Precisamos falar sobre a era da ansiedade

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 18 milhões de brasileiros sofrem com a chamada “doença silenciosa”. Confira nova coluna de Daniela Dantas

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Ansiedade tem se tornado uma condição moderna da nossa cultura atual. Os fatos falam por si. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório que mostra que a ansiedade atinge um total de 3,6% de pessoas no mundo. Desses, 18 milhões são brasileiros, o que representa 9,3% da população do país. Esse também é, atualmente, um dos principais motivos de afastamento das pessoas no trabalho. Ou seja, independentemente do segmento que você atua, se você lida com pessoas, é preciso prestar atenção no tema.

Por mais que os números sejam alarmantes, infelizmente falar sobre saúde mental ainda é considerado um tabu. Estamos vivendo uma onda desse transtorno e ainda assim nossa compreensão sobre isso é superficial. É importante pensar que marcas e empresas possuem uma responsabilidade social com as pessoas com as quais se relacionam, sejam elas seus colaboradores ou consumidores. E aquelas que ainda não possuem essa consciência certamente enfrentarão grandes desafios ao tentar manter talentos ou se conectar e conquistar a fidelidade de uma nova leva de clientes.

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Estimular o diálogo e lidar com o tema é um primeiro passo necessário para que possamos impedir a progressão e também impedir que os sintomas desse transtorno continuem crescendo. O tabu não é apenas uma dificuldade em falar sobre ansiedade, mas sobre tudo que ela desencadeia – o burnout, ataques de pânico, estresse pós-traumáticos entre tantos outros transtornos. A boa notícia é que uma visão otimista está influenciando a maneira como marcas falam sobre o assunto e oferecem seus serviços e produtos.

Portas abertas ao diálogo

O roteiro de vida estereotipado de se formar na escola, casar, comprar uma casa e ter filhos está aos poucos sendo derrubado por jovens que aspiram marcos diferentes a cada momento de suas vidas. Existe uma nova sequência de sucesso onde estes eventos honrados pelo tempo ainda existem. Seja por razões econômicas ou pessoais, as novas gerações estão aos poucos entendendo que não precisam cumprir a ordem e o ritmo que até então eram tidos como a única fórmula de sucesso. Porém, entre um novo padrão se estabelecer e as pessoas entenderem que cada um tem o seu ritmo e a sua receita de sucesso, os níveis de ansiedade aumentam e acabam tomando uma proporção cada vez maior entre todas as gerações.

Enquanto o burnout no trabalho aflige os millennials, o tempo (ou a falta dele) é o principal fator de pressão desde os Baby Boomers até a Geração Z. Ashley Whillans, professora da Universidade de Harvard, afirma que a escassez de tempo existe em todas as classes sociais e os efeitos são significativos. Pesquisas apontam que as pessoas que têm menos tempo disponível experimentam sensações de insatisfação, ansiedade, depressão e estresse. Elas são mais tristes, sorriem menos, são pouco saudáveis e a produtividade delas no trabalho é inferior. Com o tempo sendo tão precioso quanto um item de luxo, o impacto direto é o surgimento da “Síndrome do Super-Homem”, um termo usado para descrever as pessoas que lutam para dar conta de tudo — vida pessoal, trabalho, carreira e finanças. Mesmo assim, elas não conseguem se livrar dos sentimentos de falha e pressão para ter que estar sempre fazendo mais.

A importância de falar sobre a ansiedade é iminente e ver que iniciativas em diferentes formatos estão surgindo é um alívio e ao mesmo tempo uma forma de fomentar as discussões sobre isso. Um exemplo é a Universidade de Bristol que realizou uma conferência sobre o assunto em 2017 onde foi discutido ansiedade em relação à gênero, raça, sexualidade, educação, culturas, comunidades, música e arquitetura. E desde então possui uma série de iniciativas para falar sobre isso com os alunos, incentivando constantemente o diálogo aberto sobre o assunto.

Outro projeto relevante é o MQ (www.mqmentalhealth.org). A primeira fundação que visa melhorar o entendimento sobre saúde mental através do desenvolvimento de pesquisas sobre o tema. Esta é a primeira grande instituição global destinada a financiar trabalhos acadêmicos para mapear o desenvolvimento de cérebros de adolescentes, já que 75% dos transtornos mentais surgem antes dos 18 anos.

Já a revista Anxy, é um daqueles casos onde a preocupação com a estética e o conteúdo original sobre o assunto se encontram de forma equilibrada. A publicação surgiu com o intuito de abordar questões sobre desafios pessoais, medos e anseios que são gatilhos que geram ansiedade. Inicialmente, o projeto foi lançado através de uma plataforma de financiamento coletivo e como o sucesso foi grande, os fundadores decidiram transformar o que era uma publicação pontual em uma proposta recorrente. Cada edição tem um tema central, e é em cima dele que é construída toda a linha editorial da revista. O objetivo é ter sempre uma abordagem diferente, criativa e inspiradora sobre o tema em questão. O posicionamento é de falar sobre assuntos como: ansiedade, medo, trauma e depressão sem tom de auto ajuda ou de um terapeuta que tem a pretensão de auxiliar alguém a resolver um problema específico. O propósito é diminuir o estigma que gira em torno da ansiedade.

Em contrapartida à proposta da Anxy, mas com um desafio similar de falar sobre a temática com um outro ponto de vista, está o curso recém lançado pela Yale: A ciência do bem estar. A grade foi inaugurada em 2018 e rapidamente se tornou o curso mais popular da universidade em toda a sua história. O propósito dele é explicar e influenciar hábitos que podem aumentar o nível de felicidade das pessoas e fomentar hábitos mais produtivos. Por conta do sucesso viral tão rápido, a direção de Yale decidiu disponibilizar o curso gratuitamente e online para que mais pessoas pudessem se beneficiar dos ensinamentos disponibilizados.

Experiência online: tecnologia anti ansiedade

Na era de ansiedade, a tecnologia pode, muitas vezes, parecer que está aumentando nossos problemas – quando não sentimos que é a grande causa deles. A disponibilidade dos smartphones e uso mídias sociais em excesso, tem um efeito negativo em nossas vidas. Ajudam a encurtar a nossa concentração entre outros efeitos. Com isso em mente, marcas e designers de tecnologia estão respondendo a esse contexto com soluções que ajudam a acalmar o consumidor. Melhorar a experiência on-line, reduzir a dependência dos dispositivos e impulsionar ativamente a saúde e o bem-estar é necessário. Os desenvolvimentos mais recentes em tecnologia podem ler emoções, analisar o estresse e oferecer respostas a esses estímulos.

A ansiedade é o foco de uma nova onda de wearables, centrada principalmente no bem-estar e na leitura do humor do usuário. Os dispositivos que usam o biofeedback para gerenciar o estresse são um campo em crescimento: o Pip mede a ansiedade usando os poros da ponta do dedo e treina o usuário pelo aplicativo para acalmá-los. A pulseira de Doppel pulsa ritmicamente, como um segundo batimento cardíaco, para energizar ou acalmar seu usuário como desejado. O patch inteligente bio-sensorial da Lief se conecta ao corpo para rastrear as taxas cardíacas e respiratórias e, em seguida, treina os usuários a regulá-los, enquanto o aplicativo da Hear & Now da Biobeats combate o estresse usando exercícios respiratórios e música consciente. Pesquisadores do MIT desenvolveram um algoritmo de smartwatch que pode detectar emoções em conversas e exibi-las ao vivo, analisando o tom da fala – apresentando a possibilidade de que a futura tecnologia também possa atuar como um coach social ou um aliado no controle da ansiedade.

Hospitalidade stress free

Simplificar é a palavra de ordem para a experiência de muitos hóspedes atualmente. Viajar para reduzir o stress tem a ver com o fato de diminuir as opções de escolha dos viajantes. A combinação do uso inteligente de dados com a personalização pode permitir que os hotéis se antecipem às necessidades dos

hóspedes e eliminem quaisquer gatilhos de ansiedade. Já pensou em chegar no quarto com um minibar abastecido apenas com itens do seu gosto? Pois é. Os hotéis estão respondendo ao sentimento de sobrecarga de opções simplificando a experiência com uma oferta reduzida, porém curada especialmente para o cliente. Em um futuro próximo, a hospitalidade desempenhará um papel importante nessa simplificação: o uso inteligente de dados deve eliminar muitas opções supérfluas para que gestos simples, mas significativos, como o minibar personalizado abastecido com os itens favoritos do cliente, se tornem mais comuns.

Já o sono, o silêncio e a tranquilidade estão no topo das prioridades daqueles com foco em bem-estar. Alguns hotéis estão respondendo à essa necessidade com tecnologias de isolamento acústico e recursos de design que reduzem a poluição sonora dos quartos. Em algumas unidades Hyatt selecionados, os hóspedes recebem máquinas de ruído branco que ignoram o barulho externo e estimulam o sono tranquilo. Carpetes redutores de sons aguardam os hóspedes no Beverly Hills Hotel e nos EUA, aqueles que ficam em um quarto do Holiday Inn Express tem uma cabine de sono dentro do quarto com paredes e portas antirruídos. Tudo isso para melhorar a qualidade das noites dos clientes das redes em questão.

Pontos de ação e a cultura da desconexão

Enquanto a mídia social é construída sobre o poder da conexão, sua natureza difusa criou uma cultura de desconexão. A conectividade trouxe uma nova realidade: nunca antes as pessoas foram tão suscetíveis à depressão, ansiedade e suicídio. De acordo com um estudo da Pew Research de 2019, sete em cada dez adolescentes consideram a depressão e a ansiedade como uma das questões mais relevantes para serem discutidas entre os seus pares.

Como marcas, continuamos a esgotar nosso bem mais raro – a atenção humana. Por esse motivo precisamos começar a priorizar o bem-estar dos nossos consumidores e colaboradores a longo prazo. Dê tempo, espaço e valorize as pausas e a não interação. Criar momentos offline, intervalos para a manutenção individual é essencial para nutrir a interação do um a um.

Sobre a wgsn

A WGSN é líder global em pesquisa de tendências de comportamento e busca avaliar as formas de pensar e agir para compreender as demandas de hoje e do futuro.