Bradesco, Amil e Via Varejo: o caminho do Brasil para a próxima década

No fechamento do CONAREC, CEOs de Bradesco, Amil e Via Varejo exploraram os caminhos possíveis (e necessários) para o Brasil retomar o crescimento a partir de 2020

Por: - 1 mês atrás

2020 Foto Unsplash

Funções bem definidas. Tarefas repetitivas. Fábricas enormes. Controle sobre a produção. Massivo uso de matéria-prima. E de mão de obra. 100 anos depois da chegada do fordismo ao Brasil, a Ford apagou as luzes de parte de sua operação no País com o fechamento da sua fábrica em São Bernardo do Campo. O capitalismo cartesiano, que teve em Henry Ford a sua principal representação, é sucedido pela economia do intangível: o que temos de mais valioso hoje não pode ser tocado como era o volante de um Ford T.

A erosão definitiva do capitalismo tradicional abre espaço para a economia liderada pelas gigantes de tecnologia. A Apple cresceu exponencialmente ao se tornar a protagonista da transformação dos velhos celulares em um gadget universal capaz de dizer mais do comportamento das pessoas do que qualquer outro instrumento ou técnica já utilizados. Hoje, a tecnologia da empresa criada por Steve Jobs está presente até em carros autônomos. O que diria Henry Ford se soubesse que sua empresa divide mercado com uma “fabricante” de telefones móveis… que nem fábrica tem?

Na nova economia, as relações de trabalho não são mais pautadas pela carteira assinada, mas pelo signo do empreendedorismo. No mundo dos grandes negócios, as startups derrubam ou reinventam setores inteiros, colocando grandes corporações no banco de trás.

Durante o CONAREC, executivos dos maiores setores da economia brasileira debateram a mudança de chave do Brasil para essa nova realidade. Bradesco, Amil e Via Varejo se uniram a WMcann e Makeda para discutir sobre as forças motrizes que vão empurrar, a partir de 2020, o Brasil para o século 21. Ainda que tardiamente.

Apesar da solidez do sistema bancário brasileiro, um dos mais robustos do mundo e que tem passado à margem da crise econômica, os bancos nacionais não vivem exatamente em paz. O modelo de negócios dessas instituições está passando por uma de suas maiores revoluções em séculos de existência.


“As pessoas não vão mais em bancos, o modelo de negócios está mudando. Há 5 anos, eu sabia quem eram meus concorrentes. Agora, todo dia quando acordo vejo que surgiu um concorrente novo. Concorrentes competentes, o que nos torna melhor”

Octavio de Lazari,
CEO do Bradesco


Octavio de Lazari, CEO do Bradesco, durante o painel final do CONAREC 2019 (Foto Felipe Paes)

Na opinião de Lazari, o País vive uma letargia de mais de 20 anos que precisa ser vencida pela união de forças para encaminhar o País, mesmo que tardiamente, à economia do século 21. O atraso está relacionado, segundo o executivo, à demasiada interferência política sobre os rumos da iniciativa privada. “Nós entramos numa dificuldade fiscal nesses últimos 20 anos e não é porque o Brasil tem baixa atratividade. Temos um problema fiscal enorme e chegamos num momento em que 93% das receitas estão marcadas, precisamos mudar esse quadro e criar oportunidade de crescimento”, afirma.

Para Lazari, CEO do Bradesco, as reformas feitas pelos governos Temer e Bolsonaro estão na direção certa para levar o Brasil de volta ao crescimento e às exigências do mercado global diante das novas configurações econômicas. Para o executivo, o próximo passo é, necessariamente, a reforma tributária. “O mais importante é simplificar a loucura tributária que temos no país”, diz o executivo, que critica ainda a seletividade em políticas de incentivo econômico. “Não podemos conviver com subsídios para algumas áreas e deixar outras de fora”, completa.

A velocidade necessária

Há 3 meses como CEO da Via Varejo, uma das maiores redes de varejo do País, Roberto Fulcherberger também destaca a importância das reformas para encaminhar o Brasil a uma nova economia.

Apesar de elogiar a agenda de reformas, o executivo alerta sobre a necessidade de articular mais rapidamente as mudanças. “Precisamos da reforma tributária porque é difícil operar com a quantidade de impostos que temos hoje. O caminho está correto, mas a gente poderia agilizar a realização dessa agenda. Isso não depende só do governo, mas de um olhar conjunto do Executivo, do Congresso e dos empresários. Não dá para ficar no compasso de fazer uma reforma por ano”, alerta Fulcherberger.

O executivo da Via Varejo diz que o investidor está disposto a aportar seu capital em boas ideias e lembra que, depois da pulverização das ações, a Via Varejo recebeu R$ 2,5 bilhões do mercado para tocar seu novo projeto. Mas a rede varejista precisa da retomada da economia para colocar todo esse potencial em movimento.

Roberto Fulcherberguer, CEO da Via Varejo

Tecnologia e empoderamento

Com a integração entre canais de venda e atendimento promovida pelas novas tecnologias, a Via Varejo tem como plano ser mais que um entreposto entre a indústria e o consumidor final. A ideia é ser uma prestadora de serviço, como a Amazon, que usa todo o seu potencial de captação e análise de dados para explicar ao restante do varejo e a outros setores como se comporta o consumidor.

Daniel Coudry, CEO da Amil, afirma que as novas tecnologias precisam – e vão – deslocar o mercado de saúde para fora dos hospitais e clínicas. O executivo alerta, porém, que elas não serão capazes de aliviar a pressão sobre os sistemas público e privado de saúde se não houver uma mudança comportamental de cada pessoa a respeito da responsabilidade que carrega sobre seu próprio bem-estar.

“Você tem o Apple Watch e um monte de outros devices que estão monitorando a nossa saúde hoje. Mas se não mudar o comportamento, os devices não vão mudar a vida de ninguém”, diz o executivo.

Para se ter ideia, a Amil realizou, em 2018, uma pesquisa com 9 mil pessoas sobre a consciência a respeito dos seus hábitos de vida e os impactos dele sobre a saúde. “Vimos uma enorme distância entre o que as pessoas precisam saber e o que elas sabem de fato sobre a própria saúde. Ninguém virá com uma solução pronta, as pessoas precisam ser as responsáveis pelas próprias vidas”, explica Coudry.

O executivo alerta sobre a necessidade de reduzir a demanda por serviços tradicionais de saúde. Sem conseguir expandir a oferta para uma base maior de clientes, as empresas do setor corrigem seus planos acima da inflação. “A saúde está caríssima!”, reconhece. “Por isso nós temos hoje o mesmo número de clientes que tínhamos em 2012, quando já era baixo. As empresas não conseguem mais pagar a despesa de seus funcionários relacionadas a esse serviço. Essa despesa já é a segunda mais importante para uma empresa, a baixo apenas do custo do trabalho”, completa o executivo.

Coudry vê com bons olhos as ações das novas empresas que surgem no mundo no sentido de baratear os custos de saúde. Como exemplos no Brasil há a Dr. Consulta, com seu serviço de consultas e exames a baixo custo, e a GymPass, que atua em saúde preventiva e qualidade de vida. Na esteira dessas novidades, a Amil espera utilizar sua base de dados sobre a saúde da população brasileira para oferecer informações aos seus clientes de como tomar conta da própria saúde e reduzir a frequência com a qual se vai ao médico ou que se busca outros serviços.

Daniel Coudry, CEO da Amil (Foto Felipe Paes)

Iniciativa privada e desenvolvimento

Segundo o CEO da Amil, a postura da sociedade brasileira de esperar uma bala de prata para resolver seus problemas não se limita à vida pessoal, mas também aos problemas históricos e estruturais que o País tem.


“Existem problemas de décadas ou séculos que não serão resolvidos em um governo. Estamos muito distraídos com coisas que não deveríamos estar. Qual o foco? Se ficarmos pensando em soluções que alguém de fora traga para nós, a solução nunca vai aparecer”

Daniel Coudry,
CEO da Amil


Sheila Makeda, dona da Makeda Cosméticos, ressalta o papel dos novos empreendedores na construção de um Brasil mais eficiente e capaz de resolver esses problemas estruturais. A Makeda tem um programa de desenvolvimento de negócios liderados por mulheres. Para isso, a executiva começou seu negócio em 2013, no início da crise econômica, e ascendeu quando a maioria das empresas via seus resultados minguarem.

Ela partiu de uma pequena loja de shopping para uma rede. Hoje, ajuda mulheres (em especial, negras – as mais vulneráveis ao desemprego) a arrumarem uma fonte de renda como consultoras comerciais da sua marca.

“Além de girar a economia, nós, mulheres e negras, temos encontrado nosso caminho de crescimento com propósito. A ideia é fazer essas mulheres trabalharem e gerarem renda e consumo para ajudar o país”, diz a empreendedora.

Sheila Makeda, Sócia fundadora da Makeda Cosméticos (Foto Felipe Paes)

Hugo Rodrigues, chairman & CEO da WMcann, ressalta o papel das startups brasileiras nessa dissolução de problemas históricos brasileiros e no ganho de eficiência em diferentes setores da nossa economia. Nesta semana, o QuintoAndar entrou no hall dos unicórnios brasileiros com seu serviço de desburocratização do processo de locação de imóveis residenciais.

Rodrigues lembra que, mesmo diante de uma persistente crise econômica, as startups no País têm o melhor desempenho da história, com uma proliferação de empresas que alcançam US$ 1 bilhão em valor de mercado.

“Os cães ladram, mas a caravana não para. Precisamos tocar o país para frente. Não trabalho para nenhuma dessas empresas brasileiras de mais de 1 bilhão de dólares, só quero mostrar que existe potencial nesse país e que essa economia ainda indefinida cresce graças ao investimento e à mão de obra privadas”, conclui o dono de uma das maiores agências de publicidade do País.

Hugo Rodrigues, Chairman & CEO da WMcCann (Foto Felipe Paes)