Instagram: como os influenciadores veem o “fim dos likes”

Nomes como Letticia Muniz, Mohamad Hindi, Natallia Rodrigues e Elisa Fernandes comentam sobre o impacto real das “curtidas ocultas”. Afinal, o que muda?

Por: - 1 mês atrás

Em abril, o Instagram anunciou uma mudança drástica na rede social. O que antes era uma régua para medir a popularidade de qualquer usuário, agora não estará mais visível. A partir desta quarta-feira (17), as curtidas deixaram de ser vistas nas publicações. O teste feito no primeiro semestre teve o Canadá como “território beta”. E qual o impacto disso no Brasil?

A mudança aconteceu depois que especialistas levantaram uma discussão sobre o quanto a rede social estaria afetando a autoimagem de jovens usuários. As críticas tinham como ponto focal as curtidas e como elas serviam para fazer do Instagram uma competição. O ponto principal vai de encontro ao conteúdo muitas vezes irreal compartilhado na rede. A simulação de situações por perfis influentes gera conflitos psicológicos em quem recebe o conteúdo.

Tanto é que uma pesquisa realizada pelo órgão publico inglês Royal Society for Public Health mostra que 70% dos jovens na faixa etária entre 14 e 24 anos desenvolveram ansiedade e depressão devido ao uso frequente das redes sociais.

Apesar da retirada das curtidas para o público geral, o usuário poderá visualizar o número de interações em cada publicação que fizer.

As questões que ficam em relação ao mercado, envolvem o recém-nascido modelo de publicidade com influenciadores. O que muda para grandes perfis de alta influência? Há algum efeito direto na relação entre marca e influenciador? Isso afetaria o possível engajamento dos seguidores? Qual a opinião desses profissionais?

A mente dos grandes instagrammers

Em uma conversa inédita, a Consumidor Moderno falou com vários influenciadores para descobrir o impacto real das “curtidas ocultas”. Afinal, quando se trata de contratos publicitários envolvendo essas celebridades da Internet e grandes marcas, o que de fato importa? O conteúdo ou o número de interações da foto postada?

A humorista Letticia Munniz coleciona mais de 300 mil seguidores na rede. Para ela, uma coisa é certa: muitas pessoas realmente “vivem” de likes.

“As curtidas nunca foram uma unidade de medida. Sempre pensei mais no conteúdo que queria oferecer para as pessoas. Nunca quis ser mais uma falando algo que não importa”, afirma Lele, que ficou conhecida no Instagram por levantar a bandeira do feminismo e falar abertamente sobre o conceito de body positivy.

Ouvir as pessoas é importante

Nas redes sociais é comum o papo sobre engajamento, e Letticia sabe bem disso. Para ela, os comentários são muito mais importantes e indicam a métrica que realmente importa. Afinal, de que adianta se ter milhões de likes em um post se as pessoas não conseguem entender o que foi proposto?

A postura positiva da humorista em relação a mudança reflete uma preocupação para uma comunicação mais honesta e fluída. Algo que a grande maioria busca nos dias de hoje.

“Me importo com o que o público tem a dizer, pois se as pessoas dispõem seu tempo para comentar é porque o conteúdo importa para elas”, finaliza a influenciadora.

Van Duarte é consultora de estilo em imagem pessoal e está nas redes sociais há quase 6 anos. Como ela mesma relembra, viveu várias etapas do mundo digital. No começo, os acessos em blogs eram altos e o conteúdo era em sua maioria, o texto.

Quando o Instagram chegou, trouxe consigo o maior apelo visual. Nos últimos anos, os vídeos ganharam relevância anunciando a era dos conteúdos mais rápidos.

“Conteúdos mais diretos, mais úteis e fáceis de consumir como quiser”, diz a consultora.

Ela enxerga a mudança de forma positiva e acredita que deve melhorar a visão dos seguidores e usuários comuns em relação ao conteúdo distribuído na plataforma. Van também sinaliza que havia uma crescente desconfiança das marcas em relação à rede em função da possibilidade de manipulação destes números.

“O público não só consome de forma diferente, como é afetado diretamente pelo número de likes. Às vezes as pessoas curtiam ou deixavam de curtir conforme acontecia o desempenho. A mudança me motiva muito a continuar na ferramenta”, finaliza.

A “grama do vizinho”

Para a chef de cozinha e vencedora da primeira edição do Masterchef, Elisa Fernandes, a retirada dos “likes” também é positiva. Com mais de 200 mil seguidores, ela vê uma melhoria para o usuário e a diminuição de uma possível competitividade desnecessária.

“O Instagram acaba gerando muita competição e comparação. Todo mundo acaba deprimido pois a grama do vizinho parece mais verde. Isso gera frustração para quem usa. Há uma falsa impressão de que nós que temos muitos seguidores vivemos uma vida muito plena, e isso nem sempre é verdade”, pontua.

Em sua opinião, o que importa mais é o engajamento e o quanto as pessoas vão se envolver positivamente com o conteúdo. Elisa também destaca quem em um primeiro momento haverá um choque maior para as marcas.

“Só temos a crescer, porque o que vai importar é o conteúdo. Haverá um empenho maior na produção.”

Já a atriz Natallia Rodrigues destaca que a mudança promete estimular relações mais humanas na rede social comandada por Mark Zuckerberg.

“Iremos olhar com outros olhos uns para os outros, sem se preocupar com números e sim com o conteúdo. Independentemente do que você acredita, de quem você é e da forma que apresenta sua verdade, nós não iremos mais nos comparar, não iremos mais prestar atenção em números e sim em seres humanos.”

Conteúdo importa

O Youtuber e apresentador do GNT Mohamad Hindi diz que a mudança terá impacto para todos. Para ele, os likes ditam uma tendência de lifestyle que nem sempre é real. “As pessoas deixarão de ficar escravas disso”, reforça o produtor de conteúdo.

Ele também reitera que com a mudança, o mercado precisará achar uma nova maneira de medir resultados.

“Acho que precisamos de alguma métrica para o mercado. Mas não é só like, vai muito além disso, o conteúdo é mais importante. A qualidade dele é o que importa”, finaliza.

Palavra do especialista

Para entender melhor o panorama e o impacto na relação com as marcas, Alessandro Visconde, CEO da Digital Stars, falou sobre o assunto. A agência é quem faz a ponte entre influenciadores e parcerias pagas e traz no portfólio nomes como Maíra Medeiros, Felipe Castanhari e Pyong Lee.

Instagram

Para ele o maior impacto será para os usuários. O empresário destaca que os dados ainda estarão nas mãos dos criadores de conteúdos. E que a única dificuldade gerada é que haverá um passo a mais no contato das marcas com as agências e profissionais de conteúdo.

“Isso apenas gerará um passo a mais na comunicação com as marcas. Antes o processo era mais rápido porque a marca já ia até o perfil e fazia a seleção por ali mesmo. Agora será preciso pedir ao influenciador um relatório gerencial. Não terá mais o pré-filtro. Será um trabalho um pouco maior para as agências e marcas”, explica Alessandro.

A Digital Stars, segundo ele, trabalha com perfis e números mais expressivos e em sua visão será preciso apenas manter o cuidado e um gerenciamento maior dos números para uma possível mudança em relação ao mercado.

“O que usamos já são os próprios dados do perfil dos influenciadores – na hora de fechar parcerias – ou seja, isso não vai ser afetado.”

As marcas consideram o conteúdo na hora de escolher quem será seu porta-voz nas mídias sociais. Ganha quem tem o melhor conteúdo, similaridade e coerência com a marca.

Mas para Alessandro, o que mais conta para as empresas é a segurança no discurso e o perfil moral do influenciador, além do conteúdo por ele publicado, sua qualidade e o engajamento.

Momentos diferentes

Ele compara a mudança do mercado midiático com a transição que enfrentamos nos anos 80, quando surgiu a televisão paga.

“O momento é parecido com a transição da TV aberta para a TV paga. Assim como tínhamos a TV aberta (macro), tínhamos o pay tv (micro), mas eram canais chave. A composição de consumo de mídia é cíclica.”

Felipe Castanhari, Youtuber e influenciador da Digital Stars

O que o futuro reserva, segundo o CEO é uma maior diversidade e flexibilidade para o mercado de influenciadores digitais.

“Com a chegada de perfis mais nichados criamos a diversidade de canais. Agora é possível eleger um “embaixador” e depois é possível descer para as “comunidades”, onde estão os influenciadores de médio impacto. E você encontra uma seleção maior de perfis. E aí também é possível ir para uma diversidade de canais. Mas o que vejo para o futuro é uma seleção mais inteligente de quem vai falar e como vai falar”, finaliza Alessandro.

Validação de influência

Para a especialista em marketing digital Silvia Martins, que esteve na última conferência do Facebook, em São Francisco, e soube em primeira mão dessas últimas mudanças no app do Instagram, a ocultação de likes será importante para identificar a veracidade da influência.

“É claro que o objetivo principal para essa atualização é impedir a competição desenfreada por likes no Instagram, mas outro ponto também muito abordado no F8 foi a qualidade do conteúdo. Não adianta uma marca ou influenciador postar uma foto mega produzida e profissional e, em contrapartida, esse post não ter nenhum tipo de engajamento. Se o engajamento não acontece é porque ele não está influenciando seus seguidores”, declara Silvia.

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