado consumidor para a alga marinha. O resultado foi o Kelp Jerk.

CM: Como o Kelp Jerk é produzido?

Courtney: Nós obtemos toda a nossa alga marinha de fazendeiros oceânicos no Maine (estado norte-americano), depois branqueamos a alga marinha e a misturamos com outros superalimentos deliciosos antes de desidratá-la em snacks.

CM: Quais são os benefícios do Kelp Jerky?

Courtney: O Kelp Jerky é um lanche delicioso, rico em nutrientes e altamente proteico feito com alga marinha colhida local e sustentavelmente, cogumelos shiitake de alta qualidade e superalimentos. Tem 10 gramas de proteína, 10 gramas de fibra e é muito pobre em açúcar. Kelp é uma das mais abundantes algas do planeta. Está cheia de vitaminas e minerais como Vitamina A, Vitamina E, Tiamina (B1), Riboflavina (B2), Ferro, Iodo, Cálcio, Potássio, Magnésio e Zinco.

Courtney Myers, fundadora da Akua / Divulgação

CM: Por que as pessoas devem comê-lo em vez de um lanche comum?

Courtney: Ao escolher o Kelp Jerky, você pode saber que está comendo uma das comidas mais sustentáveis ​​do planeta!

CM: Como você vê a relação entre lucro e saúde? A Akua tem uma iniciativa muito nobre, mas vai conseguir ser bem sucedida?

Courtney: Sim, podemos ter sucesso. A mentalidade dos consumidores em torno das escolhas alimentares está mudando e, portanto, onde as pessoas gastam seu dinheiro está mudando. Mais e mais pessoas estão escolhendo alimentos à base de plantas e estão questionando o que significa comer de forma sustentável.

CM: Empresas como Akua, com um propósito, substituirão as gigantes do setor?

Courtney: Não tenho certeza se substituir é a palavra certa, já que o que estamos vendo hoje é que as gigantes de alimentos estão comprando empresas como a AKUA porque estão perdendo participação de mercado à medida que o comportamento de compra dos consumidores muda. Então essas empresas menores estão se beneficiando do poder de distribuição da empresa maior.

Levará muito tempo para ver um gigante como a Coca-Cola ou a Pepsi cair, mas esperamos que essas empresas possam corrigir isso antes e decidir não mais vender refrigerantes açucarados. Em 100 anos, ou as empresas “com um propósito”, como você diz, irão reinar, ou nosso planeta provavelmente estará em total devastação ambiental.