A diferença entre trabalhar muito e trabalhar bem

Um dos grandes desafios do atual mundo do trabalho é saber administrar o capital humano – muito mais que o financeiro

Causou certa polêmica o artigo publicado pelo jornal Global Times, do governo chinês, no início de dezembro, dizendo que o brasileiro não está disposto a trabalhar como os cidadãos da China. Assinado pelo editorialista Ding Gang, que morou no Brasil por três anos, o artigo foi uma resposta a um texto de final de novembro do The New York Times, que usava o exemplo da decadência da economia brasileira nos últimos anos para justificar uma possível desacelerada no desenvolvimento chinês.

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“O país [Brasil] não tem vocação para a indústria por uma questão cultural. Os brasileiros não estão dispostos a trabalhar como os chineses. Nem eles valorizam a poupança para a próxima geração, como os chineses. No entanto, eles exigem o mesmo bem-estar e benefícios que os dos países desenvolvidos”, escreveu Gang.

Sem dúvida, Gang tem razão ao dizer que não estamos dispostos a trabalhar como o chinês – temos uma cultura pautada em outros valores, crenças e hábitos –, mas seria isso um erro? Há uma série de estabelecimentos chineses na cidade onde moro, aqui nos Estados Unidos, e, certamente, são os lugares que mais tempo ficam abertos – de domingo a domingo – faça chuva, sol, Halloween, Natal ou Réveillon. Os chineses estão lá para atendê-lo e garantir a poupança das próximas gerações. Apesar de a legislação chinesa permitir 40 horas de trabalho semanais, é muito comum longas jornadas no país (e eles carregam esse hábito em outros países em que se instalam), com consequências danosas aos empregados. Em 2014, a mídia estatal divulgou que 600 mil pessoas por ano morrem no país por excesso de trabalho. A pensar, portanto, se a disposição para trabalhar do chinês é de fato uma qualidade ou um fardo.

Afinal, trabalhar muito não significa trabalhar bem. Longas jornadas, ausência de férias e finais de semana preenchidos por planilhas não fará de você um herói. E tampouco irá transformar o país numa máquina de desenvolvimento econômico. E, embora reconhecemos que o brasileiro não trabalhe como o chinês, também podemos afirmar que somos ainda muito pouco eficientes nas nossas horas de labuta. Não porque não estamos dispostos a trabalhar, mas, sim, pela maneira como trabalhamos. Somos, talvez, os campeões da procrastinação e os especialistas em formar comitês para resolver problemas ou apontar soluções em etapas. Em outras palavras: marcar reuniões.

Segundo os americanos Michael Mankins e Eric Garton, autores do livro ‘Tempo, Talento, Energia‘: supere as amarras organizacionais e alcance todo o potencial produtivo da sua equipe, das 40 horas semanais de trabalho de um gerente, em média, 21 horas são gastas em reuniões, 8 são dedicadas a e-mails e apenas 11 horas sobram para o trabalho propriamente dito. Ainda de acordo com os autores, que se basearam numa pesquisa feita em mais de 300 empresas com faturamento acima de 1 bilhão de dólares, gastamos 16 horas – do total de 40 – em atividades que poderiam ser evitadas, como reuniões que não precisariam existir ou a leitura ou redação de mensagens (e-mails ou mensagens instantâneas) que não precisariam de nossa atenção. Sabe aqueles grupos de Whatsapp que todo mundo manda “Ok” ou um sinal de positivo em referência à alguma informação corriqueira sem importância real, mas que “pega mal” se você não olhar? Se somarmos a esse desperdício de tempo, a duração dos almoços no Brasil – difícil um almoço não durar menos de uma hora – e as infinitas paradas para o cafezinho sagrado de cada dia, além de outras distrações como as mídias sociais, temos aí uma jornada extensa e uma conta que não vai fechar na sexta-feira. Resumo: você vai levar trabalho para casa no fim de semana.

O problema não é trabalhar no sábado ou num feriado (este artigo foi escrito no dia 1º de janeiro, por exemplo). O problema é fazer dessa rotina um padrão na sua vida. No mundo 24×7 que estamos vivendo – 24 horas por dia, sete dias por semana – em que tudo acontece a todo momento, se você não souber administrar suas pausas, você corre o risco de ser tragado pela tecnologia (e não beneficiado por ela) e entrar para as estatísticas de morte por exaustão de trabalho.

A beleza da tecnologia e de um mundo conectado 24 horas por dia é que sua pausa não precisa ser necessariamente no domingo. Pode ser toda quarta-feira, por exemplo. Ou um dia na semana a combinar. Aos mais conservadores, a fórmula: (- horas trabalhadas + aumento de folgas = maior produtividade) pode soar contraditória, mas é exatamente isso que algumas empresas têm percebido.

Como fazer mais com menos
A mais recente experiência foi promovida pela empresa neozelandesa Perpetual Guardian, uma administradora de fundos, testamentos e patrimônios, com 240 empregados em seu quadro. Entre março e abril do ano passado, a companhia reduziu de 40 para 32 horas semanais a jornada de trabalho, sem redução de salário, e pediu para um pesquisador analisar a produtividade dos funcionários neste período. Jarrod Haar, professor de recursos humanos na Universidade de Tecnologia de Auckland, constatou que, além do ganho no equilíbrio vida/trabalho, os funcionários afirmaram que a mudança os motivou a encontrar maneiras de aumentar sua produtividade durante a jornada. A duração das reuniões, por exemplo, foi reduzida de duas horas para 30 minutos e o time criou sinais para informar aos colegas quando precisava de tempo para trabalhar sem distrações.

Um ano antes desta experiência, a empresa alemã Rheingans Digital Enabler, de tecnologia da informação, também reduziu para cinco horas diárias sua jornada de trabalho: das 8h às 13h, mantendo o salário integral. Como contrapartida, pediu para que as atividades pessoais, ligações particulares, longas conversas e pausas para o café ficassem para segundo plano. Afinal, você poderia fazer tudo isso depois das 13 horas.

Trabalhar menos, portanto, não significa trabalhar mal, mas exige maturidade. Da empresa – e do funcionário. Um dos grandes desafios do atual mundo do trabalho é saber administrar o capital humano – muito mais que o financeiro. Para isso é preciso ter ousadia para criar novos modelos de trabalho que sejam eficientes a atraentes para os dois lados, confiança para permitir que seus times trabalhem sem fiscalização e discernimento para identificar onde estão os gargalos de produtividade e os focos de desperdício – de dinheiro, de talento e de tempo.

Daniela Diniz, diretora de conteúdo e eventos do Great Place to Work, escreve sobre o mundo do trabalho.

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