Geração digital: eles praticam o que pregam?

Da relação com o mercado de trabalho à jornada de compra, estudo exclusivo mostra as escolhas, as preferências e as contradições das gerações Y e Z

Por: - 1 semana atrás

Geração Digital Foto Juan Cazes

Sabe aquela frase clássica, que começa assim: “Eu sou de uma geração que…”? Pois é, os “Ys” e “Zs”, que representam cerca de 68 milhões de brasileiros com idades entre 18 e 34 anos, têm algumas respostas óbvias para essa pergunta; outras serão mais intrigantes e contraditórias. É o que revela um estudo exclusivo do Centro de Inteligência Padrão (CIP) em parceria com a plataforma de pesquisas eCGlobal. Confira abaixo alguns comportamentos intrínsecos da Geração Digital.

Por Dimas Ribeiro, Jade Castilho e Leonardo Guimarães

COMO OS JOVENS CONSOMEM NOTÍCIAS

Diante de jovens cada vez mais digitais e dispersos, entregar um conteúdo relevante e, ao mesmo tempo, atrativo é um grande desafio para marcas e agências de comunicação. Nesse sentido, um dos pontos que merece destaque é a mudança na forma de consumir notícias. Segundo o estudo, 75% dos jovens usam portais de internet para se manter atualizados. A televisão aparece em segundo lugar, com 71% da audiência. As redes sociais assumem um papel importante neste cenário: 69% dos entrevistados usam as plataformas digitais para se informar.

Mesmo que não represente uma surpresa, o movimento de migração dos jovens para as mídias digitais gera várias mudanças no mercado. Professora de jornalismo da ESPM, Claudia Bredarioli destaca a volta de newsletters, que ganham relevância por conta da curadoria e do poder de síntese do conteúdo, e a ascensão de novos portais, como o Nexo Jornal, vencedor do Online Journalism Awards 2017, e do JOTA, ganhador do Word Digital Media Awards 2019 na categoria de melhor startup de informação digital do mundo. “Os portais são um grande chamariz para os jovens lerem notícias. Eles têm se interessado muito pelo formato dessas novas publicações”, afirma Claudia.

Com uma audiência pulverizada, seja por meio de gadgets, seja por meio de veículos, pop-ups e notificações de mensagem, o jornalismo também se transforma. “Nunca tivemos tantas disciplinas envolvidas no saber jornalístico”, opina Claudia. A professora destaca também a dificuldade das instituições de ensino superior em formar esses novos profissionais: “Os currículos das universidades não podem lidar com a rapidez que o mercado tem exigido. O que você tem de formar são mentes capazes de se atualizar ao longo da técnica”. Entre essas habilidades está a produção de conteúdo para redes sociais. O desafio é entender as particularidades de cada plataforma e se atentar às formas diferentes de se comunicar, ainda que os usuários sejam os mesmos.

O levantamento aponta, ainda, que 69% das pessoas usam as redes sociais na hora de consumir notícias. Um dos destaques é o Twitter. Segundo uma pesquisa do American Press Institute, nove em cada dez usuários utilizam essa rede para acessar notícias e 74% deles o fazem diariamente. Victor Esteves, de 29 anos, trabalha em casa como trader e diz que prefere se informar pela internet porque a “TV é muito devagar”. Ele tem razão. Segundo o Twitter, as notícias chegam quase três vezes mais rapidamente na plataforma do que em qualquer outra rede social ou veículo de comunicação. São 82 bilhões de tweets relacionados a notícias por mês em todo o mundo. “Tanto políticos brasileiros quanto os gringos estão usando muito o Twitter. É importante seguir”, diz Esteves. Para Gustavo Poloni, diretor de Parcerias de Notícias do Twitter para a América Latina, o grande diferencial da rede é conectar usuários a temas do seu interesse. “Isso torna a nossa audiência engajada e aberta a participar de conversas fora de seus círculos”, diz Poloni. “Nosso posicionamento é: não olhe para mim, mas olhe para isso”.

Foto Juan Cazes

QUE OS INFLUENCIA

Ainda que o mundo passe por tantas disrupções em períodos tão curtos de tempo, os jovens deixam claro que não vão deixar uma tradição morrer tão cedo: o marketing boca a boca. A opinião e a recomendação de pessoas conhecidas são consideradas por eles o principal fator de influência na jornada de compra.

Após uma análise rápida dos resultados do estudo Jovens Digitais, fica fácil entender o porquê de influenciadores digitais ganharem tanto espaço: as redes sociais são o canal que mais leva as pessoas às compras, e a recomendação de pessoas conhecidas é o fator que mais influencia a jornada de compra. Como os influenciadores são tidos como pessoas próximas do público, eles estão justamente na intersecção entre os dois pontos. De olho nessa tendência, a Nestlé, por exemplo, tem um time dedicado a mapear o mercado de influenciadores. “Ele traz a visão dessa conversa always on para o cenário dos influenciadores digitais”, explica Nanna Pretto, gerente de Content e Influencer Marketing da Nestlé Brasil. “Se nossos produtos estão presentes em 99% das casas, queremos estar 100% presentes onde eles consomem conteúdo: nas redes sociais”, complementa.

Em uma das ações com influenciadores, em junho deste ano, a empresa fez 130 posts com os produtores de conteúdo para conscientizar o público sobre a preservação dos oceanos. Entre os desafios estão as tarefas de mapear o relacionamento entre influenciadores e seguidores e avaliar se o que pregam tem sinergia com os valores das empresas. “Fazer com que esse relacionamento tenha fit com o que queremos propor é o nosso maior desafio. E não falo de tamanho, número de seguidores ou quantidade de likes. A nossa análise se baseia no engajamento”, diz Nanna.

RELAÇÃO DA GERAÇÃO DIGITAL COM O DINHEIRO

Estamos diante de gerações que acabam sendo contraditórias em alguns pontos. Um deles diz respeito à relação com o dinheiro. Isso porque, ao mesmo tempo em que os jovens aderem às contas digitais, eles preferem um atendimento presencial na hora de investir. Isso justifica o posicionamento de empresas como a XP, que, ao mesmo tempo em que oferece assessoria digital, chega a enviar um assessor de investimentos até o cliente para entender os objetivos dele e montar a carteira inicial. A Creditas também investe em educação financeira. “Temos consultorias voltadas a clientes e treinamos nossos tripulantes para que eles possam dar a melhor orientação na hora de investir”, diz Otavio Machado, coordenador de Crédito da Creditas.

E, ao mesmo tempo em que investem em atendimento especializado, os bancos e as fintechs não abrem mão do investimento em novas tecnologias. O Itaú, por exemplo, implantou o teclado Itaú, um feature que permite ao cliente realizar pagamentos, transferências e outras operações em qualquer tela do celular: “É como uma conversa com um amigo por mensagem de texto, por exemplo. Aprimoramos nosso canal para termos uma solução ainda mais versátil, fácil e segura”, explica Renato Mansur, diretor de Canais Digitais do Itaú Unibanco.

O comportamento das novas gerações ajuda a alavancar o mercado de fintechs. “Elas abraçam mudanças muito rapidamente e esperam que as empresas da nova economia facilitem sua vida”, destaca Marcela Miranda, cofundadora da Trigg. Um estudo recente mostra que 87% dos consumidores estão dispostos a testar fintechs para serviços bancários. “Notamos que não só esse público, mas boa parte da sociedade, vem buscando por serviços que oferecem experiências melhores e mais humanizadas”, diz Alexandre Alvares, CMO da Neon Pagamentos.

O advogado Ricardo Dalmaso, de 31 anos, é um exemplo clássico. Ele ainda tem conta em um banco tradicional porque enxerga vantagem em alguns serviços, como transferências e saques. Mas o sonho dele é migrar 100% para os serviços digitais de plataformas como o Nubank e o Mercado Pago, onde trabalha. “Para mim, todo o setor financeiro será redesenhado por completo”.