Astrologia: uma nova tendência de consumo?

A astrologia é mesmo uma nova forma de consumir produtos personalizados? Qual o papel dessa filosofia de vida no cotidiano das novas gerações?

Por: - 3 semanas atrás

É comum vermos as redes sociais inundadas de publicações que falam sobre ou mencionam a astrologia. Hoje em dia, as “bios” de grande parte dos usuários do Instagram trazem informações do zodíaco e dados de mapa astral. Dentro desse espectro, é possível enxergar um mercado para os astrólogos, escolas de astrologia e comerciantes de produtos esotéricos? Além disso, quais outros setores podem aproveitar o boom relacionado ao assunto?

Algumas marcas já focaram nesse público para lançar coleções temáticas. A Imaginarium, por exemplo, colocou no mercado recentemente uma coleção personalizada com produtos para cada signo do zodíaco. A sessão exclusiva do e-commerce traz copos, broches e outros acessórios temáticos.

Moda, beleza e o romance com a astrologia

A beleza também caiu nessa onda! A Risqué desenvolveu uma linha de esmaltes chamada “Astrologia em Cores”. E o que isso significa? Que consumidores da marca agora podem usar nas unhas a cor relacionada com a sua posição astral.

Nos Estados Unidos, a Wet n’Wild, uma das maiores marcas de maquiagem do país, lançou uma coleção que tem como base os quatro elementos do zodíaco: ar, fogo, terra e água. A marca também mostrou ao mundo 12 batons e gloss que fazem referência aos signos.

Na moda, o impacto é corriqueiro, de marcas autorais à fast fashion, muitas apostam no tema para lucrar. A Farm, por exemplo, lançou em 2018 uma coleção inteira de t-shirts inspirada nos signos.C&A e Riachuelo também já trouxeram modelos com estampas do zodíaco.

Pegando carona nessa onda, o mercado astrológico também cresce. Sites como Personare, Astro.com e celebridades esotéricas como Susan Miller, cobram mensalmente para dar atualizações astrológicas personalizadas por e-mail e para diversas interpretações do mapa astral que, em tese, explicariam o desempenho no amor, no trabalho e na vida como um todo.

Em entrevista ao The Atlantic, Susan Miller destaca que seu trabalho se baseia em traduzir os gigantes conceitos da astrologia em um conteúdo simples para aquele mês específico. Ela ainda descreve a astrologia como um coquetel: “Você pode ter três pessoas conversando, duas podem estar em um canto discutindo, Vênus e Marte devem estar se beijando. Preciso trazer senso para esses encontros que estão acontecendo todos os meses para você”, exemplifica Miller.

Um estudo datado de 1982 pelo psicólogo Graham Tyson descobriu que as pessoas tendem a recorrer para a astrologia em tempos de estresse e uma pesquisa da American Psychological Association, de 2014, mostra que os Millennials são a geração mais estressada desde então.

Um relatório de tendências do grupo de inteligência J. Walter Thompson comprovou que a irrealidade se transformou em escapismo para a modernidade e que isso tem se traduzido na apreciação pela espiritualidade – busca por novas verdades e significados.

Mais de metade dos jovens americanos acreditam na astrologia como uma ciência. Dados da IBIS World indicam que a indústria de serviços esotéricos cresceu 2% entre 2011 e 2016 – um mercado de 2 bilhões de dólares.

Panorama comercial da astrologia

O Co-Star é um app de astrologia personalizada para o iOS com inteligência artificial integrada, possui milhões de downloads na App Store e vende leituras complexas de mapa astral em sua plataforma. Atualmente, a nota do aplicativo na loja digital é de 4.9 de 5 estrelas e tem com 80 mil críticas. O aplicativo também foi foco de investimentos de incubadoras e recebeu um aporte de US$ 5 milhões de dólares de empresas do Vale do Silício. Segundo especialistas, o Co-Star pode se tornar tão grande quanto o Tinder.

O Spotify, em movimento recente, lançou uma série de podcasts para cada signo com atualizações diárias. Um esforço grande para atender uma grande parcela de ouvintes interessados.

“As estrelas servem como uma fonte guia em todos os aspectos de nossas vidas – de relacionamentos para carreiras e, em todos os lugares”, disse a empresa em comunicado oficial.

Quando pensamos em negócios online, a astrologia é uma garantia de audiência: em entrevista ao The Atlantic, uma editora do site feminino The Cut contou que em 2017, o tráfego na seção de horóscopos cresceu 150% em relação ao ano anterior.

No Brasil, temos escolas de astrologia que, antes fechadas aos entusiastas astrólogos, agora oferecem cursos abertos ao público que deseja aprender e entender melhor do assunto. As modalidades são as mais diversas, de cursos curtos que duram 6 meses à módulos avançados que levam mais tempo que um bacharelado.

Astrologia é uma tendência?

E como o comportamento direcionado à astrologia se traduz no mercado de tendências e comportamental? Iza Dezon, cool-hunter da Peclers Paris, revela que o contexto é muito mais simples.

“A ascensão das práticas místicas, conforme os estudos, vem da nossa profunda busca por compreensão. Estamos extremamente perdidos, confusos, em busca de respostas e maior entendimento. O interesse pela astrologia vem na busca de uma compreensão muito mais ampla, sem falar na disseminação do digital que trouxe esse conceito antes elitizado para uma abordagem acessível.”

Seriam essas as razões pela redenção do mercado de consumo ao esoterismo? As hashtags #astrology e #astrologia somam 5 milhões de publicações no Instagram. Se somarmos as hashtags #signs e #signos, esse número aumenta em quase 2 milhões. 1,6 milhões de pessoas curtem a página ‘Signos’ no Facebook e o número é mais impressionante na página “Astroloucamente” do Instagram: são quase 3 milhões de seguidores.

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A WGSN já listou a astrologia como uma das grandes tendências da década e, inclusive a apontou como a razão da escolha de uma das cores do ano: a Ultraviolet de 2018 da Pantone. “Em tempos de crise e incerteza política, o millennial quer pertencer a algo maior. Mas não se identifica com dogmas e rituais religiosos”, revela Maria Kowalski, executiva responsável por apresentar a pesquisa.

O que pensam os astrólogos?

Para entrar neste mundo de verdade, conversamos com a astróloga e especialista Virginia Gaia. Ela apresentou dados interessantes e trouxe um olhar analítico ao assunto em termos de consumo. Confira:

CONSUMIDOR MODERNO – Como você vê o levante da astronomia como uma tendência para o novo consumidor?
Virginia Gaia – Isso, na verdade, começou na era do rádio, que trouxe para o consumidor uma aproximação com a astrologia que antes era elitizada. No começo era um método de previsão usado pela realeza e depois por presidentes. Quando o rádio chegou, mesmo que com um horóscopo básico e generalizado, trouxe essa informação para as massas. Depois tivemos o boom das publicações impressas com o horóscopo semanal. Hoje, a internet democratizou a informação e deu acesso para uma pessoa de classe média saber que “mercúrio está retrógrado”, algo antes, improvável.

astrologia

CM – Você diria que a rede social facilita a procura por esses serviços (consultas astrológicas)?
VG – Com certeza! A internet trouxe a astrologia para um lugar onde ela jamais chegou, até os memes, mesmo que de maneira equivocada, disseminam a ideia de forma simplificada. Antes a consulta astrológica era muito cara e, ainda tem um preço elevado. Mas, de qualquer forma, as pessoas vão atrás dessa informação. Atendo homens, mulheres, pessoas de todas as religiões – qualquer um pode acreditar em astrologia sem ferir seu dogma de preferência.

CM – Essa nova geração busca a astrologia também como um modo de autoconhecimento e aceitação social?
VG – Hoje podemos listar uma grande quantidade de grifes que fizeram coleções inspiradas na astrologia com referências ao mapa astral. É um reflexo do consumo atual. Essa geração consegue se informar melhor sobre as coisas e também busca mais autonomia sobre o controle do seu destino. Hoje, há essa noção do apoio na astrologia para uma vida financeira, amorosa e social mais equilibrada.

CM – A Astrologia então seria uma maneira de responder perguntas que a ciência ainda não respondeu?
VG – Acho que passamos por uma época onde acreditávamos que a ciência iria responder exatamente todos os nossos questionamentos. Quando nos deparamos com um futuro onde ainda não temos respostas essenciais, precisamos buscar um reencantamento do mundo. Algo perdido após o iluminismo. É importante esclarecer, porém, que a astrologia não é anticiência, muito pelo contrário, é preciso entender astronomia para falar sobre o hoje. Sei que a maioria das pessoas interessadas sabem separar e entendem a astrologia de outra forma: não tão racional para ser ciência e não tão mística para ser religião.

Mais sobre Virginia: virginiagaia.com.br

A astróloga e pesquisadora de tendências Denise Carvalho também analisou o cenário. Ela já passou por grandes companhias e presta serviço com pesquisa de dados e forecasting.

CM – Como você enxerga a relação dos millennials e Z-GENS com a astrologia?
DC – A astrologia virou uma tendência. Ao mesmo tempo, a Geração Z é o grande questionamento de consumo das grandes empresas. É uma nova forma de organização de tempo, as antigas civilizações já baseavam seu tempo nas mudanças da natureza. Após o sistema capitalista entrar em voga, nosso tempo foi organizado de outra maneira (calendário judaico-cristão).

Para a astrologia, o universo é quem dita as regras do nosso tempo e de como levamos a vida: relacionamentos, trabalho e cotidiano. A nova geração nasceu junto com a internet, muitas coisas ainda não eram de fácil acesso antes disso. A relação da nova geração com a astrologia é uma questão de organização. Eles nasceram em uma época onde o consumo e o cotidiano era exagerado e a astrologia vem como essa contrapartida da distribuição tradicional de tempo.

CM – O que as pessoas procuram entender, geralmente, quando vão atrás de uma consulta astrológica?
DC –
As preocupações geralmente se traduzem com questões relacionais, um encontro, se localizar no mundo e entender o que vai ou não dar certo. Com base nas posições planetárias e astrais, a pessoa consegue enxergar padrões comportamentais que precisa mudar e entender a própria personalidade de forma mais profunda.

CM – Você acha que a astrologia é um nicho/possibilidade de mercado e lucro?
DC – 
Com certeza. Hoje tudo pode ser inspirado pela astrologia. Porém é importante frisar que encostamos em uma questão ética, pois a astrologia é uma filosofia de vida, uma visão de mundo. Quando usada apenas como um mero meio de consumo mainstream, pode ser um pouco desrespeitoso. Então, de certa forma, não é um comércio, não deveria ser. A disseminação trouxe isso, como por exemplo o ‘estereotipamento’. Ninguém é igual e existem milhares de variáveis no mapa astral. É legal ver como as pessoas estão animadas com isso, mas o lucro pode desviar o foco real dessa ferramenta que deve servir para revelar mistérios reais sobre a vida das pessoas.

Mais sobre Denise: LinkedIn


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