Há algo de podre no reino da Dinamarca

Em artigo, Marcelo Sodré reflete sobre o uso da tecnologia, burocracia e etapas de processamento no cotidiano. Confira mais

Por: - 1 mês atrás

Dinamarca Crédito: Joshua Rawson/Unsplash

Era uma vez uma moça chamada Terezinha. Depois de trabalhar muito e juntar um dinheirinho, ela decidiu levar sua filha de cinco anos, a Juliana, para conhecer a avó que morava nos EUA. Quanta alegria! Quanta expectativa! Como ela era uma pessoa que planejava, tudo foi pensado e preparado com o devido cuidado. A parte mais difícil era a viagem aérea.

A primeira constatação foi a absoluta impossibilidade de gastar os pontos que havia acumulado no seu cartão de crédito. Tudo era difícil de entender. Depois de muita conversa e consulta, conseguiu baixar seus pontos em um dos programas de milhagem. E logo veio a primeira frustração: o sonho de gastar pouco com a passagem desmoronou rapidamente. Seus pontos não valiam praticamente nada e a forma de usá-los exigia quase um mestrado em uma boa escola. Vou comprar pagando tudo, pensou ela. É mais fácil e uso os pontos na próxima viagem.

E aí veio a segunda constatação: quanto mais ela procurava, mais os preços aumentavam. Ela anotava um preço, conversava com a família à noite e o preço já era outro. Quando encontrar um preço bom, vou comprar na hora, pensou ela. E assim fez. E lá veio a segunda frustração: quando estava para fechar a compra pela internet, não é que o sistema caiu e ao acessá-lo novamente os preços eram outros. Que azar!

No desespero de perder o último bom preço que se apresentaria, ela comprou, meio por impulso, a passagem que apareceu. O valor foi bem mais caro, mas fazer o quê? Ver a avó e neta juntas valia esse esforço. Isso porque, por coincidência, Terezinha passou a receber muitas ofertas de companhias áreas, hotéis, restaurantes, locação de automóveis e outros serviços exatamente no período e local em que ela pretendia viajar. A sorte ainda existe, pensou ela desconfiada.

Só tinha um problema a resolver: não conseguiu marcar seu assento. Farei isso 24 horas antes quando fizer o chek-in, refletiu. As ofertas continuaram, mas agora tinha uma oferta especial: por meros US$ 120, ela poderia pegar um assento especial. Era muito dinheiro, principalmente se multiplicado por dois. E a data da viagem foi chegando…

Apesar do anunciado, 24 horas antes da viagem, nada de o sistema abrir para marcar a passagem. Ela passou quase todo o dia tentando. Como era uma pessoa cuidadosa, concluiu que deveria chegar no aeroporto cinco horas antes para garantir um assento com a pequena filha. E lá foi. Para sua surpresa, a fila já estava grande e, conversando com seus companheiros de viagem, descobriu que muitos tinham o mesmo problema.

Quando chegou a sua vez, a frustração foi total: não havia a menor possibilidade de viajarem juntas, pois todos os assentos já estavam marcados. Como assim, perguntou ela? Assim, respondeu o funcionário. É o sistema que faz assim, concluiu. Mas havia a possibilidade de comprar um upgrade para um assento melhor. Por US$ 240 tudo se resolveria facilmente. Terezinha olhou para sua pequena Juliana, fez as contas e resolveu arriscar. Muitos fizeram assim.

Dentro do avião, parecia um mercado de peixes. Alguém troca uma janela por um corredor? Quem troca dois lugares separados por dois juntos? Uma alma bondosa, sempre existem almas bondosas, trocou de assento com Terezinha para que ela pudesse viajar ao lado de Juliana. Ela não viu ninguém falando em valores para realizar uma troca, mas anteviu que isso vai ocorrer mais cedo ou mais tarde.

Mas, com seu olhar atento, ela percebeu que o espaço da cadeira tinha diminuído muito (e olha que ela é pequena) e que teria sido melhor trazer uma comidinha de casa, de tão ruim que estava a refeição servida. E lá foi Terezinha com um misto de alegria, frustração e desconfiança. Tudo valia a pena para juntar avó e neta.

O que Terezinha não viu, e nem imaginou, é que o sistema é feito por mãos humanas e existe um órgão do governo, uma agência, só para regulamentar as práticas e fiscalizar os abusos das companhias aéreas. Onde estarão os responsáveis? Talvez viajando de avião pelo reino da Dinamarca, diria Shakespeare se perguntado.

*Marcelo Sodré é advogado e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo