O que é Soft Economy? O termo mudará o mercado de trabalho nos próximos anos

Criatividade e confiança estão entre os elementos essenciais tanto dos novos profissionais quanto das vagas de emprego do futuro. Saiba mais sobre o termo Soft Economy!

Que os empregos estão em transformação, ninguém mais duvida. Os impactos da tecnologia, em especial da Inteligência Artificial, vêm sendo sentidos ano a ano, com vagas eliminadas enquanto profissões nunca imaginadas se tornam populares em um espaço de tempo muito curto. O surgimento dos motoristas de aplicativo de transporte são um dos maiores exemplos. Por isso mesmo, os estudos ligados ao Futuro do Trabalho têm ganhado bastante importância. Dentro desse campo se destaca o termo #SOFT ECONOMY, um conjunto de novas economias que surgem impactadas pelas descobertas tecnológicas e com uma abordagem mais criativa e humana do que chamamos de trabalho.

Para saber mais sobre o termo, fomos conversar com uma expert no assunto, a futuróloga Ligia Zotini, fundadora do Instituto Voicers, que pesquisa essas tendências de mercado. Ao contrário do cenário negativo que muita gente pinta com relação ao Futuro do Trabalho (milhões de desempregados, um tanto de gente ociosa sem ter como atuar na sociedade), Ligia é bem otimista sobre o que os próximos anos podem nos reservar.

“Estamos migrando do modelo de Hard Economy, a Economia Dura onde tudo é físico, na qual o próprio humano fica fisicamente preso em um lugar só, para uma coisa mais sutil, mais leve. Cerca de 60% dos novos empregos ainda nem foram criados”, diz ela.

Fique de olho nesse bate-papo porque ele é inspirador e pode já te preparar para novas carreiras. Vem ler!

CONSUMIDOR MODERNO – Por que você acha que  tema Futuro do Trabalho tem ganhado tanta atenção nos últimos tempos? Os avanços tecnológicos são mesmo os grandes responsáveis por esse interesse de como vamos trabalhar nos próximos anos?
LIGIA ZOTINI – O Futuro do Trabalho ganhou relevância com as novas tecnologias, que alteraram profundamente a maneira de fazer as coisas. Tudo isso começou com a chegada da internet, na virada do milênio, e depois em 2012, quando passamos a ter celulares inteligentes e pacotes de dados capazes de conectar os humanos de forma massiva. Conforme eu, como indivíduo, consigo transmitir meus desejos e meus pensamentos em tempo real, maior é a possibilidade de criar novos negócios digitais. Todas as empresas unicórnios nascem dessa economia de mobile first (mobilidade em primeiro lugar), como a gente bem sabe. E aí você precisa acrescentar mais alguns elementos a essa cenário: como a inteligência artificial, a realidade imersiva, a internet das coisas em todas as coisas… Indo ainda mais no futuro, tem o top chain, a computação quântica e a conexão homem-máquina. Isso tudo acelerou muito o processo de desenvolvimento da nossa civilização. Aquilo que geralmente acontecia em várias décadas, se passou em menos de uma – basicamente de 2012 para cá. Todas essas grandes mudanças não têm 10 anos consolidados. As mídias sociais todas idem. O termo Futuro do Trabalho vem da maturidade dessas tecnologias e de quanto mais próximas elas vão ficando da gente. Os negócios unicórnios começam pequenos e escalam muito rápido, de forma planetária. Acho que é isso que começou a chacoalhar as pessoas para o tema.

CONSUMIDOR MODERNO – Dentro desse cenário, você poderia explicar o que é a Soft Economy?
LZ – É o conjunto das novas economias – e como existe uma pirâmide de maturidade econômica no planeta. Nesse cenário, precisamos entender que já saímos da economia mais clássica, chamada “Economia Dura” (ou Hard Economy), onde toda a produção era física e começou na Revolução Industrial. Isso significava estar na linha de montagem, ter uma vida dura, o homem usados como máquina – como bem mostrou Charles Chaplin no filme Tempos Modernos. Estamos migrando desse modelo – de tudo físico, do próprio humano fisicamente preso em um lugar só – para uma coisa mais sutil, mais leve. E o primeiro caminho para isso foi dado com a Economia Digital, que desmaterializou um monte de coisas. O que eu precisava mover no tempo e no espaço hoje está à disposição no mundo digital, que democratiza tudo mais fácil, tem acesso amplo. E uma vez que a gente tem muito acesso digital, a Economia Criativa cresce.

CONSUMIDOR MODERNO – Podemos dizer que a Soft Economy, então, é a economia da criatividade?
LZ – Sim. Porque criatividade não é dom divino, é repertório. Desse lugar começamos a criar todos. E daí entramos na Economia de Acesso, que é outra camada dessa nova economia. A gente nunca teve tanto repertório assim a um clique de distância. Criativos e criatividade eram um asset caro, mas hoje ele está bem mais à disposição. A economia do compartilhar também surge assim. E a hora que eu compartilho, preciso cuidar do ambiente compartilhado. É a experiência do Airbnb, por exemplo, entrar na casa de alguém exige um cuidado emocional, entendeu? Esse é o próximo passo para instalar uma outra forma de economia, a Economia do Cuidado. Os ambientes físicos vão ser cada vez mais compartilhados e cuidados por todos, e o blockchain vai deixar tudo mais transparente.

“As mesmas tecnologias que são vilãs na Hard Economy, na Soft Economy são as possibilitadoras de novas matrizes de trabalho, renda e visão de mundo”

CONSUMIDOR MODERNO – Diversos especialistas indicam que a robotização engolirá uma grande parcela de profissões e, por consequência, de trabalhadores. Como o profissional pode estar preparado para isso? É preciso ter medo?
LZ – O trabalho do futuro tem, sim, a máquina como protagonista. A gente fala que esse é o paradigma da Economia Dura: não terão somente desempregados, existirão também pessoas que nunca mais vão conseguir se restabelecer nas profissões que exerciam antes. Empregos serão perdidos (seja pela automação, robotização, inteligência artificial, virtualidades reais, etc). Mas ver apenas isso é algo muito distópico. É óbvio que terá gente com mais dificuldade de migração – e ela está altamente ligada ao tipo de acesso que cada um terá às novas economias. De uma forma geral, esse paradigma de fim de mundo, de fim de trabalho, tem a ver com as tecnologias tomando o lugar dos homens, desse indivíduo que faz o trabalho da máquina, que é o que acontece hoje. Existe outra estatística, no entanto, que é a de que 60% dos novos empregos ainda não foram criados e isso é muito bacana. Significa que mais da metade das coisas serão recriadas e isso a gente só vai saber quando começarmos a usá-las. O exemplo do motorista de aplicativo é um caso desses. Há 15 anos não poderíamos supor que ele seria possível. Como íamos descobrir que seria possível vender algo por stories do Instagram, por exemplo. As mesmas tecnologias que são vilãs na Hard Economy, na Soft Economy são as possibilitadoras de novas matrizes de trabalho, renda e visão de mundo – e de uma forma mais abundante. Como vamos fazer para migrar as pessoas é uma responsabilidade nossa – seja fazendo isso em nosso próprio ecossistema, seja pedindo políticas públicas que nos avancem mais rápido no tempo. Talvez a gente não tenha mais o trabalho com CLT, como se conhece, mas isso não quer dizer necessariamente que vai faltar trabalho.

Foto Unsplash

CONSUMIDOR MODERNO – Sua visão é otimista sobre o que a Soft Economy pode fazer no que se refere às mudanças de comportamento na sociedade. Isso acontecerá com todos ou apenas com a parte da sociedade que já é privilegiada em termos de acessos e poder aquisitivo?
LZ – Como sociedade brasileira, a gente divide um espaço no globo, mas não o mesmo tempo de outros países. Existem lugares mais avançados na Soft Economy – seja por questões políticas, acesso tecnológico ou simplesmente por já se tratar de um país desenvolvido. O futuro tem a ver com acesso, até mais do que apenas com dinheiro. Quem estuda o Futurismo acredita que a concentração de riqueza não será a concentração de futuro. Existe uma linha de pensamento futurista (não distópico) que é a de acompanhar o desenvolvimento tecnológico junto com o social. A gente tem que usar essas duas vertentes o tempo todo porque a tecnologia é usada pelas pessoas. Vamos pegar como exemplo a geração dos Millennials, que falam ser cheia de “mimimi”. Eu, pessoalmente, questiono muito isso. Na verdade, trata-se da primeira geração de indivíduos educados em massa – na anterior, de seus pais, só a minoria conseguiu ir para a faculdade, eram pessoas bem ilhadas em seus bairros, em suas cidades, que quase não tiveram repertório de visão diversa. E nós sabemos o que nasce quando as pessoas ficam muito isoladas nas suas realidades, não é? Toda a sorte de preconceitos e de dificuldades de aceitar o diferente. É por isso que os líderes dessas novas economias, os criadores das startups são Millennials (é bem difícil ver alguém nessa posição acima dos 45 anos). Essa geração é a que foi lá e criou realidades paralelas. E por que eles conseguem se utilizar dessas novas economias? Não só porque viajaram mais, estudaram, tiveram acesso à internet, mas também porque são pessoas mais sutis, mais leves, por causa dessa exposição toda. Imagina o que esses indivíduos de agora, a Gen Z, que é nativa digital, o que ela vai trazer, entende? O que me faz ficar mais positiva com relação a esse futuro é que as lideranças nunca foram tão sustentáveis quanto o que a gente está vendo agora. Nunca esteve tão em pauta essa discussão do lucro máximo X o progresso da humanidade como com as novas gerações. Quero acreditar que não levaremos tanto tempo assim para incluir todo mundo, o desenvolvimento social será mais rápido. Existe uma co-relação muito forte entre melhores humanos usando melhores tecnologias.

CONSUMIDOR MODERNO – Quais são as principais profissionais alinhadas com a Soft Economy?
LZ – A maior parte dos profissionais hoje se dividem em Hard, Digital e Criativos. De imediato, posso dizer que tudo que está ligado ao digital – vendas, marketing, bem como todos os processos tecnológicos. Mas eu iria além do óbvio, iria para o grupo dos Cs: aquele humano que Cuida, Compartilha, faz Curadoria, Conhece… Esses Cs serão muito utilizados no futuro enquanto as máquinas farão o trabalho de máquina. Vai sobrar para a gente o trabalho de humano mesmo. Hoje não usamos, não exercitamos a nossa humanidade. Os humanos serão convidados a pensar o quanto estão criando, o quanto estão dando acesso ao conhecimento. Eu diria que a profissão do futuro tem a ver com esses Cs – seja qual for a especialidade dela.

CONSUMIDOR MODERNO – O que é o Voicers? O que você pode nos contar sobre ele?
LZ – O Voicers é um ecossistema que pesquisa essas tendências de mercado – olhar os sinais fortes e fracos – e começar a desenhar cenários a partir desses movimentos percebidos no presente. É baseado em pesquisa, em experiências e em acesso (eventos, palestras, podcasts). Gostamos de desenhar cenários de futuros desejáveis através de vozes que são muito boas no que fazem nos pilares de Tecnologia, Tendências e Pessoas (os três pilares que a gente cobre). Pessoalmente, acho que hoje temos muito ainda o efeito Black Mirror, sabe? Que é a soma do melhor da tecnologia com o pior do humano. Tem bastante narrativa distópica que faz um desserviço gigantesco. Porque a hora que eu entrego esse mapa mental de que a tecnologia vai prejudicar o humano, as pessoas começam a acreditar nisso e manifestam isso. O Voicers vem combater também um pouco essa ideia, porque nos preocupamos com o impacto no ecossistema, em sermos referências positivas nas quais as pessoas possam tirar suas próprias conclusões. Queremos ser o White Mirror.



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